SEPARADOS FINALMENTE

Abril 11, 2008

Diásporas são temas estudados com freqüência por brilhantes e limitados estudantes desde o Ensino Fundamental. A despeito das circunstâncias com que cada uma foi provocada, suas conseqüências mercadológicas e antropológicas são inegáveis. A globalização espelhou-se nas galeras fenícias, mas a internet tem suas bases nas diásporas. Com a extensão da cultura típica de uma região se alastrando por paisagens diferenciadas, a conclusão natural é que as diásporas e o mercado naval foram os precursores diretos do mundo virtual.

Mas se conseguimos enxergar um ponto positivo em um momento invariavelmente delicado para a história de qualquer povo, não podemos, por outro lado, limitar à condição humana o privilégio de se reerguer de um momento de dificuldade, ou a tragédia de afundar mais, quando ninguém imagina que isso seja ainda possível. Pacas e andorinhas também fazem sua diáspora, independentemente dos conceitos bípedes de nação. Convença uma paca que aquele pedaço da várzea sem alimento é o dela e por isso ela deve sofrer de inanição ao invés de nadar até o outro lado do estreito rio, que farão um filme com você, e será bem melhor que o Dr. Doolittle da Pesada Muito Louco em Londres 3.

A despeito da espécie, podemos considerar que a definição de nação depende do sujeito em questão. Abelhas, por exemplo, têm em sua colméia uma nação bem definida. As formigas, o outro exemplo óbvio de colônia, vivem em constantes batalhas com o reino dos anelídeos, das toupeiras e são freqüentemente invadidas pelas infantarias do tamanduá. Ou seja, se a divisão de castas sugere um controle social completo e imperialista nos melhores moldes humanos, o mesmo não acontece com a certeza sobre a extensão de seu domínio, em constante alteração.

Com esta rasa apresentação desse amplo conceito e suas ainda mais amplas possibilidades, estamos aptos a conhecer Olga. Olga sempre odiou seu nome. Ainda hoje acha que é um bom nome para sua avó. Ela odeia também o fato de que está sempre mudando de escola, bairro, cidade, país ou hemisfério antes que seus quase-amigos se acostumem com seu nome saído direto de um antiquário. O pai de Olga tem vários nomes. É possível que um deles seja o verdadeiro, mas, por ele ser o falsificador de cheques mais procurado em pelo menos quarenta e sete países, o normal é que a própria Olga fique em dúvida qual usar.

Acra, Amsterdã, Basiléia, Brasília, Campina Grande, Dacar, Dublim, Estocolmo, Havana, Jacarta, Juneau, Kiev, Londres, Lucerna, Manágua, Manila, Montevidéu, Moscou, Nicósia, Omsk, Phoenix, Riade, Roma, São Paulo, Tashkent, Tbilissi, Teresina, Tóquio e Zagreb são, em ordem alfabética, as cidades onde Olga já morou. Amanhã ela vai completar dezessete anos e o único lugar que seu nome passou despercebido foi em Estocolmo, onde é um nome até comum, e em Londres, onde esse tipo de estranheza é ignorado devido a outras coisas estranhas como a Lilly Allen ou qualquer capa de tablóide gratuito.

Hoje, Olga mora em São Paulo faz oito meses. A esta hora da noite ela deveria estar estudando, mas está pensando que adoraria cursar arqueologia, embora ainda não seja possível saber em que país deve escolher a faculdade. Só torce para que não seja em Burkina Fasso. Olga ouviu dizer que o francês burquinense é compreensível apenas com conhecimento das gírias do dialeto tribal da região. Telefone.

- Alô?

Não, não tem ninguém com esse nome.

Não, meu pai não está.

Não sei se ele volta hoje.

Não esqueço de avisar, não.

Mas, qual o seu nome?

Ah, só dizer que é um amigo?

Sei.

Tudo bem, então.

Tchau, tchau.

Acabamos de ter o privilégio de acompanhar o roteiro básico dos telefones à casa de Olga. Esta seqüência, claro, pode ter pequenas variações, para baixo (quando é engano) ou para cima (um inspetor mais insistente). Olga sabia que era alguém da polícia, e isso bastava para que ela usasse de respostas curtas e vagas, e para que seu pai ficasse tranqüilo. Ela imaginava, de qualquer forma, que a equipe de treinamento da polícia era formada por uma corja de apedeutas. Que espécie de amigo não perguntaria por ela? De qualquer modo ela sabia que seu pai nunca tivera um amigo. Olga não queria ficar como seu pai. Não queria desconfiar de todos, de toda rua, de todo prato de comida, de todo convite para uma noite divertida. Sabia que a desconfiança só confiava na solidão. Sabia também que queria ser arqueóloga, bioarqueóloga, para ser mais exata.

Olga convivia no período letivo com muitas adolescentes da mesma idade. Os desejos profissionais mais comuns atualmente eram publicidade, jornalismo, administração e especificamente em seu colégio, fonoaudiologia. Olga, como toda adolescente solitária, tinha uma bela coleção de teorias sobre tudo a sua volta. A explicação para o porquê de arqueologia era que sua rotina cigana a fizera muito apegada a suas origens, suas reais raízes, logo, com sua terra. Obviamente se isso fizer algum sentido, Olga deve cursar psicologia ou matemática analítica, não arqueologia.

O que a idade psicologicamente conflitante de Olga não permite que ela perceba é como as pessoas com quem ela convive a acham interessante. Consideram-se mesmo incapacitadas de ter um assunto que seja coerente com a cultura de Olga. Sempre que ela se muda é a mesma estória. Fica aquela sensação de morte de melhor amiga nas meninas, de grande amor perdido nos meninos, de intercâmbio da filha perfeita nos adultos – e de solidão em Olga. Seu celular sempre tem os mesmos números na agenda: o da ambulância, dos melhores médicos, de uns quatro advogados, de seguranças, bordéis de média qualidade e do IML, caso precise do pai para uma situação emergencial. Nos picos de sua agonia, Olga chegou até a considerar uma ligação para a operadora de seu telefone para conversar com o telemarketing. Inventaria um problema na tecla de cancelar chamadas e pronto, tinha uma desculpa para ligar e ela ainda servia para que o papo se alongasse. Por respeito próprio ela preferiu não fazer isso.

Os dias de Olga passavam lentamente. Entre uma refeição e outra havia pouco mais que uma leitura, um passeio até a praça próxima e uma descansada na sarjeta. Raramente checava e-mails (eram sempre spams mesmo) e navegar na internet , ao contrário do que dizem por aí, não a fazia mais social. Às noites Olga pensava que o normal seria sair e se divertir ou ficar em casa relaxando. Sair sozinha pelas ruas era considerado perigoso até pelo seu pai. Sair com os seguranças presos em seus calcanhares era como não sair. Ficar em casa tornava-se, assim, noite após noite, a opção depressivamente mais recomendada.

É muito claro para todas as pessoas que Olga está muito bem de vida. Infelizmente, para Olga só é claro que suas coisas maravilhosas e sofisticadas são oriundas unicamente dos embustes paternos, e que no primeiro vacilo dele tudo se esvairá. De maneira alguma Olga colocar-se-ia entre o pai e os negócios que os jornais fingem que entendem a cada notícia de tentativa frustrada de prisão. Toda essa compreensão não contribui em nada para que Olga queira seguir uma carreira familiar, muito pelo contrário.

Para aqueles que não conseguem enxergar Olga como uma menina tímida, com vergonha do próprio nome, ela é mais uma riquinha, mimada e que quando as férias de verão chegarem, ela vai voltar contando vantagem sobre como os castelos escoceses são bucolicamente belos ou como a Disneyland é muito mais legal que o Disney World. Crianças podem ser verdadeiramente cruéis, mas adolescentes são verdadeiramente mentirosos e, acima de tudo, não se conhecem tão bem para saber que ficariam imensamente tristes sem a presença de Olga, caso ela sumisse sem aviso prévio, como sempre fora orientada a fazer.

Essa tarde Olga chegou de seu passeio, entrou no quarto e só viu o seguinte bilhete em seu travesseiro:

SE EU NÃO CHEGAR ATÉ ÀS 20H30 PEGUE SEU CASACO E ME ENCONTRE LÁ.

Embaixo do bilhete havia uma passagem para Abidjan, capital marfinense, agendada para às 23h50. Tempo mais que suficiente para o check-in e um pão de queijo de despedida de mais uma casa. Talvez por isso Olga não conseguisse estudar, e sim só pensar em arqueologia. Olga sabia que em momentos de urgência, ordens transmitidas por escrito e sem direito a contra-argumentação deviam ser seguidas a qualquer custo. Casaco na mão. Olga só esperava a hora certa para assegurar-se que nada sairia errado. 20h27. Telefone.

- Alô – gritou Olga.

- Não, não tem nin…quer dizer, sim…sou eu.

Nunca alguém ligara para ela antes. Ela ficou paralisada de alegria. 20h28.

- Se eu quero sair? Mas é que eu estou de saída – respondeu tímida.

- Cinema com o pessoal amanhã?

- Acho que tudo bem.

- E onde é o bar de hoje, mesmo?

20h29.

Olga deixou o casaco em cima da cama e saiu pela porta dos fundos. Foi passeando, à noite, sozinha pelas ruas. A cada passo ela lembrava de canções de sua infância. Uma rima de Gana e outra entoada irlandesa eram suas favoritas. Olga tinha decorado as principais conexões dos aeroportos de Frankfurt, Hong Kong e Atlanta desde os doze anos de idade, mas não sabia o preço de uma garrafa de cerveja e de uma porção de batatas fritas em um botequim. Ela não queria saber mais de rotas aéreas do que dos túneis da cidade. Pensando bem, Olga nem gostava de arqueologia. Também não gostava de publicidade, jornalismo, administração e fonoaudiologia. Mas gostava de acordar no mesmo lugar no dia seguinte.

Essa tarde seria a última vez que Olga veria seu pai. Ela sabia disso. Era bom estar de volta para um lugar o qual ela só conheceu nos sonhos. Um lugar que ela pudesse chamar de seu. Não tinha como procurar por seu pai. Por qual nome procuraria? Em que lista ele se arriscaria a colocar sua identidade? Mas só para garantir que ele não a achasse, Olga resolveu deixar seu telefone em uma lata de lixo. Era uma lata bem suja, e Olga colocou seu aparelho bem no fundo enquanto uma lágrima escorria devagar, molhando só um pouco suas maçãs. Seus olhos, ao invés de inchados e cerrados, ficavam ainda mais brilhantes.

Fibes, Oh, Fibes! – Still Fresh. Um ama salsa, outro considera o Arizona importantíssimo para sua formação cultural e as ruas mereciam mais bancos para você fumar um cigarro tranqüilo enquanto ouve.


MACHIFESTO

Março 10, 2008

Em um futuro não muito distante, em um grande ginásio de uma grande universidade, o Partido dos Limitados – que tivera seu nome definido pelo congresso – apresentava seu devastador discurso, que, segundo seus líderes, revolucionaria as bases epistemológicas sociais e antropológicas impostas na época. O local estava repleto de homens barbados. Barbas bem feitas, aparadas, sedosas e brilhosas como uma crina, nada daquelas barbas dos cossacos. Eles eram os descendentes dos glutões do século XX, que morreram gordos em uma época em que o colesterol ainda era uma preocupação e a água do mar não era filtrada. Estavam todos eles segurando seus copos de cerveja e ouviam atentamente a promessa de um mundo mais justo, livre da perseguição sexofóbica das mulheres.

“Amigos,

Ainda hoje, em pleno século XXVI é inaceitável que existam membros do sexo feminino, considerando que nós, homens, não conseguimos fazer as coisas tão bem quanto elas. Claramente apoiadas pela maioria feminina no congresso e senado, as representantes do sexo forte continuam a explorar os homens desde sua mais maviosa idade.

É injusto e assustador que há mais de dois séculos sejamos tratados com descaso e repúdio pelas classes maquiadas, que têm acesso liberado ao backstage das fábricas de sutiã. Por exemplo, as universidades infantis são um privilégio feminino. Por que o garoto, brilhante como a mais iluminada das meninas, é obrigado a freqüentar o grupo escolar destinado ao seu número de registro de nascença? Mesmo que isso signifique viajar mais de duzentos quilômetros diários em variados transportes públicos, só para obter uma educação básica e beldroega.

A história nos mostra que esta repressão ocorre desde o século XXII. Antes disso, o mundo era capitaneado, em sua maioria, por homens. Em um ato de benevolência e clara demonstração de superior capacidade de convívio social entre iguais, nós, homens, permitimos que as mulheres (que já tinham suas honrosas tarefas domésticas e maternais) fizessem parte do nosso ambiente de trabalho, dos círculos sociais que nos orgulhávamos, de nossas vidas íntimas. E então, elas nos aplicaram um golpe de grande-mestre enxadrista. Enquanto países em desenvolvimento mexiam em pecinhas de construção civil e AKs-47 as mulheres em desenvolvimento moviam pessoas e contextos ao seu favor. Aparentemente, além do avanço biológico privilegiado, as mulheres também evoluíram em outros aspectos como, egosociais, antropofágicos, esportivos e bélicos. Todavia, companheiros, tal progresso só seria possível caso as fêmeas antigas conseguissem dominar as dimensões relativas da física e seus portais espaço-tempo. Portanto, em vista da seriedade desta possibilidade, é correto afirmar que nossas opositoras políticas vivem, ainda nos dias de hoje, agora, conosco e ao mesmo tempo no futuro, onde provavelmente o mundo segue seu caminho natural, liderado por homens. Porém, aqui, em nosso tempo, somos subjugados, e quando chegarmos ao futuro, continuaremos dominados e o presente da outra dimensão, como ele deveria ter acontecido, terá se alterado. Às favas com o paradoxo temporal.

Assim, o lorpo destino da nossa sociedade atual recai ao momento em que permitimos a entrada delas para um novo mundo, cruel, do qual as estávamos preservando. Neste ponto,surgiu numa microfração muito relevante da linha histórica que deu abertura para que fatos notáveis contribuíssem com mudanças significativas na ordem e organização, prezada e defendida por nós, espécime masculina, sucedessem. Não é isso mesmo, afiliados? Vejam só as academias de ginástica, um câncer que ainda hoje impera, seja na área rural, urbana ou espacial, e nos torna cada vez mais impotentes. A simples visão das curvas torneadas pela magia negra das máquinas de supino é o nosso melhor exemplo.

Historicamente, a instituição Academia de Ginástica começou a se formar nos calabouços de Green Grass Northshire Castle. Lá condenados passavam pelo julgo de reis e rainhas, príncipes e princesas, amas e cozinheiros, e eram sentenciados a ficarem, de tempos em tempos, presos em uma posição semelhante a da crucificação. No ano de 1.376, uma mulher de idade foi colocada junto dos detentos homens. Eles, sensibilizados com a situação daquela senhora foram ajudá-la. Mal sabiam que ela era uma harpia aprisionada em sua forma unicamente humana. Aos poucos, ela foi sugando a energia de cada um dos réus, até que se tornassem pele, ossos descalcificados e glóbulos oculares amarelados. Quando seus poderes atingiram o auge, ela conseguiu escapar, mas antes amaldiçoou a posição que tanto forçou seus músculos e quase provocou a perda completa de seus movimentos, e por conseqüência, sua mágica. Estudos comprovam que essa posição amaldiçoada é a mesma recomendada nas primeiras máquinas de supino, sucesso entre os homens da década de 1980. Além de tornar os polhastros atrativos apenas para Ursos Grizzlies, a vaidade entrava sem vaselina no consciente masculino, derrubando a auto-estima como se ela fosse um objeto de decoração sem valor. Para corrigir esse problema, os homens passaram a desenvolver aparelhos mais tecnológicos, que tornassem o corpo mais sensual. Isso também não fez com que sua auto-estima se engrandecesse. Então, homens benevolentes, mais uma vez ludibriados por alguma poção vinda do futuro, apresentaram às mulheres a academia, oferecendo a chance de elas mostrarem todo seu talento e capacidade de raciocínio em um ambiente tipicamente masculino, tornando-o mais harmônico. Ingênuos, isso que fomos. O contato massivo da espécie feminina com a antiga maldição da harpia aflorou os piores instintos do mulheredo. E por isso hoje, séculos depois, nós definhamos. Só temos ridículos hectares de florestas recuperadas pelos governos femininos para correr e nos exercitar, enquanto as fêmeas podem usufruir das florestas, com seus lagos e rios despoluídos, e também das nanomodernas vilas esportivas. Mas não me tomem por praguejador e detalhista. Não. O departamento esportivo é apenas um dos segmentos em que somos humilhados e azorragados.

Estão começando a entender o que quero dizer companheiros de punheta? Onde está a poluição que preenchia nossos pulmões? E como as mulheres lhe tratam no trânsito? Xingam você de burro, braço. E os carecas então? É só ultrapassar um pouco o limite de velocidade que já ouvimos o coro “tinha que ser careca”. Injustiçados carecas. Elas pensam que o domínio de modalidades como Fórmula Zero e X-Rally lhes dá o direito de pensar que nós, homens, não temos mínimas condições de competir em uma prova automobilística. Insulto.

E agora, peço aos associados que consideram seu estômago forte o suficiente, que fiquem. Mas sintam-se à vontade para não continuar aqui, aqueles que ficarem incomodados com os temas. São delicados, eu sei, mas temos o dever de levantar as questões Entretenimento ao Ar Livre e Trabalho. Esses tópicos específicos são considerados as principais causas de suicídios nos países com alto índice de suicídios. E não é para menos.

Como, homens da minha nação, nós vamos nos divertir tranqüilamente na praia enquanto mulheres poderosas passam a nos intimidar, e a caluniar nossos defeitos e exaltar nossas qualidades como se fôssemos legumes muito verdes ou muito rotos. “Ah, esse é bom de apalpar, esse já está mole. Hum, esse tem uma pele boa, este parece um pé enrugado com frieiras”. Como, meus selváticos, vamos manter o mesmo desempenho visual que o delas. Somos proibidos de entrar em lojas de cosméticos, não temos um ginásio sequer. Apenas uma campo que tem mais terra batida e texugos do que grama. Não estamos em condições de argumentar, quanto mais de demonstrar que também podemos escolher, que o esporte, a política, as cirurgias, a educação, tudo, não são atividades exclusivamente femininas. Quando nós poderemos olhar um biquíni e fazer um coro de elogio às ancas? Quando poderemos entrar em praias de topless sem ter que pagar uma taxa abusiva? Quando voltaremos a ter shampoo e condicionador 2 em 1 ao invés de sabão de coco incluído na cota da nossa cesta básica masculina? Quando as meninas do campo vão balançar suas saias hippies e ouvir aplausos ao invés de desejos reprimidos? Este tema precisa de abordagem iminente, correligionários de bolsa escrotal, e acreditem, se tivermos a chance, não vamos nos intimidar.

E quanto ao trabalho. Proponho uma greve imediata. Da mesma maneira que somos tratados em boates, danceterias e bares, a falta de mesura também assola o ambiente corporativo. Nossos cargos, muitas vezes abaixo do que merecemos, nos ata as mãos frente às injustiças sexuais sofridas. Depilar o peitoral como técnica barata de sedução em entrevistas, sapatos bico fino para parecer que sempre calçamos uns números a mais, ter que apalpar os peitos caídos da superiora da área, depois da superiora do departamento e por fim da superiora geral só para ganhar um café na reunião que, por um milagre, você foi convocado e não está entendendo nada, porque a informação relevante nunca chega aos seus ouvidos. E o pior, mesmo não possuindo posições de comando em nenhuma das grandes empresas do mundo, a culpa sempre recai sobre nossos ombros. Lembram-se do caso da presidente daquela empresa inglesa? No processo de separação o marido saiu com um par de meias e um colher de café. Acusado de interesseiro e biltre em praça pública. Logo em seguida, devido a uma segunda mão de esmalte mal aplicado, ela foi deposta. Neste momento o pobre do (já) EX-marido foi acusado de abalá-la emocionalmente em um desquite que lhe drenou a consciência. Não somos interesseiros caros colegas, somos sim interessados na nossa emancipação dessa ditadura repressora do absorvente.

Por isso, meus companheiros que vão ao barbeiro ao invés do cabeleireiro, conto com o apoio de vocês no último domingo do próximo mês para iniciarmos o processo de renovação social, onde os homens também poderão controlar ações e rumos a serem tomados. Teremos um canal de televisão só com pornografia, a Copa do Mundo Masculina voltará a ser jogada a cada quatro anos e a área do comércio do amendoim japonês será redefinida de acordo com os padrões dos botecos mais tradicionais. São planos ambiciosos. Sim, eu sei. Mas eu não deixo de acreditar que juntos, unidos, atingiremos nossos direitos.

Obrigado.”

“Não. Juntos e unidos não significa de mãozinhas dadas.

Obrigado.”

liz_peq1.jpg

Liz Phair – Exile In Guyville. Ah, homens. Rendam-se logo, por favor.


A PRIMEIRA VEZ ANTES DA PRIMEIRA VEZ

Fevereiro 8, 2008

Está mentindo a garota que discorre sobre sua primeira vez, relembrando dolorosa e maliciosamente da experiência que teve entre os catorze e dezoito anos. Mas não se matem, meninas, vocês não têm a menor idéia de que estão mentindo. É um loroteiro de marca maior o garoto que se gaba de ter consumado o coito pela primeira vez aos treze – ou pouco depois disso – enquanto caçoa de seus coleguinhas de turma que mantêm a virgindade. E é um tolo o coleguinha que baixa a cabeça, resignado com sua virilidade, quando deveria responder que a primeira vez dele acontecera há alguns anos. E não só a dele. Desconsiderando a fase oral, a primeira vez de muita gente aconteceu muito antes do que eles mesmos se lembram e consideram a fornicada primogênita.

Há quem considere sexo somente o ato da penetração. Provavelmente as mesmas pessoas que não consideram felação algo estimulante. Esse tipo de mentalidade contribui diretamente para o tabu da primeira vez. Se todos adolescentes e seus hormônios incontroláveis atingissem a etapa final sabendo que a primeira vez não é, na verdade, a primeira vez, tudo seria mais fácil e menos traumático. O primeiro dia de escola é uma experiência considerável para algumas crianças, mas não se compara à primeira relação mais profunda. O primeiro dia de trabalho é cercado de muita expectativa, mas não pode competir com a implacabilidade da primeira noite (manhã? Tarde?) de um pré-adolescente. Todas essas atividades (ir à escola, ao trabalho, sexo) são realizadas exaustivamente durante nossas vidas, por isso o conceito da primeira vez deveria ser revisado por algum conselho de pedagogia psicanalítica e adotado em instituições de ensino particulares e estaduais. Veja por este ângulo: duas crianças em um banheiro, muito mais do que um ato recriminado por pais católicos e pelas freiras do internato, é o cenário de um dos momentos mais excitantes da infância. O banheiro torna-se, nessas circunstâncias, o motel de quem ainda não tem idade para dirigir nem pedalinho. Outro bom exemplo é um casal de velhinhos desdentados e impossibilitados de movimentar a pélvis. Eles buscam no sexo oral banguela-genginitivo sua dose mensal de hormônios e incitamento naturais. Assim, percebemos que a idade é sim um limitador da atividade sexual, mas não da libido.

Tirando (novamente) a fase oral e as variações de cópula com galináceos, ovinos e eqüinos, mais relatadas na forma de piada do que como know-how, a maioria dos meninos e meninas tem sua primeira experiência antes dos dez anos, e o ser oposto normalmente é: irmã(o) de outro casamento do pai, prima(o), amiga(o) da escola ou da rua (do prédio/do condomínio). Dificilmente esse tipo de relação ocorre em locais de pouca freqüência. Clubes, por exemplo, se são usados única e exclusivamente para a prática de um esporte podem gerar as subseqüentes experiências da garota ou do raparigo, mas não a primeira, quando ainda existe uma cumplicidade entre os praticantes do ato. Poucas crianças falam “mostra o seu que eu mostro o meu” para um desconhecido.

A desconstrução do mito da primeira vez começa com a desmistificação do ritual de passagem. É só sexo. Não significa que você tem que caçar um leão com um abridor de latas. Não é algo que você vai fazer uma vez na vida para provar que pode ser um o guerreiro-chefe ou capitão de um caiaque. Da mesma maneira, as garotas que mais cedo percebem que a foda de princesa vai acontecer dos vinte e poucos em diante, que a primeira vez vai doer, mais cedo vai perceber os prazeres que o sexo proporciona, seja o tântrico ou a rapidinha na caixa d’água.

Um bom gosto e disposição nas preliminares (e por preliminares entenda até o beijo que antecede a mão nas nádegas quando se tem 11 anos) mostram subliminarmente ao parceiro, então um amador cheio de medos e nojos (os quais você já superou), que ninguém faria algo ruim com tanta disposição. Ou vocês acham que o carrasco não gostava de ficar dando nós em cordinhas e afiando lâminas? Porém, ao contrário das crianças descobrindo a sexualidade, o carrasco tinha uma sociedade, ou ao menos mandatários, que o apoiavam e incentivavam suas sevícias.

Mas novamente, meninos e meninas, não se aflijam. Existem sempre livros sofríveis cheios de dicas traumatizantes sobre a construção de um relacionamento saudável. Eles são para maiores de 18 anos, mas tudo bem, revistinha de sacanagem também é e qualquer moleque de calças curtas compra um exemplar. E o principal na fase de transição entre bandeirante dos hormônios e conquistador de experiências é nunca deixar de fazer alguma coisa que lhe dê prazer, como tomar fanta uva, comer sanduíches de manteiga com açúcar e se quiser incluir na lista, sexo e coisas proibidas por aqueles que não tiveram coragem de colocar essas mesmas coisas em prática.

newpornographers_peq.jpg

New Pornographers – Electric Version. Pop pornô de rapidinhas que mais parece a aula “Rock Contemporâneo: Composição e Bom Gosto Para Bandas Superestimadas”. Combina com cervejas, refrigerantes radioativos, conhaques, cigarros e pedaços de camembert, tudo junto. Para quem não tem tabus com músicas que grudam nos ouvidos desde a primeira vez.


DO THE EVOLUTION

Agosto 20, 2007

Acordar no susto era uma coisa corriqueira em minha vida. Mas antes, o que eu achava normal passou a me assustar cada vez mais. Já fazia uns nove anos que eu estava nessa porra de hospitalzinho psiquiátrico de bairro. Obviamente não tinha nada, mas ainda assim uma vez a cada seis meses os diretores insistiam em fazer relaxantes sessões de eletrochoque. Pelo menos não aumentavam minha voltagem igual faziam com o Xing-Sen. Coitado do chinês, ficava desatinado. Só porque queria colocar pastel de cachorro na barraquinha da feira. Eu falava pra ele que aqui não era a China, que um dia iam reclamar. E como reclamaram.

No geral, a rotina transcorria de uma maneira até pacífica. O pior eram os remédios mesmo. Teve um dia que meu ex-colega de quarto colocou Stelazine no suco de um enfermeiro. O cara era forte pra burro, saudável o suficiente para agüentar uma dessas pílulas que a gente toma por aqui. Deu uma semana piava e saltitava alucinando. De jagunço virou chicoteado também. Achei um pouco triste, mas conheci gente que batia palmas quando ele ia para o quartinho reformatório. Não havia um dia que não voltava todo borrado. Isso era considerado o auge da rebeldia naqueles anos.

Quanto mais o (antes) enfermeiro entrava e saía com o esfíncter frouxo da ala nove, mais vibravam meus colegas de reformatório. Muito mais pelo fato de ser um ex-carrasco que se cagava do que pelo ato de cagar em si. Mesmo porque aqui todo mundo fazia suas necessidades fora de lugar. Comíamos fora das mesas, dormíamos em tábuas por capricho organizacional – quanto pior o sono, menor a resistência que apresentaríamos – escovávamos os dentes no tanque de roupa, fazíamos sexo em qualquer lugar, logo, não poderiam criar a expectativa de que a cagada seria no vaso. Nos tratavam como escória e depois queriam que nos comportássemos como sommeliers.

Eu percebi isso dos remédios deveras rápido, por isso consegui escapar de um caminho que a maioria traça depois que cruza os portões pela primeira vez. Percebi um pouco antes de entrar nessa pocilga, há uns dez anos, quando um tio passou uma temporada aqui. Ele chamou depois, no auge da sua tênue lucidez, de temporada com o tinhoso. A culpa pelo carinhoso nome recaiu sobre o diretor da instituição e os remédios. A afeição que eu tinha pelo irmão de minha mãe, pelo sorriso e pelos apelidos com que ele me chamava desapareceram com a amargura e o rancor que agora exalavam de seus olhos e das suas ações.

Para compensar os remédios, umas duas vezes ao ano alguém era liberado. Você nunca sabia quem seria o pseudo-fortuito. Pseudo porque poderia ficar igual meu tio, uma pessoa completamente irreconhecível para a família e amigos próximos. Um paria cercado de vultos, que em nenhuma hipótese seriam considerados conhecidos, tamanho o desprezo que cultivam por ele. Uma choldra covarde, que não conseguia encarar o fato de que o estado mental e social do ex-sangue-do-seu-sangue era em grande parte sua culpa. O último que eu vi sair foi o velho Ofir. Rapaz bom, devia ter uns cinqüenta e tantos, aparentava uns setenta e muitos. A família fez uma festança para recebê-lo em casa e fez outra ainda maior quando, uma semana depois, ele foi mandado de volta. Ofir nos contou às gargalhadas que o genro não agüentou quando um punhado de bosta com pétalas de lírio acertou bem o rosto do pug da família. Ofir se justificava para o marido de sua própria filha:” Mas tinha umas pétalas brancas cheirosas.” Pedro Pablo chamava o pug. Com certeza merecia um troço de merda na cara.

O fim das altas, como medida repressiva ao comportamento de Ofir, tornou as visitas um pouco mais freqüentes. A falta da mais reles esperança faz coisas impressionantes com a ridícula mente humana. Certa vez, e isso eu vi com minhas próprias orelhas, uma família veio visitar a instituição. O único interno que se recusou a tomar banho era exatamente o motivo da visita. Quando pai, mãe e irmãos entraram no quarto havia um azedume e o sujeito estava deitado em cima de sujeira pura. Algo muito chocante para a família, que provavelmente imaginava encontrar seu filho em um hotel três estrelas. No jantar daquele mesmo dia fui perguntar porque ele se recusou a tomar banho, no que ele disse: “Para simbolicamente poder mostrar para minha família que eu tenho nojo deles por me deixarem aqui, e para verbalmente falar, tenho medo dos enfermeiros, se fico imundo eles mantém distância”. Foi de um raciocínio brilhante. Pouco depois ele foi retirado daqui e anos depois viemos a descobrir pelo tráfico de jornal (que era o único tipo de tráfico que tínhamos há uns anos) que um jovem problemático havia matado a família. Um verdadeiro ator aquele menino. Convenceu a todos, até a nós, que sempre pensamos que nos conhecíamos. E essa dúvida foi o começo de um pandemônio interno.

A partir daí ficamos um pouco mais precavidos e passamos a cuidar mais uns dos outros. A organização aqui dentro foi impressionante e segmentada. Esquizofrênicos com esquizofrênicos, formando com suas inúmeras vozes o maior quorum de argumentação (segundo eles, óbvio) para qualquer decisão; depressivos com depressivos, confabulando em como a vida de todos nós era sem sentido em um lugar como aquele, exigiam a plenos pulmões remédios mais fortes e em doses para orangotangos. Obsessivo-compulsivos se maculavam do sangue de tantos transtornos juntos, divididos entre cada um dos membros da tribo. Foi uma cena impressionante e ninguém conseguiu explicar como eles conseguiram se organizar no final das contas. Suspeitamos que foram apenas obsessivamente se juntando com aqueles que não conseguiam falar por que estavam muito concentrados em suas rotinas excentricamente frenéticas. Infelizmente o grupo de Napoleões, tão desejado por boa parte do local acabou não se formando – os dois Bonapartes do antro decidiram que o reino era pequeno demais para os dois e um deles virou Carl Gustav, o monarca.

Foi o mais próximo que conseguimos ficar de um freak show sem controle. Aos comandos do diretor cada defeito considerado socialmente inapto de convivência era enaltecido e enquadrado para o caderno de notícias bizarras como justificativa às verbas exorbitantes que começamos a receber. Começamos, não só diretoria. Percebendo que a organização feita por osmose espontânea e multicelular de comportamentos não lineares realizada pelos grupos trouxera benefícios para o caixa da instituição, o diretor passou a se dedicar como nunca aos seus ex-renegados. Alas separadas, cada um com seu capricho para evitar incompreensão e batalha campal. Eu suspeitava que isso nunca daria certo. E isso realmente só durou até o dia da grande chacina na ala dos fóbicos. Sem saber qual medo deveria ser o regente supremo de sua jurisdição (com direito a voto pela internet) e quase em vias de decisão, os medrosos mais patológicos do bairro de repente se viram invadidos pelos residentes da ala da síndrome do pânico, não se sabe como. Nesse momento foi fácil decidir qual medo deveria ser combatido prontamente. Foi a primeira briga de facções literalmente insanas que se teve notícia em território nacional. Saldo de mortos e feridos que deixaria muita rebelião do crime organizado parecendo briguinha de gang infantil.

De circo passamos a ameaça nacional. Como se tivéssemos armas químicas e de longo alcance, o exército ficou plantado nas cercanias, o Complexo do Alemão e afins puderam trabalhar tranqüilos. Em reconhecimento ganhamos algumas centenas de quilogramas de maconha e outras tantas de cocaína, entregues diretos pelos esgotos em pacotes impermeáveis. Bem debaixo da barba e dos canos dos fuzis de cabos e tenentes. Em pouco tempo nós vendíamos drogas aos soldados, que sem relação com seus distantes familiares também nos ofereciam um trocado para uma felação sem responsabilidade. Era uma boa justificativa para tomar um banho.

Eu tinha um papel importante nos planos do diretor. Algum dos sintomáticos daqui deixou escapar que eu não tomava os remédios e estava bem. Ora, porque ele que também parecia bem tinha que tomar? Antes de isso se tornar um levante, o dedo-duro foi executado com estiletadas, bem ao estilo da ala psicótica em seus levantes bipolares mais agudos. E logo em seguida fui chamado para uma conversa. Achei que seria isso, bom passar pelo mundo e até a próxima. Mas não. Percebendo que eu tinha livre acesso por todas as alas, fui informalmente nomeado o representante dos internos para seu contato com o mundo externo. Isso faz mais ou menos umas três semanas. Pouco exerci do meu cargo diplomático, nós não gostávamos de nos comunicar com o mundo externo.

Como deveria ser natural, última noite sonhei que estava saindo daqui, que chegava em casa, uma bela mesa de jantar estava posta e pronta para um belo convescote. Deixei meus poucos pertences no quarto, a cama de casal encontrava-se pronta para o leito solitário e profundo. Essa calma e mesmice era como um pesadelo para mim. Mais uma vez acordei no susto. Mas susto mesmo foi ver uma circunferência do tamanho de um escapamento de carro a cinco centímetros do meu nariz e aquele odor de pólvora. Só tive tempo de pensar que eu deveria ter recusado meu importante e diplomático cargo. A cobiça é algo que loucos, não loucos e mais loucos compreendem, com o agravante de ter a capacidade de tornar os sãos loucos.

Hoje, uma semana depois de ser executado à queima-roupa só consigo pensar em uma coisa: poucos poderão se orgulhar por terem vivido na época em que era fácil ser louco. Mas deveria eu me ressentir por não morrer de overdose ou explosão cardíaca provocada pelos choques? Ou deveria me orgulhar, por ser considerado quem mostrou em manchetes sensacionalistas e em revistas antitudo o paradoxo de não saber em que lugar reside a real loucura? Dentro ou fora dos muros que habitei?

m83.jpg

M83 – Before The Dawn Heals Us. Completo do começo ao fim. Com vozes de fundo para não ouvir sozinho à noite, com guitarras longas para ouvir correndo por compridos corredores brancos de azulejo, com batidas para ouvir louco, às 3h da manhã, na festa.


E AGORA, COM VOCÊS

Agosto 14, 2007

Carlinha tinha acabado de ligar para sua melhor amiga, eu. Coloquei as botas e fui até a casa dela na mesma hora. A angústia da Carlinha parecia real e corrosiva, literalmente. Daquelas que soltam sucos gástricos da mesma maneira que o cavalo solta a merda enquanto passeia tranqüilamente pelo parque. Acelerava furiosamente as passadas, com o discurso pronto sobre a necessidade da emancipação feminina frente ao pé-na-bunda. Carlinha nunca foi boa em lidar com pés nas ancas.

Dez minutos depois já estava gritando na frente da casa dela. Desde criança nunca usei a campainha. Os jardins da Carlinha eram enormes e com poucas flores. Um pé de azaléias, um tantinho de hortênsias e só. Já a variedade de verde assombrava. Um dos namorados da Carlinha, o Régis, amava os jardins, principalmente as quaresmeiras. Só quando eles terminaram que ela descobriu que o pseudo-ortodontista era na verdade botânico. E se chamava Pedro. Tamanha a fascinação ele tinha pelo lugar, quando eles se separaram ele gritava “Tudo bem, você pode terminar comigo, mas me deixe aqui. Não tire esse jardim da minha vida”. Ele tinha passado tanto tempo no jardim que ela não conseguiu nem ficar arrasada.

Desisti de gritar, resolvi preservar a voz, afinal senti que teria que falar por horas. Dias talvez. Uma pós-graduação em consolo com especialização em casos frustrados. Fui entrando e encontrei Carla na cozinha, de costas, cantando qualquer coisa de horrível muito alto, o que tornava aquele aglomerado de palavras ainda mais horrível. A despeito do pouco privilegiado tom de voz e alcance vocal, ela estava com uma cara ótima e um sorriso encantador no rosto.

- Muito bem. Você não ligou para eu vir até aqui correndo ouvir você cantar. Disso eu tenho certeza – falei, chamando a atenção.

Ela virou em um pulo, trocamos um olhar confidente e ao invés de lamúrias sobre desmanches, novidades sobre o amor.

- Rê. Eu tô amando.

Fiquei feliz.

- E quem é? Eu conheço?

- Só um deles.

Enquanto Carla mostrava porque sorria e cantava, eu comecei a me exaltar.

- COMO ASSIM, só um deles? Tem OUTRO?

- Outros.

- QUANTOS?

- Três.

- E QUAL deles você AMA?

- Os três.

- Carlinha, querida. Você SABE que assim não vai rolar, NÃO SABE?

- Já rolou.

Aí foi demais.

- JÁ? Mas como você dividiu? E a academia dos dias pares? E a faculdade? Você vai ficar louca se for dar atenção para os três.

- Por isso que eu não dividi, tudo acontece junto. Ou todos juntos.

E caiu na gargalhada.

Depois de trinta e cinco minutos tentando me reanimar, Carla foi preparar um chá de erva cidreira. Eu me mantinha atônita frente as mais recentes declarações da minha amiga de infância. Quem era aquele demônio e que caralho estava fazendo com a Carlinha? Estaria ele alojado no cérebro comandando os atos mais vis e abjetos? Estaria no coração, despedaçando cada pedacinho de pureza que lá está, para ao sair Carlinha morrer de tristeza? Não. Só pode estar na vagina.

- Rê, conheço esse seu olhar. Você está pensando na estória da buceta de novo né?

- Ai, Carlinha. Não fala assim. Que horror.

- Eu sabia. Eu tomo um porre, é culpa da vagina. Eu beijo um desconhecido, belzebu na xana, roubo o gabarito da prova de um professor filho de puta, buceta flamejante, faço um quatro a par, festa do inferno na xoxota. Por favor.

Bem, era uma boa teoria. Funcionava comigo.

- Eu achei que você estava angustiada. – disse.

- Estou transtornada. Não vê? – ironizou.

Fiz um movimento com o canto da boca que entre nós já significava muita coisa. Carlinha sentou ao meu lado e me abraçou.

- Sabe porque te chamei aqui?

- Para me contar perversões e sua noite de luxúria com toda a equipe de natação e os animais de estimação do vizinho?

- Primeiro, não existia animal nenhum. Segundo, foram só três. A equipe de natação tem uns oito caras. Deliciosos, aliás. Mas enfim, não gosto de perna depilada.

Carlinha continuou.

- Te chamei aqui para comemorar. Para a gente beber com meus novos namorados e ver como eles se completam. Veja por esse lado Rê, a maioria das mulheres querem encontrar tudo em um cara só. Eu sei que isso é impossível para UM homem, mas não para três.

Achei que fazia sentido, por mais sujo e superficial que me parecesse.

- Eu quero fazer sexo? Sexo pleno, entre quatro paredes. Eu quero carinho? Nem todo homem está disposto a dar carinho toda hora, mas um de três está. Eu quero café na cama? Sempre tem um que acorda mais cedo. Eu quero ir ao shopping? Bom, aí é rodízio mesmo.

Eu já tinha largado a implicância e trocara o chá pelo vinho. Carlinha continuou falando incessantemente sobre seus três amores. Passadas duas horas eu já estava curiosíssima para conhecê-los. E a campainha tocou.

Entraram. Dois deles ela beijou na boca, o outro ela sussurrou no ouvido. Alguma sujeira de caráter sexual, no mínimo.

Todos eram muito bonitos e simpáticos. Meu receio que tudo aquilo se transformaria numa orgia nos primeiros cinco minutos e que eu sairia gritando e pulando pela primeira fresta da veneziana desaparecera. Estava mais parecido com um jantar com meus amigos gays.

Esvaziamos muitas garrafas de vinho. Carla dava beijos sutis em dois de seus namorados. O terceiro não parava de conversar comigo. Aquilo me incomodou e me alegrou um pouco. Incomodou, afinal era o namorado da minha amiga. E bem o que tinha belas pernas e gostava de qualquer programa cultural. A saber, o outro tinha uma bunda maravilhosa e amava viajar e discutir política. O último era lindo, sabia tudo sobre esportes e praticava boa parte deles. E, voltando, me alegrou porque sempre a Carlinha ficava com todos os bons partidos. Tudo bem, eu já tinha me acostumado, mas dessa vez ela abusou. Três lindões desses de uma só vez? Ao menos um se dirigia a mim.

Entre incômodos e alegrias chamei Carlinha para ir ao banheiro.

- O número três está dando em cima de mim. – disse rápido como um espirro.

- Que número três?

- Como assim? Seu terceiro namorado.

- Aaah, me desculpe Rê. Só um deles é meu namorado.

- Você vai precisar me ajudar nessa. Não estou entendendo, de verdade.

- O moreno é meu namorado. Aquele outro é o amigo gay dele. Rolou uma vez, eu achei divertido e se for com ele ninguém fica com ciúmes ou bobagens desse tipo. Daí promovi ele a namorado também, mesmo não sendo.

Eu bem que achei que tinha algo nessa rodinha de comidinhas e taças de cristais. Os homens não têm tanto requinte.

- Mas e o outro? Aquele que está falando comigo sem parar?

- Meu presente para você.

Àquela hora pouco adiantaria eu questionar alguma coisa. Não era meu aniversário, nem Dia dos Amantes e nem nada. Mas em nenhuma outra data o sexo foi melhor. Senti-me livre de muita coisa pela primeira vez na vida. Como se tudo tivesse começado ali. Foi a única vez que beijei a Carlinha e a única vez que transei com mais de um cara. Para mim, foi o início de uma nova fase. Um pouco menos certinha, bem mais satisfatória e que começou com o pé, mão, boca, tudo direito, do jeito que não tem como dar errado.

guided_web1.jpg

Guided by Voices – Alien Lanes. O começo de um álbum diz muito sobre ele. E poucos começos são tão bons quanto esse.

 


ADORO ESSE TIPO

Junho 1, 2007

Uma bebida. Eu preciso de uma bebida. De preferência com uma comida junto.
Esse lugar parece ótimo. Lembra aquelas tabernas antigas.
Ah, é uma taberna antiga.
Sem grandes invenções, o pedido em uma taberna deve ser uma cerveja e uma irish soup.
Leitinho, mesmo de cabras-montesas, suquinhos, naturais ou de polpa e água são vistos com maus olhos.
Água com gás é seguido de expulsão com safanões morais.
Um lugar vazio ao lado. Ou, ou, quase vazio.
Uma jaqueta em cima do banco, um copo de vinho com uma marca de batom na altura  dos cotovelos.
Batom vermelho, elimina-se a irish soup.
Passos próximos.
Salto, definitivamente alto, elimina-se a cerveja.
Vinho? Destilado?
Água com açucar para controlar a ansiedade hipoglicêmica? Controle-se, você está em uma taberna.
Peça uma cerveja escura.
Não, uma red ale. Isso.

- Me vê uma red ale. Oi? Acabou? É, vou ver o que eu peço.

Bom, o lógico é pedir uma cerveja escura.
Mas calma.
Mulheres não costumam ser grandes apreciadoras de cerveja escura.
Talvez devesse pedir um vinho, ela se sentiria acolhida e atraída pela mesma bebida.
Mas se ela for uma das poucas apreciadoras de cerveja escura? Que chance estarei perdendo?
E olhar para o rosto dela? Isso pode ser uma boa idéia.
Droga, ela está olhando para o outro lado. Mas o cabelo é muito bonito, um cheiro muito agradável.
Quem eu quero enganar? O cabelo é bonito mas aqui está cheirando a álcool.
Conhaque para ser mais exato.
Epa. Será que ela está bêbada, exalando, e eu não consigo perceber?
Impossível. Os saltos marcavam passos ritimados. Não ouvi tropeços ou tropicões. Ela não está alterada a este ponto.
Será que sou eu?
A ressaca ontem foi pesada mesmo. Mas não, muito improvável.
É esse lugar, com certeza. Preciso tirá-la daqui. Mesmo sem conhecê-la.
Eu posso sair. Ela pode vir atrás. Acho que vi uma olhada de soslaio.
Mas e se ela não vier atrás? Aliás, porque ela viria atrás? Ela pode ter olhado meu sapato e pensado, “Nossa, igual do meu tio-avô”.
Isso acabaria com a minha noite. Se bem que já são quatro e meia da manhã.
E pensando melhor, o que essa mulher está fazendo num lugar desses essa hora?
Deve ser namorada do cara do bar. Daí fica difícil.
Seria mais fácil se ela fosse meretriz. Como eu vou perguntar isso?
Bom, acho que aí, eu posso simplesmente sair. Ela pode vir atrás.
Mas já é tarde. E se acabou o turno dela?
Eu nunca namorei uma puta. Como será?
Namorados de putas também são cornos? É o trabalho delas, afinal de contas.
É uma dúvida legítima. Vou perguntar.

- E cerveja escura? Uma então.

Ela me notou. Ela gosta de cerveja escura.
Ela tem um jeito diferente mesmo. Será que é estrangeira?
Para gostar de cerveja escura, deve ser escocesa.
Ouvi dizer que na Grã-Bretanha as moças são liberais, mas demoram para iniciar uma conversa.
Isso significa que posso estar me dando bem sem saber.
Um gole para comemorar o meu sucesso.
É uma boa cerveja.
Estou no lugar certo. Uma boa cerveja, uma boa mulher.
Pare com isso.
Você ainda nem sabe como é o rosto dela.
Ela ainda não disse uma palavra. Parece muda.
E se for?
Interessante. Já saí com uma muda uma vez.
Entre uma muda e uma escocesa, fico com a muda. Se for sair com a escocesa quem fica mudo sou eu.
Mas como ela pediu o vinho? Não existe cardápio, não existem garrafas de vinho expostas. O sinal universal do “traz uma bebida” é sinônimo de cerveja.
É, ela não é muda.
E não existem meretrizes escocesas na cidade. Isso aqui não é Amsterdam.
Ou seja, está tudo bem. Ela é como as outras.
Você já sabe lidar com esse tipo.
Então, é agora.

Meeeeerda. Eu vi.
Fudeu.
Com esse tipo eu nunca soube como lidar.

- Mas por que ela tem que ser tão linda?

Caralho. Eu disse isso? Disse.
Ela está olhando. Com cara de assustada.
Saiu.
Foi embora.
Realmente, sou muito burro.
Só indo embora mesmo.
Eu devia seguir o mesmo conselho silencioso.
Vamos.
Um passo de cada vez.
Só por que você destruiu sua noite com uma frase?
Quão ridículo.
Bela porta de entrada.
Já está clareando.

- Oi.

É ela. O que eu digo?

- Fiquei imaginando se você sairía logo depois que eu saísse.

Droga. Ela é rápida. Como não pensei nisso antes?

- Eu estava indo para casa. Quer vir?

Aceite
Isso. Muito bem.
É, eu adoro o tipo linda.
Mas adoro ainda mais o tipo objetiva.

spektor1.jpg

Regina Spektor – Begin To Hope. Nas palavras de um bom amigo, “é como se Tori Amos tivesse encontrado Diamanda Galás num beco escuro”. E com Regina é certeiro: você encontra e se encanta.


EU GOSTO DO FRIO POR OUTROS MOTIVOS

Maio 18, 2007

Quando o inverno chega em um país tropical há sempre uma sensação de exagero. Os termômetros ainda marcam temperaturas agradáveis, algo como entre dezenove e vinte e um graus, mas nas ruas cachecoles, luvas e toucas de lã já fazem parte do visual.

Tudo bem que não é exatamente um regozijo um dia trinta e cinco graus, no outro vinte. É, no mínimo, um bom motivo para mães e avós ficarem falando de friagem e de vento nas costas. Agora, o que não é exagero é preferir três matriarcas, sete madrinhas e doze senhoras de asilo penduradas no seu ouvido a usar cachecol com vinte graus. Cachecol sem necessidade é igual natureza, pinica.

Em compensação, sentar em um banco de concreto daqueles de praça, observar a fragilidade e o medo das pessoas de sairem de sua zona de conforto é algo que só a primeira de poucas semanas de frio em um país tropical pode oferecer.

Imagine só o processo da mulher, que sempre faz chapinha antes de ir para o trabalho, como ficou mais complexo. Aqui a temperatura é fator determinante. Quanto mais frio, mais difícil despertar. O ânimo parece que se esconde entre a terceira e quarta vértebra do lado que você está deitado na cama e de lá só vai sair quando o último iceberg ficar do tamanho ideal para servir um copo duplo de vodka.

Depois de decidir que é hora de levantar, a moça percebe que agora é a chapinha (e seu charme) ou a reunião (e seu emprego), a donzela, responsável que é, opta pela reunião. E sem penumbra de dúvida ela pensa que ao se empetecar, ao colocar uma calça mais justinha e ao colocar um cachecol vindo direto da Argentina (ou de Maceió) vai desviar a atenção do seu cabelo, hoje extremamente mal tratado. As botas, altíssimas, quase conseguem, mais pela cafonice do que qualquer coisa. Ilusões, muitos seres humanos se alimentam exclusivamente disso.

Já o rapaz engomadinho é ainda mais interessante. No exato instante que eu acendo um cigarro ele tenta fazer o mesmo. Só que o pulha está usando luvas. Ele continua tentando, com uma mistura de ar superior – que as luvas de pelica alemã conferem ao homem – e de orgulho se quebrando por não conseguir manejar nem isqueiro nem cigarro com a mesma habilidade que tem com as mãos desprotegidas. Vinte graus. Se não for vergonha da micose não sei o que faz alguém usar um acessório desses nessa temperatura.

Do meu ponto de vista, caso estivesse sentado no banco, isso é só uma das possibilidades que a queda de temperatura proporciona. Termômetros em queda até uma temperatura aceitável servem como uma bolha boa. No meio do mormaço, todo aquele bafo cinza de quilômetros cúbicos de fumaças são expelidos direto no seu nariz. O raciocínio e o pensamento destoam da razão e da fantasia – estão perdidos –, as idéias tornam-se pesadas. Calor foi feito para a praia. Uma temperatura amena na cidade é quase que um convite à reflexão, é um pedido para que você pare de suar com seus problemas e pense mais no que está a sua volta.

Dezenove ou menos graus servem para você ficar bem, dentro ou fora de casa, e ajuda a fazer tudo com calma, e o melhor, nem sempre seu pensamento precisa fazer sentido para os outros. Você está pensando, tirando conclusões, não escrevendo uma tese. Um gato pardo andando pelas beiradas de um muro pode ser mais inspirador do que um aparelho de ar-condicionado caindo do último andar de um edifício comercial. O óbvio, como as moléculas, fica menos apressado e mais elegante em temperaturas mais baixas. As sutilezas ficam mais aparentes, ao ponto do ar se mostrar sempre que sai de uma boca para o mundo.

Ano passado tivemos inverno, garanto. Mas de praxe, a estação mais imponente do ano sempre tem um tempo muito curto por aqui. E aflitivamente, a cada ano, sempre que chega o inverno eu concluo que as pessoas pensam menos. Esse ano eu adoraria ver menos pessoas falando irracivelmente pelas ruas e mais transeuntes chutando pedrinhas enquanto andam (essa sim uma atividade que enche o cérebro de idéias e devaneios produtivos). Todo um bairro pensando em mil coisas, andando, parado, sentado em um banco de concreto daqueles de praça, imaginando uma arlequinada qualquer, mas que estejam dedicando ao menos cinco minutos de profundidade à momice.

mogwai1.jpg

Mogwai – Happy Songs For Happy People. Ondas sonoras que mais parecem um convite à reflexão irresponsável, (in)coerente, libertina e que vez ou outra leva a conclusões surpreendentes.


BEIJO NO ROSTO É SINAL DE CARÊNCIA

Maio 4, 2007

Certa vez ouvi relatos de uma mãe nada coruja, mas ainda assim muito apegada ao filhote, que o garoto no auge dos seus sete anos adora beijos de meninas mais velhas – por volta dos seus quinze anos – com a mesma intensidade que repudia os beijos melosos da tia Rosana.

Além do nome em comum com esse garoto, a semelhança de comportamento me surpreendeu. No meu caso, a tia Judith, com um agá horroroso no final do nome, ficava lambuzando minhas bochechas com beijos estalados e ao mesmo tempo ensinava a pronúncia correta do seu nome, que na sua concepção distorcida de sonoridade, em muito diferia da sua vizinha, Judite.

Tia Judith foi meu primeiro contato quase traumático com o sexo oposto. Levando em conta que menos de 1% da população deve lembrar de como era ser amamentado pela mãe, tias Rosanas e Judiths podem ser consideradas a principal causa de um dos grandes argumentos psicológicos sobre o comportamento masculino e feminino na adolescência: o de que meninas amadurecem primeiro.

Veja bem, as meninas são tratadas de maneira bem mais harmoniosa pela família. Imaginem o que o pai e mãe iriam pensar se vissem o tio Clóvis dando beijos e mais beijos nas bochechas rosadas de sua filhinha indefesa. Pedofilia, perversão, sodomita enrustido. E essa concepção passa pela cabeça do tio Clóvis, logo a menina cresce em paz com o sexo oposto.

Aos treze anos boa parte das meninas já menstruaram e estão louquinhas para testar seu novo estado hormonal, digno de uma mulher. Mulher?, pensa o menino de treze anos com o kichute e a bola de capotão no pé. A imagem da tia grudenta é imediata. Dentro desse contexto atingir um pé de igualdade é difícil. Mas tudo melhora depois que beijar fica uma coisa normal. Normal não, gostosa.

Nesse momento, as meninas que não aguentavam mais esperar o amadurecimento dos infantes já partiram para a ação com garotos mais velhos. E você, tolhido em suas ações, começa a olhar para as meninas mais novas. Crianças.

Quando carícias, beijos e sexo já fazem parte do vocabulário e do repertório corporal de qualquer pessoa, aí sim revela-se o lado de tia Judith dos homens, e não é o lado meloso, é o lado possessivo. Tia Judith, como tia Rosana, coitadas, são as tias que nenhum homem quis. Perdoem-me as duas e suas variações espalhadas pelos cantos do mundo, mas vocês estão nessa situação porque são chatas e apegadas.

Se quando éramos pequenos os beijos dessas hárpias da gosma bucal caía sobre nossas faces, agora crescidos, esse sentimento cai sobre nossas acompanhantes. Do mesmo jeito que a titia queria tomar whisky, fazer os docinhos do aniversário, fumar um cigarro, grudar na sua bocheca; você quer tomar uma cerveja, fumar um cigarro, fazer uma bagunça e quando chegar em casa encontrar sua mulher. Elas eram possessivas, você ainda é.

Sem notar que já fizemos uma mulher chorar (senão muitas), somos arrebatados por uma porrada psicológica e ao perceber que não existirá uma mulher quando chegarmos em casa, uma mistura de posse com pânico se acomoda em algum lugar entre o estômago e o último dos neurônios. Sinapses enfervecidas com ketamina não conseguem produzir tal efeito.

Mas acredite, xarazinho do começo do texto, isso não é uma regra, mas que sua mulher no futuro não estará fazendo docinhos, é verdade. E pior, quando você for procurá-la vai achar uma boca selada a outra em cada esquina. Para sua tristeza, ao menos uma delas será conhecida. Nesse momento, um beijo na bochecha nos ajudaria a superar essa situação – não a visão da alheia, mas a possessividade humana inerente – mesmo que fosse um beijo da tia Judith.

aqueduct.jpg

Aqueduct – I Sold Gold. I’d never leave you there screaming for my love. Uma homenagem subjetiva ao desapego.


TERCEIRA CHANCE

Maio 2, 2007

São três horas da manhã. Acabei de completar cento e oito horas acordado. Sabia que algumas pessoas já tinham ficado assim, mas eu achei que estava imune, que comigo isso não aconteceria. É, de fato, uma insanidade. No sentido literal da palavra.

Ainda que a insônia fosse todo o problema do momento, ela é apenas mais um dos sintomas que não consigo ignorar (nem meus chefes, que já me recomendaram um psicólogo no mesmo andar do RH). Os outros sintomas, como a falta de apetite, o desejo de ficar trancado em casa, a incrível resignação com que tento passar o dia e a noite, são bem piores. Sem planos e sem projetos. Bem comigo, que sempre pensei ser invulnerável a elas.

Não tenho certeza se alguém já disse isso, mas de todas as drogas, as mulheres são as mais viciantes. É muito provável que sim, devido à obviedade da afirmação. De qualquer maneira só posso concluir que a abstinência de uma mulher é torturante. É a pior parte.

O homem experimenta, gosta, rapidamente se envolve e de repente fica sem. Por alguma bobagem, alguma estupidez, sem motivo algum ou por trocá-la por outra droga (as mulheres invariavelmente culpam a cerveja, loira deliciosa e perpicaz, que aumenta a auto-estima masculina com poucos minutos de conversa). Assim, no mesmo tempo em que uma banda consegue cantar one, two three, four, uma mulher consegue te largar. Sem uma resposta, sem sequer uma pista de como proceder.

Você deve agir, fazer alguma coisa. Mas fazer o quê? Fazer como? Você pode esperar. Mas esperar até quando? Por quanto tempo consegue um homem ficar sem pensar em uma mulher? Por quanto tempo um homem vive sem uma paixão? Uma paixão que ele possa conversar, tocar, beijar e transar. Não um símbolo de time do esporte bretão. Uma paixão que tenha a pele macia e lábios desenhados de um jeito que só os maiores artistas conseguem copiar. Copiar, porque criar algo tão perfeito é impossível. Eu não sei dizer por quanto tempo isso é possível.

Mas quando esse tempo chega, ele vale toda espera. É incrível como de repente, com uma simples notícia, o homem percebe que todo seu sofrimento, toda angústia, não passava de uma bobagem adolescente já superada. Tudo bem que ele teve que esperar muito por isso, mas agora está tudo perfeito, como deveria estar.

Uma segunda chance de aproveitar uma dose de Soma e se embriagar em odores que não se encontram em nenhum outro lugar, a não ser naquela pessoa, naquele pescoço e naqueles cabelos. Uma delicadeza que só se sente naquelas mãos, naquela boca e naqueles seios. É tão perfeito que não pode ser real.

É tão perfeito que não é real. Porque no momento seguinte ela já está dizendo adeus. Cada vez mais rápida, cada vez mais dolorido. Como uma arma que antes de perfurar lentamente o coração, transpassa ouvidos, nariz e olhos, para que o homem só saiba que uma mulher está próxima ao sentir o toque de seus dedos. Uma lâmina que dilacera o interior, porém deixa a carcaça inteira, para que todos o vejam apodrecer e morrer, um pouco por dia.

E o homem, que não sabe como encontrá-la, espera. Aguarda por mais um segundo, que seja, de sua saliva e do sopro que sai de sua alma e transforma todas as sensações em uma catarse que só pode ser superada pelo torpor eterno.

funeral.jpg

Arcade Fire - Funeral. Não existe uma banda como eles. Existem melhores e piores, mas não como eles.

neon_bible.jpg

Arcade Fire – Neon Bible. Já estou sem comer e sem conseguir raciocinar esperando pelo próximo contato.


A PROFISSÃO MAIS HONROSA DO MUNDO

Abril 18, 2007

Ele abriu o guarda-roupa. Em meio a tantas calças jeans, camisetas, jaquetas e roupas do dia-a-dia, separou um paletó bege de lã fria. Achou a melhor opção entre um terno preto, extremamente sério para esse momento de alegria, a fantasia de papagaio e o quimono de judô. Mais discreto, sem ser conservador. Hoje o equilíbrio entre discrissão e carisma seria fudamental.

Ontem mesmo, no parque de diversões a fantasia de papagaio tinha funcionado maravilhosamente bem. Enquanto colocava a gravata, o homem sorria lembrando-se da cena. O pobre coitado do Severino Cavalcanti; sentado no banco, pálpebras fechadas, igual a maioria dos avôs depois de um almoço digno de avós. Parecia perturbado, como se estivesse aproveitando o último dia de sua vida.

Mas isso foi ontem. O mês andava turbulento. Os negócios tomavam boa parte de seu tempo para ficar se apegando ao passado, mesmo que recente. A corrupção contribuia, e muito, para o bom andamento do negócio. Só este mês já visitara, Fernando Collor, Jader Barbalho, Antônio Carlos Magalhães e Orestes Quércia, além claro do próprio Severino.

Ficara particularmente orgulhoso do trabalho desenvolvido junto à ACM. Houve ali uma grande imerssão. Ele se aproximou dos seus maiores imediatos, pôde descobrir detalhes que o ajudaram muito. ACM merecia todo seu respeito e cuidado. Um erro e ele estaria condenado ao esquecimento. Sua carreira escoaria pelo ralo no melhor estilo Hitchcockiano.

Mas a perfeição e o grau de dificuldade do serviço realizado valorizaram seu passe. O mercado concorrente o temia. Tinha pesadelos com a possibilidade de encontrá-lo numa disputa. O mercado que contava com seu talento natural sorria por cada centavo investido. E eram muitos.

A reunião de hoje seria com pessoa ilustre e influente. Talvez, o grande salto da sua carreira, já meteórica, no grande centro econômico do Brasil. Paulo Maluf aguardaria uma pessoa com o nome de Dalila em um dos melhores restaurantes de São Paulo. Ele adorava causar surpresas e se empenhava para tal. Dalila tinha até número de registro. As suas surpresas por vezes chocavam, é verdade. Collor, por exemplo, ex-presidente, caçador de marajás e carateca exímio, morreu de medo ao encontrá-lo vestido de atirador de facas de circo.

O terno bege estava impecável. A gravata feita com um Windsor Duplo realçava seu pescoço esguio e combinava perfeitamente com seus óculos escuros, circulares e não totalmente pretos. Satisfeito com o que via no espelho, dirigiu-se ao escritório e preparou sua maleta. Ela era mais larga, um pouco maior e da mesma forma de uma maleta executiva normal. Elegante, mas ainda assim, normal.

Checou se tudo estava no seu devido lugar. Considerava essa hora importantíssima. Uma falha e todo o projeto ruiría como a Torre de Babel. Importante manter-se atento às referências bíblicas. Paulo Maluf é costumaz freqüentador de cerimônias dominicais.

Pegou o carro e em pouco tempo estava estacionado a três quadras do local marcado. Gostava de parar sempre um pouco distante. Fazia uma última preparação mental de tudo que estava por vir, andava um pouco, analisava o ambiente. Nunca havia falhado, porque mudar. No encontro com Orestes Quércia chegara de ônibus e saíra andando, frente a olhares desnorteados que olhavam para o ocorrido procurando uma explicação.

Entrou em um suntuoso prédio e subiu direto para a cobertura. O sigilo do local era fundamental para que o negócio se concluísse sem estorvo. Da cobertura completamente vazia, olhou para o prédio em frente. Lá estava Paulo Maluf, a uma rua de distância, esperando por Dalila. “Velhinho safado”, pensou. Posicionou-se e calmamente abriu sua maleta. Tirou cada parte de seu rifle Heckler & Koch PSG1 e o montou com todo o cuidado. Colocou a mira telescópica e manipulou cuidadosamente uma única bala, a beijou e colocou no cano. “Seu destino é certo, Dalila. Na mão de muitos homens passarás. Não desvendarão o seu passado, e mesmo assim, entrarás para a história.”

Enquanto saía do suntuoso prédio pessoas passavam gritando. Sirenes já se ouviam, ainda que distantes, e o homem, em seu terno bege impecável, andava e pensava consigo mesmo que amanhã, parte do obituário estará na primeira página dos jornais.
pretzellogic2.jpg

Steely Dan – Pretzel Logic. Um duo que se veste do que for necessário para passar sua mensagem. E sempre consegue.