Arquivo para Dezembro, 2006

O CAMINHO DA FELICIDADE

Dezembro 22, 2006

Doce é uma merda. Em todas refeições as pessoas guardam um espacinho, ou seja, eliminam parte da dieta diária de proteína, carboidratos e essas coisas necessárias para se manterem saudáveis para comer um brigadeirozinho, um pastelzinho de belém, uma bomba ou qualquer sacarose que as cáries adoram.

Vai soar piegas agora, por isso prometo colocar uns palavrões bem escabrosos mais a frente, mas de doce já temos amizades, abraços, beijos, carnavais, feriados, água de coco na praia, fondue de queijo na primeira semana de frio do ano, viagem com a galera, viagem sozinho descobrindo uma nova galera. Enfim, doce é tudo que vai ficar marcado na sua vida.

O primeiro e mais odiado dos doces é o brigadeiro. De receita fácil e consistência semelhante dos chocolates em calda dos anúncios televisivos, o brigadeiro junta tudo de ruim que um doce pode ter. A qualquer momento alguma pessoa quer fazer uma panelinha de brigadeiro, na praia hordas de famintos anseiam pelo pôr-do-sol para compensar o tempo nublado com uma colherada da iguaria, e desde a infância bolinhas de brigadeiro são entuxadas nas pobres crianças que, de tanto gastar energia, se entregam primariamente ao vício da feniletilamina.

Sem defesa natural (pois mesmo o corpo humano, tão bem construído em alguns aspectos, não percebe o mal inerente que o doce carrega dentro de suas cápsulas açucaradas) o homem desenvolve uma dependência químico-social do doce. Ele acaba sendo seu melhor amigo na primeira desilusão semi-desastrosa, na segunda, na terceira e daí em diante.

E o cartel do doce já está montado há tempos, desde os astecas, quando somente os guerreiros, o conselho de guerra e imperadores bebiam um líquido sagrado feito de cacau que atribuía poderes a quem o tomasse. Do chocolate aos confeitos servidos nas cortes européias para os chicletes mascados pelos maiores atletas e também pelos maiores obesos norte-americanos, o doce é disparado a droga mais consumida do mundo.

Eu continuo achando o doce uma merda mas sei também que é muito difiícil lutar contra o mundo e contra as campanhas de marketing de Páscoa, por isso aos poucos fui me rendendo às maravilhas do doce. Ele é realmente uma metáfora maravilhosa.

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Mates Of State – Team Boo. Não é o último CD da dupla, mas vai se foder, uma banda que faz um puta som doce, mas tão doce que a dependência é imediata. Puta que o pariu, vai ser doce assim e bom assim na casa do caralho arregaçado. Vai tomar no cu doce de verdade. Para valor de um puto registro, o novo CD Bring It Back é doce que nem buceta com Amarula.

SÍMBOLOS QUE DURAM ERAS E MARCAM NOITES TAMBÉM CAEM

Dezembro 18, 2006

O símbolo máximo do rock é a guitarra. Barulhenta. Distorcida. Ensurdecedora.Mentira. O símbolo máximo do rock foi o All Star. O tênis dos punks e proto-punks. O tênis de descanso e passeio da turma do rock pesado. Mas principalmente o All Star era o tênis que nós, humildes e rebeldes seguidores do sexo, drogas e rock and roll podíamos comprar e surrar sem dó, igual nosso vocalista favorito.

Se depois de uma noite de bebedeira você apostasse seu All Star que derrotaria o dono do bar numa sinuca e (provavelmente) perdesse, você teria a certeza que apostou algo honrado, não aqueles cinco reais esfarelados que surgiram no bolso a caminho do bar. E também sabe que a perda não foi grave, porque o All Star estava aí para quem fosse rock and roll suficiente para usá-lo.

Me recordo de uma noite que logo após um show moribundo de uma banda hardcore saímos, uma morena linda e eu, direto para o apartamento dela. O lugar era pequeno, iluminado bem porcamente e ficava só um pouco acima dos fios de luz. Nunca mais vi a menina mas foram três horas tão malucas e tão intensas que jogamos nossos tênis, All Stars, nos fios por que ela queria uma lembrança do estrado quebrado.

Porém, faz alguns anos que percebi um movimento muito menos interessante do que pélvis em harmonia embaladas por movimentos hora peristálticos, hora circulatórios: o movimento da inflação do que podemos chamar mercado indie.

Não é o objetivo discutir o quanto esse mercado ainda existe ou o quanto ele é pop e não indie, quando ele começou ou por atitude (ou culpa) de quem. Acho que tenho respostas para boa parte destas perguntas mas definitvamente não é o caso. Já temos bastantes problemas discutindo a desvalorização do All Star.

Desvalorização sim, seus preços aumentaram mas seu valor sentimental diminuiu tão radicalmente quanto o mini moog. Sua estrela está nas piores e mais mulambas lojas, orgulhosa como sempre esteve, mas também nas melhores, intimidada pelo mainstream que sempre evitou. Pensando dessa maneira podemos dizer que o All Star, durante uns vinte e tantos anos, o produto mais comunista produzido pelos Estados Unidos e ainda assim exportado para o mundo, finalmente achou uma maneira de penetrar no capitalismo.

Novas bandas, cheias do chamado hype, chegam do nada, soando como a mesma música da banda anterior, que já tocava os mesmos acordes dos precurssores do movimento novo-rock (aliás, que bosta de nome) onde todos, sem exceção, imaginam que sua maior influência é Velvet Underground, não percebendo que não basta falar de drogas ou de umas putinhas para serem originais e transgressores, mesmo porque isso não é mais underground, não é mais indie; e só os indies ainda não perceberam.

Com uma certa dose de desilusão, admirando parte da minha pré-adolescência e juventude se estilhaçando pela falta de atualidade de um conceito, fico torcendo que minha menina do hardcore ainda more no mesmo lugar, fico imaginando que ela não se rendeu ao taileur e salto alto como rotina e que resiste às marcas mais cruéis do crescimento pseudo-responsável.

Mas o que eu mais desejo é encontrá-la e pedir para ir ao seu apartamento só uma vez mais, porque com o par de All Star custando tanto, aquele pé tão charmosamente entrelaçado nos fios vai cair como uma luva.

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Mars Volta – Amputechture. Uma banda e um disco que honram os All Stars que vestem.