SÍMBOLOS QUE DURAM ERAS E MARCAM NOITES TAMBÉM CAEM

Dezembro 18, 2006

O símbolo máximo do rock é a guitarra. Barulhenta. Distorcida. Ensurdecedora.Mentira. O símbolo máximo do rock foi o All Star. O tênis dos punks e proto-punks. O tênis de descanso e passeio da turma do rock pesado. Mas principalmente o All Star era o tênis que nós, humildes e rebeldes seguidores do sexo, drogas e rock and roll podíamos comprar e surrar sem dó, igual nosso vocalista favorito.

Se depois de uma noite de bebedeira você apostasse seu All Star que derrotaria o dono do bar numa sinuca e (provavelmente) perdesse, você teria a certeza que apostou algo honrado, não aqueles cinco reais esfarelados que surgiram no bolso a caminho do bar. E também sabe que a perda não foi grave, porque o All Star estava aí para quem fosse rock and roll suficiente para usá-lo.

Me recordo de uma noite que logo após um show moribundo de uma banda hardcore saímos, uma morena linda e eu, direto para o apartamento dela. O lugar era pequeno, iluminado bem porcamente e ficava só um pouco acima dos fios de luz. Nunca mais vi a menina mas foram três horas tão malucas e tão intensas que jogamos nossos tênis, All Stars, nos fios por que ela queria uma lembrança do estrado quebrado.

Porém, faz alguns anos que percebi um movimento muito menos interessante do que pélvis em harmonia embaladas por movimentos hora peristálticos, hora circulatórios: o movimento da inflação do que podemos chamar mercado indie.

Não é o objetivo discutir o quanto esse mercado ainda existe ou o quanto ele é pop e não indie, quando ele começou ou por atitude (ou culpa) de quem. Acho que tenho respostas para boa parte destas perguntas mas definitvamente não é o caso. Já temos bastantes problemas discutindo a desvalorização do All Star.

Desvalorização sim, seus preços aumentaram mas seu valor sentimental diminuiu tão radicalmente quanto o mini moog. Sua estrela está nas piores e mais mulambas lojas, orgulhosa como sempre esteve, mas também nas melhores, intimidada pelo mainstream que sempre evitou. Pensando dessa maneira podemos dizer que o All Star, durante uns vinte e tantos anos, o produto mais comunista produzido pelos Estados Unidos e ainda assim exportado para o mundo, finalmente achou uma maneira de penetrar no capitalismo.

Novas bandas, cheias do chamado hype, chegam do nada, soando como a mesma música da banda anterior, que já tocava os mesmos acordes dos precurssores do movimento novo-rock (aliás, que bosta de nome) onde todos, sem exceção, imaginam que sua maior influência é Velvet Underground, não percebendo que não basta falar de drogas ou de umas putinhas para serem originais e transgressores, mesmo porque isso não é mais underground, não é mais indie; e só os indies ainda não perceberam.

Com uma certa dose de desilusão, admirando parte da minha pré-adolescência e juventude se estilhaçando pela falta de atualidade de um conceito, fico torcendo que minha menina do hardcore ainda more no mesmo lugar, fico imaginando que ela não se rendeu ao taileur e salto alto como rotina e que resiste às marcas mais cruéis do crescimento pseudo-responsável.

Mas o que eu mais desejo é encontrá-la e pedir para ir ao seu apartamento só uma vez mais, porque com o par de All Star custando tanto, aquele pé tão charmosamente entrelaçado nos fios vai cair como uma luva.

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Mars Volta – Amputechture. Uma banda e um disco que honram os All Stars que vestem.

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4 Respostas para “SÍMBOLOS QUE DURAM ERAS E MARCAM NOITES TAMBÉM CAEM”

  1. Ana Diz:

    perfeito.
    ;)

    agora só falta tu atualizar também o outro blog nêgo.
    se não.. nada de allstar pra ti.

  2. MAGNUM DE OLIVEIRA Diz:

    TÔ INGRESSANDO AGORA NO ROCK,DESCOBRI A VIDA PRA FALAR A VERDADE!
    E O ALL STAR ME FAZ MAIS FELIS,TANTO COMO OUVIR GUNS ,JANE OU QUEEN!!!
    NÃO VEJO A HORA DE ATINGIR A MAIORIDADE, PRA PÔR PIERCING E ME TATUAR!
    JÁ QUE PRO MEU PAI ENQUANTO TIVER 16 É INACEITÁVEL!
    MAS ESTOU PRÓXIMO DA LIBERDADE DA MINHA EXPRESSÃO.HÁ COMO EU QUERIA VIVER EM 1970 OU 80!!!
    UM ABRAÇO PRA TI CARA!!!

  3. Thais Diz:

    Soou melancólico, saudosista e muito chato, viu?
    Não esquenta, não! Ainda dá pra “degustar” seus bolachões no conforto do seu lar.

  4. gorila albino Diz:

    Caríssima thais,

    uma pena que tenha tido essa compreensão do conto. Na verdade ele se refere a uma banda atual, o Mars Volta, que consegue subverter esse saudosismo, essa melancolia que acomete boa parte das bandas atuais de hoje. E se infelizmente não tenho os bolachões deles, pude ver ao vivo, e eles são impecáveis.

    Valeu pela crítica, vou analisá-la com carinho para que não se repita.


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