Arquivo para Maio, 2007

EU GOSTO DO FRIO POR OUTROS MOTIVOS

Maio 18, 2007

Quando o inverno chega em um país tropical há sempre uma sensação de exagero. Os termômetros ainda marcam temperaturas agradáveis, algo como entre dezenove e vinte e um graus, mas nas ruas cachecoles, luvas e toucas de lã já fazem parte do visual.

Tudo bem que não é exatamente um regozijo um dia trinta e cinco graus, no outro vinte. É, no mínimo, um bom motivo para mães e avós ficarem falando de friagem e de vento nas costas. Agora, o que não é exagero é preferir três matriarcas, sete madrinhas e doze senhoras de asilo penduradas no seu ouvido a usar cachecol com vinte graus. Cachecol sem necessidade é igual natureza, pinica.

Em compensação, sentar em um banco de concreto daqueles de praça, observar a fragilidade e o medo das pessoas de sairem de sua zona de conforto é algo que só a primeira de poucas semanas de frio em um país tropical pode oferecer.

Imagine só o processo da mulher, que sempre faz chapinha antes de ir para o trabalho, como ficou mais complexo. Aqui a temperatura é fator determinante. Quanto mais frio, mais difícil despertar. O ânimo parece que se esconde entre a terceira e quarta vértebra do lado que você está deitado na cama e de lá só vai sair quando o último iceberg ficar do tamanho ideal para servir um copo duplo de vodka.

Depois de decidir que é hora de levantar, a moça percebe que agora é a chapinha (e seu charme) ou a reunião (e seu emprego), a donzela, responsável que é, opta pela reunião. E sem penumbra de dúvida ela pensa que ao se empetecar, ao colocar uma calça mais justinha e ao colocar um cachecol vindo direto da Argentina (ou de Maceió) vai desviar a atenção do seu cabelo, hoje extremamente mal tratado. As botas, altíssimas, quase conseguem, mais pela cafonice do que qualquer coisa. Ilusões, muitos seres humanos se alimentam exclusivamente disso.

Já o rapaz engomadinho é ainda mais interessante. No exato instante que eu acendo um cigarro ele tenta fazer o mesmo. Só que o pulha está usando luvas. Ele continua tentando, com uma mistura de ar superior – que as luvas de pelica alemã conferem ao homem – e de orgulho se quebrando por não conseguir manejar nem isqueiro nem cigarro com a mesma habilidade que tem com as mãos desprotegidas. Vinte graus. Se não for vergonha da micose não sei o que faz alguém usar um acessório desses nessa temperatura.

Do meu ponto de vista, caso estivesse sentado no banco, isso é só uma das possibilidades que a queda de temperatura proporciona. Termômetros em queda até uma temperatura aceitável servem como uma bolha boa. No meio do mormaço, todo aquele bafo cinza de quilômetros cúbicos de fumaças são expelidos direto no seu nariz. O raciocínio e o pensamento destoam da razão e da fantasia – estão perdidos –, as idéias tornam-se pesadas. Calor foi feito para a praia. Uma temperatura amena na cidade é quase que um convite à reflexão, é um pedido para que você pare de suar com seus problemas e pense mais no que está a sua volta.

Dezenove ou menos graus servem para você ficar bem, dentro ou fora de casa, e ajuda a fazer tudo com calma, e o melhor, nem sempre seu pensamento precisa fazer sentido para os outros. Você está pensando, tirando conclusões, não escrevendo uma tese. Um gato pardo andando pelas beiradas de um muro pode ser mais inspirador do que um aparelho de ar-condicionado caindo do último andar de um edifício comercial. O óbvio, como as moléculas, fica menos apressado e mais elegante em temperaturas mais baixas. As sutilezas ficam mais aparentes, ao ponto do ar se mostrar sempre que sai de uma boca para o mundo.

Ano passado tivemos inverno, garanto. Mas de praxe, a estação mais imponente do ano sempre tem um tempo muito curto por aqui. E aflitivamente, a cada ano, sempre que chega o inverno eu concluo que as pessoas pensam menos. Esse ano eu adoraria ver menos pessoas falando irracivelmente pelas ruas e mais transeuntes chutando pedrinhas enquanto andam (essa sim uma atividade que enche o cérebro de idéias e devaneios produtivos). Todo um bairro pensando em mil coisas, andando, parado, sentado em um banco de concreto daqueles de praça, imaginando uma arlequinada qualquer, mas que estejam dedicando ao menos cinco minutos de profundidade à momice.

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Mogwai – Happy Songs For Happy People. Ondas sonoras que mais parecem um convite à reflexão irresponsável, (in)coerente, libertina e que vez ou outra leva a conclusões surpreendentes.

BEIJO NO ROSTO É SINAL DE CARÊNCIA

Maio 4, 2007

Certa vez ouvi relatos de uma mãe nada coruja, mas ainda assim muito apegada ao filhote, que o garoto no auge dos seus sete anos adora beijos de meninas mais velhas – por volta dos seus quinze anos – com a mesma intensidade que repudia os beijos melosos da tia Rosana.

Além do nome em comum com esse garoto, a semelhança de comportamento me surpreendeu. No meu caso, a tia Judith, com um agá horroroso no final do nome, ficava lambuzando minhas bochechas com beijos estalados e ao mesmo tempo ensinava a pronúncia correta do seu nome, que na sua concepção distorcida de sonoridade, em muito diferia da sua vizinha, Judite.

Tia Judith foi meu primeiro contato quase traumático com o sexo oposto. Levando em conta que menos de 1% da população deve lembrar de como era ser amamentado pela mãe, tias Rosanas e Judiths podem ser consideradas a principal causa de um dos grandes argumentos psicológicos sobre o comportamento masculino e feminino na adolescência: o de que meninas amadurecem primeiro.

Veja bem, as meninas são tratadas de maneira bem mais harmoniosa pela família. Imaginem o que o pai e mãe iriam pensar se vissem o tio Clóvis dando beijos e mais beijos nas bochechas rosadas de sua filhinha indefesa. Pedofilia, perversão, sodomita enrustido. E essa concepção passa pela cabeça do tio Clóvis, logo a menina cresce em paz com o sexo oposto.

Aos treze anos boa parte das meninas já menstruaram e estão louquinhas para testar seu novo estado hormonal, digno de uma mulher. Mulher?, pensa o menino de treze anos com o kichute e a bola de capotão no pé. A imagem da tia grudenta é imediata. Dentro desse contexto atingir um pé de igualdade é difícil. Mas tudo melhora depois que beijar fica uma coisa normal. Normal não, gostosa.

Nesse momento, as meninas que não aguentavam mais esperar o amadurecimento dos infantes já partiram para a ação com garotos mais velhos. E você, tolhido em suas ações, começa a olhar para as meninas mais novas. Crianças.

Quando carícias, beijos e sexo já fazem parte do vocabulário e do repertório corporal de qualquer pessoa, aí sim revela-se o lado de tia Judith dos homens, e não é o lado meloso, é o lado possessivo. Tia Judith, como tia Rosana, coitadas, são as tias que nenhum homem quis. Perdoem-me as duas e suas variações espalhadas pelos cantos do mundo, mas vocês estão nessa situação porque são chatas e apegadas.

Se quando éramos pequenos os beijos dessas hárpias da gosma bucal caía sobre nossas faces, agora crescidos, esse sentimento cai sobre nossas acompanhantes. Do mesmo jeito que a titia queria tomar whisky, fazer os docinhos do aniversário, fumar um cigarro, grudar na sua bocheca; você quer tomar uma cerveja, fumar um cigarro, fazer uma bagunça e quando chegar em casa encontrar sua mulher. Elas eram possessivas, você ainda é.

Sem notar que já fizemos uma mulher chorar (senão muitas), somos arrebatados por uma porrada psicológica e ao perceber que não existirá uma mulher quando chegarmos em casa, uma mistura de posse com pânico se acomoda em algum lugar entre o estômago e o último dos neurônios. Sinapses enfervecidas com ketamina não conseguem produzir tal efeito.

Mas acredite, xarazinho do começo do texto, isso não é uma regra, mas que sua mulher no futuro não estará fazendo docinhos, é verdade. E pior, quando você for procurá-la vai achar uma boca selada a outra em cada esquina. Para sua tristeza, ao menos uma delas será conhecida. Nesse momento, um beijo na bochecha nos ajudaria a superar essa situação – não a visão da alheia, mas a possessividade humana inerente – mesmo que fosse um beijo da tia Judith.

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Aqueduct – I Sold Gold. I’d never leave you there screaming for my love. Uma homenagem subjetiva ao desapego.

TERCEIRA CHANCE

Maio 2, 2007

São três horas da manhã. Acabei de completar cento e oito horas acordado. Sabia que algumas pessoas já tinham ficado assim, mas eu achei que estava imune, que comigo isso não aconteceria. É, de fato, uma insanidade. No sentido literal da palavra.

Ainda que a insônia fosse todo o problema do momento, ela é apenas mais um dos sintomas que não consigo ignorar (nem meus chefes, que já me recomendaram um psicólogo no mesmo andar do RH). Os outros sintomas, como a falta de apetite, o desejo de ficar trancado em casa, a incrível resignação com que tento passar o dia e a noite, são bem piores. Sem planos e sem projetos. Bem comigo, que sempre pensei ser invulnerável a elas.

Não tenho certeza se alguém já disse isso, mas de todas as drogas, as mulheres são as mais viciantes. É muito provável que sim, devido à obviedade da afirmação. De qualquer maneira só posso concluir que a abstinência de uma mulher é torturante. É a pior parte.

O homem experimenta, gosta, rapidamente se envolve e de repente fica sem. Por alguma bobagem, alguma estupidez, sem motivo algum ou por trocá-la por outra droga (as mulheres invariavelmente culpam a cerveja, loira deliciosa e perpicaz, que aumenta a auto-estima masculina com poucos minutos de conversa). Assim, no mesmo tempo em que uma banda consegue cantar one, two three, four, uma mulher consegue te largar. Sem uma resposta, sem sequer uma pista de como proceder.

Você deve agir, fazer alguma coisa. Mas fazer o quê? Fazer como? Você pode esperar. Mas esperar até quando? Por quanto tempo consegue um homem ficar sem pensar em uma mulher? Por quanto tempo um homem vive sem uma paixão? Uma paixão que ele possa conversar, tocar, beijar e transar. Não um símbolo de time do esporte bretão. Uma paixão que tenha a pele macia e lábios desenhados de um jeito que só os maiores artistas conseguem copiar. Copiar, porque criar algo tão perfeito é impossível. Eu não sei dizer por quanto tempo isso é possível.

Mas quando esse tempo chega, ele vale toda espera. É incrível como de repente, com uma simples notícia, o homem percebe que todo seu sofrimento, toda angústia, não passava de uma bobagem adolescente já superada. Tudo bem que ele teve que esperar muito por isso, mas agora está tudo perfeito, como deveria estar.

Uma segunda chance de aproveitar uma dose de Soma e se embriagar em odores que não se encontram em nenhum outro lugar, a não ser naquela pessoa, naquele pescoço e naqueles cabelos. Uma delicadeza que só se sente naquelas mãos, naquela boca e naqueles seios. É tão perfeito que não pode ser real.

É tão perfeito que não é real. Porque no momento seguinte ela já está dizendo adeus. Cada vez mais rápida, cada vez mais dolorido. Como uma arma que antes de perfurar lentamente o coração, transpassa ouvidos, nariz e olhos, para que o homem só saiba que uma mulher está próxima ao sentir o toque de seus dedos. Uma lâmina que dilacera o interior, porém deixa a carcaça inteira, para que todos o vejam apodrecer e morrer, um pouco por dia.

E o homem, que não sabe como encontrá-la, espera. Aguarda por mais um segundo, que seja, de sua saliva e do sopro que sai de sua alma e transforma todas as sensações em uma catarse que só pode ser superada pelo torpor eterno.

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Arcade Fire – Funeral. Não existe uma banda como eles. Existem melhores e piores, mas não como eles.

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Arcade Fire – Neon Bible. Já estou sem comer e sem conseguir raciocinar esperando pelo próximo contato.