MACHIFESTO

Março 10, 2008

Em um futuro não muito distante, em um grande ginásio de uma grande universidade, o Partido dos Limitados – que tivera seu nome definido pelo congresso – apresentava seu devastador discurso, que, segundo seus líderes, revolucionaria as bases epistemológicas sociais e antropológicas impostas na época. O local estava repleto de homens barbados. Barbas bem feitas, aparadas, sedosas e brilhosas como uma crina, nada daquelas barbas dos cossacos. Eles eram os descendentes dos glutões do século XX, que morreram gordos em uma época em que o colesterol ainda era uma preocupação e a água do mar não era filtrada. Estavam todos eles segurando seus copos de cerveja e ouviam atentamente a promessa de um mundo mais justo, livre da perseguição sexofóbica das mulheres.

“Amigos,

Ainda hoje, em pleno século XXVI é inaceitável que existam membros do sexo feminino, considerando que nós, homens, não conseguimos fazer as coisas tão bem quanto elas. Claramente apoiadas pela maioria feminina no congresso e senado, as representantes do sexo forte continuam a explorar os homens desde sua mais maviosa idade.

É injusto e assustador que há mais de dois séculos sejamos tratados com descaso e repúdio pelas classes maquiadas, que têm acesso liberado ao backstage das fábricas de sutiã. Por exemplo, as universidades infantis são um privilégio feminino. Por que o garoto, brilhante como a mais iluminada das meninas, é obrigado a freqüentar o grupo escolar destinado ao seu número de registro de nascença? Mesmo que isso signifique viajar mais de duzentos quilômetros diários em variados transportes públicos, só para obter uma educação básica e beldroega.

A história nos mostra que esta repressão ocorre desde o século XXII. Antes disso, o mundo era capitaneado, em sua maioria, por homens. Em um ato de benevolência e clara demonstração de superior capacidade de convívio social entre iguais, nós, homens, permitimos que as mulheres (que já tinham suas honrosas tarefas domésticas e maternais) fizessem parte do nosso ambiente de trabalho, dos círculos sociais que nos orgulhávamos, de nossas vidas íntimas. E então, elas nos aplicaram um golpe de grande-mestre enxadrista. Enquanto países em desenvolvimento mexiam em pecinhas de construção civil e AKs-47 as mulheres em desenvolvimento moviam pessoas e contextos ao seu favor. Aparentemente, além do avanço biológico privilegiado, as mulheres também evoluíram em outros aspectos como, egosociais, antropofágicos, esportivos e bélicos. Todavia, companheiros, tal progresso só seria possível caso as fêmeas antigas conseguissem dominar as dimensões relativas da física e seus portais espaço-tempo. Portanto, em vista da seriedade desta possibilidade, é correto afirmar que nossas opositoras políticas vivem, ainda nos dias de hoje, agora, conosco e ao mesmo tempo no futuro, onde provavelmente o mundo segue seu caminho natural, liderado por homens. Porém, aqui, em nosso tempo, somos subjugados, e quando chegarmos ao futuro, continuaremos dominados e o presente da outra dimensão, como ele deveria ter acontecido, terá se alterado. Às favas com o paradoxo temporal.

Assim, o lorpo destino da nossa sociedade atual recai ao momento em que permitimos a entrada delas para um novo mundo, cruel, do qual as estávamos preservando. Neste ponto,surgiu numa microfração muito relevante da linha histórica que deu abertura para que fatos notáveis contribuíssem com mudanças significativas na ordem e organização, prezada e defendida por nós, espécime masculina, sucedessem. Não é isso mesmo, afiliados? Vejam só as academias de ginástica, um câncer que ainda hoje impera, seja na área rural, urbana ou espacial, e nos torna cada vez mais impotentes. A simples visão das curvas torneadas pela magia negra das máquinas de supino é o nosso melhor exemplo.

Historicamente, a instituição Academia de Ginástica começou a se formar nos calabouços de Green Grass Northshire Castle. Lá condenados passavam pelo julgo de reis e rainhas, príncipes e princesas, amas e cozinheiros, e eram sentenciados a ficarem, de tempos em tempos, presos em uma posição semelhante a da crucificação. No ano de 1.376, uma mulher de idade foi colocada junto dos detentos homens. Eles, sensibilizados com a situação daquela senhora foram ajudá-la. Mal sabiam que ela era uma harpia aprisionada em sua forma unicamente humana. Aos poucos, ela foi sugando a energia de cada um dos réus, até que se tornassem pele, ossos descalcificados e glóbulos oculares amarelados. Quando seus poderes atingiram o auge, ela conseguiu escapar, mas antes amaldiçoou a posição que tanto forçou seus músculos e quase provocou a perda completa de seus movimentos, e por conseqüência, sua mágica. Estudos comprovam que essa posição amaldiçoada é a mesma recomendada nas primeiras máquinas de supino, sucesso entre os homens da década de 1980. Além de tornar os polhastros atrativos apenas para Ursos Grizzlies, a vaidade entrava sem vaselina no consciente masculino, derrubando a auto-estima como se ela fosse um objeto de decoração sem valor. Para corrigir esse problema, os homens passaram a desenvolver aparelhos mais tecnológicos, que tornassem o corpo mais sensual. Isso também não fez com que sua auto-estima se engrandecesse. Então, homens benevolentes, mais uma vez ludibriados por alguma poção vinda do futuro, apresentaram às mulheres a academia, oferecendo a chance de elas mostrarem todo seu talento e capacidade de raciocínio em um ambiente tipicamente masculino, tornando-o mais harmônico. Ingênuos, isso que fomos. O contato massivo da espécie feminina com a antiga maldição da harpia aflorou os piores instintos do mulheredo. E por isso hoje, séculos depois, nós definhamos. Só temos ridículos hectares de florestas recuperadas pelos governos femininos para correr e nos exercitar, enquanto as fêmeas podem usufruir das florestas, com seus lagos e rios despoluídos, e também das nanomodernas vilas esportivas. Mas não me tomem por praguejador e detalhista. Não. O departamento esportivo é apenas um dos segmentos em que somos humilhados e azorragados.

Estão começando a entender o que quero dizer companheiros de punheta? Onde está a poluição que preenchia nossos pulmões? E como as mulheres lhe tratam no trânsito? Xingam você de burro, braço. E os carecas então? É só ultrapassar um pouco o limite de velocidade que já ouvimos o coro “tinha que ser careca”. Injustiçados carecas. Elas pensam que o domínio de modalidades como Fórmula Zero e X-Rally lhes dá o direito de pensar que nós, homens, não temos mínimas condições de competir em uma prova automobilística. Insulto.

E agora, peço aos associados que consideram seu estômago forte o suficiente, que fiquem. Mas sintam-se à vontade para não continuar aqui, aqueles que ficarem incomodados com os temas. São delicados, eu sei, mas temos o dever de levantar as questões Entretenimento ao Ar Livre e Trabalho. Esses tópicos específicos são considerados as principais causas de suicídios nos países com alto índice de suicídios. E não é para menos.

Como, homens da minha nação, nós vamos nos divertir tranqüilamente na praia enquanto mulheres poderosas passam a nos intimidar, e a caluniar nossos defeitos e exaltar nossas qualidades como se fôssemos legumes muito verdes ou muito rotos. “Ah, esse é bom de apalpar, esse já está mole. Hum, esse tem uma pele boa, este parece um pé enrugado com frieiras”. Como, meus selváticos, vamos manter o mesmo desempenho visual que o delas. Somos proibidos de entrar em lojas de cosméticos, não temos um ginásio sequer. Apenas uma campo que tem mais terra batida e texugos do que grama. Não estamos em condições de argumentar, quanto mais de demonstrar que também podemos escolher, que o esporte, a política, as cirurgias, a educação, tudo, não são atividades exclusivamente femininas. Quando nós poderemos olhar um biquíni e fazer um coro de elogio às ancas? Quando poderemos entrar em praias de topless sem ter que pagar uma taxa abusiva? Quando voltaremos a ter shampoo e condicionador 2 em 1 ao invés de sabão de coco incluído na cota da nossa cesta básica masculina? Quando as meninas do campo vão balançar suas saias hippies e ouvir aplausos ao invés de desejos reprimidos? Este tema precisa de abordagem iminente, correligionários de bolsa escrotal, e acreditem, se tivermos a chance, não vamos nos intimidar.

E quanto ao trabalho. Proponho uma greve imediata. Da mesma maneira que somos tratados em boates, danceterias e bares, a falta de mesura também assola o ambiente corporativo. Nossos cargos, muitas vezes abaixo do que merecemos, nos ata as mãos frente às injustiças sexuais sofridas. Depilar o peitoral como técnica barata de sedução em entrevistas, sapatos bico fino para parecer que sempre calçamos uns números a mais, ter que apalpar os peitos caídos da superiora da área, depois da superiora do departamento e por fim da superiora geral só para ganhar um café na reunião que, por um milagre, você foi convocado e não está entendendo nada, porque a informação relevante nunca chega aos seus ouvidos. E o pior, mesmo não possuindo posições de comando em nenhuma das grandes empresas do mundo, a culpa sempre recai sobre nossos ombros. Lembram-se do caso da presidente daquela empresa inglesa? No processo de separação o marido saiu com um par de meias e um colher de café. Acusado de interesseiro e biltre em praça pública. Logo em seguida, devido a uma segunda mão de esmalte mal aplicado, ela foi deposta. Neste momento o pobre do (já) EX-marido foi acusado de abalá-la emocionalmente em um desquite que lhe drenou a consciência. Não somos interesseiros caros colegas, somos sim interessados na nossa emancipação dessa ditadura repressora do absorvente.

Por isso, meus companheiros que vão ao barbeiro ao invés do cabeleireiro, conto com o apoio de vocês no último domingo do próximo mês para iniciarmos o processo de renovação social, onde os homens também poderão controlar ações e rumos a serem tomados. Teremos um canal de televisão só com pornografia, a Copa do Mundo Masculina voltará a ser jogada a cada quatro anos e a área do comércio do amendoim japonês será redefinida de acordo com os padrões dos botecos mais tradicionais. São planos ambiciosos. Sim, eu sei. Mas eu não deixo de acreditar que juntos, unidos, atingiremos nossos direitos.

Obrigado.”

“Não. Juntos e unidos não significa de mãozinhas dadas.

Obrigado.”

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Liz Phair – Exile In Guyville. Ah, homens. Rendam-se logo, por favor.

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2 Respostas para “MACHIFESTO”

  1. O Destino Diz:

    Que Deus livre a nós, indefesos homens, da tirania imposta pelas feministas e que os direitos iguais sejam eternamente preservados.

  2. flavinha Diz:

    hehe. adore.


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