Você…quer contar mais alguma coisa? – perguntou a policial já de saída.
Não. – respondi quase sem voz e fechei a porta.
Depois de mais de 30 anos, tenho que me acostumar a dormir no meio da cama de novo. E tudo que sobrou, umas poucas fotos – o flash despertava reações horríveis nele – e um caderno de anotações em que propositalmente só se salvaram da lareira as úlitmas páginas.
“Eu poderia dizer que te amo com mais frequência. Eu gostaria até, na verdade. Mas não consigo. Porque às vezes, eu só sinto indiferença por você. Eu olho com as pálpebras semicerradas, fico medindo cada centímetro da sua pele e dos panos caros, bidrapeados, guardados para uma data especial que cobrem sua silhueta, e eles não significam nada para mim. Não consigo nem me lembrar como um dia você chegou a ser importante dentro do meu contexto. E depois de pensar em tudo isso, eu durmo. E acordo cheio de saudades. E chego a escovar os dentes antes de voltar pra cama e te beijar na boca.
Uma inconstante mutação de humores e razões que só mesmo um louco clinicamente comprovado poderia acompanhar. Aqui estou sendo sincero. Saiba que te amo, e odeio saber que você não pode sentir isso da mesma maneira que eu sinto: sem esse turbilhão de sinais que me afastam de você para que eu posso amá-la ainda mais quando vem em meu auxílio. Desde sempre foi assim. Quando eu coloria os quadros que já estavam nas paredes da escola ou das casas em que tínhamos aniversários supostamente divertidos. Adorava as cores e os cheiros de comida de cada uma dessas cores, saboreava o visual de todas, como se fossem você. Tinha também aqueles dias em que eu me escondia e só uma pessoa conseguia me encontrar. Você dizia que eu estava sentado no meio da sarjeta, ou no pé de uma árvore, mas eu sabia que estava escondido; e sua aura e sua maquiagem borrada chegavam na forma de um abraço, bem antes da sua voz.
Eu gostava que tivesse alguém tão formosa e com um estrutura óssea tão bonita correndo atrás de mim, só não entendia porque era tão raro esse momento. E me irritava não entender. Já não entendia muita coisa, precisava de mais uma? Já não entendia você. Mas quanto a isso tudo bem, tem gente bem mais sã que eu me garantindo que mulheres não existem para ser compreendidas. E eu que não sou mulher? Não sendo compreendido, deveria ser uma? E se eu for? Por vezes eu acho que tenho formas mais femininas que os outros homens. Mas só às vezes, nas mãos. E nada como as suas, nenhum contorno é como o seu. Ele me estapeia na cara de duas maneiras, como um litro de sangue vertido ao lado do tubarão e como uma gota de sangue cuidadosamente colocada a um quilômetro do mesmo tubarão. Surge a necessidade de chegar perto do seu corte, raso ou profundo, de cutelo certeiro ou de faca cega, para então saber se vou só esparramar meu rosto em seu gosto de ferrugem ou se vou morder até arrancar pedaços da sua carne, carregando parte da sua alma comigo por toda eternidade.
Claro que eu planejei ser um gênio adormecido, mas vamos ser realistas, quais eram as probabilidades disso acontecer? Seria mais fácil eu levar o Serra Dourada inteiro na minha minivan com um carreto cheio de palhaços equilibristas de doninhas adestradoras de um circo de percevejos que sabem ler relógios digitais. Não é óbvio? E você ainda assim quis ficar do meu lado. Limitando seu campo de ações às minhas anomalias e desfalecimentos. Gostaria de ficar para ouvir da sua boca o porquê disso. Mas acho que não preciso…e que não me convenceria de que pouco acrescentei a suas ambições. E eu com toda minha cupidez, exigindo que me ajudasse com meus projetos patetas.
Não me procure marginália ao riacho, tenho a distinção de não me guardar em meio a nossas vestuárias ou nos dejetos de nossos vizinhos. Florestas parecem atraentes, mas lá não vou saber se as vozes vem do meu predador ou da minha cadeça. A mata nunca fica em silêncio e fica longe, muito longe. Longe demais para eu manter a lucidez, que pode permanecer perfeitamente impenetrável embaixo de uma boa camada de papelão.
Não quero que isso seja visto como um abandono, mas sua alforria. E se agora você chora, deveria gritar pela liberdade conquistada com meus cotovelos queimando ao rastejar no asfalto e meu pranto que brota quando bate os ventos dos descampados. Não faço nada como autopunição, mas como fuga do meu mundo interior. Dos cheiros, dos comandos, das ideias brilhantemente desconexas. É provável que esteja gastando aqui meu último lapso de sanidade e coerência, se algum dia nos encontrarmos novamente você poderá me responder se existe aqui algum sentido, e eu com olhos esbugalhados de dúvidas tentarei imbecilmente compreender.
Todo conteúdo pré-escrito neste caderno não tinha o mesmo teor do que você está lendo aqui. Por isso queimei. O que resta é a verdade. O que eu antes retratei com palavras não mereciam chegar ao estágio amarelado das páginas; eram mentiras que deveriam passar direto às cinzas. Eram muito lindos, os momentos, belos como alguma maravilha que você vê pela primeira vez. Relendo antes de decidir me exilar, quase desisti de tudo e por pouco que não me deixei convencer de que nossa vida era uma bela novela sem drama, sem reviravolta. Para mim provavelmente era. Para você, que lidava com minhas surpresas de roteiro, trabalhadas com esmero pelas partes incógnitas do cérebro, o drama virava suspense com a simples empunhadura de uma faca na hora do jantar. Ao que me lembro, pelo menos nunca descambamos para a introdução de um filme macabro. Mas, não creio que minhas memórias tenham tanto valor agora para qualquer pessoa que não esteja em uma sala com um divã, mordendo as peles ao redor dos dedos, refletindo sua incontrolável curiosidade mórbida metamorfizada em anos de estudo, mestrados e doutorados.
Não quero me enguiar mais. Só preciso saber que você não vai partir em uma busca descompensada e lamuriosa. Aqui, estou tirando a trava de minha demência. Tudo que controlei por anos – ou que tentei – vai atravessar minha mente como uma boiada brava no sertão, levantando fumaça densa e niquelada, desnudando cada ângulo desse estábulo que por anos teve suas sujeiras jogadas para baixo das ferraduras usadas e das crinas que não se tornaram cordas de violoncelos. Daqui poucos dias estarei irreconhecível, quiçá, vivo. Aqui eu te deixo, aqui eu me encontro. Daqui em diante, vou ouvir as canções entoadas pelas ruas e pelas estradas, por cegos em portas de igrejas, por realejos em quermesses sem maçãs-do-amor. Vou contemplar ternos alinhados e pés descalços, um se escaldando em agonia, outro nas brasas moles do piche. Vou viver a desgraça como o bêbado vive a bebida. Vou me alimentar de trevos de três folhas, deixando os de quatro para quem teve mais sorte que eu. Vou tomar da água dos deltas para não amaldiçoar as nascentes. E dormirei a favor do vento, para nunca mais sentir seu perfume.”

Crystal Antlers – Tentacles. Vozes, texturas e sentimentos que estavam desejosos e gritando para se libertar.