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	<title>gorila albino</title>
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	<description>discos que merecem virar história</description>
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		<title>gorila albino</title>
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		<title>UMA VIDA ETERNA PELO ÚLTIMO ADEUS</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Aug 2010 23:59:06 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Desapontei muitas pessoas. Desconfiei de outros quando deveria ter desconfiado de mim. Rotulei indivíduos, julguei atitudes, manipulei conhecidos para chegar até onde queria. “Ponha-te de acordo, sem demora, com teu inimigo, enquanto estás atado a ele pelo caminho, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao carcereiro e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=148&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Desapontei muitas pessoas. Desconfiei de outros quando deveria ter desconfiado de mim. Rotulei indivíduos, julguei atitudes, manipulei conhecidos para chegar até onde queria. <em>“Ponha-te de acordo, sem demora, com teu inimigo, enquanto estás atado a ele pelo caminho, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao carcereiro e seja posto na obscura enxovia. Em verdade te digo, que dali não sairás até que pagues o último xelim”</em>. Só havia uma redenção para mim.</p>
<p>A pequena porta de entrada era pintada de azul cadete. As diversas camadas de tinta já tinham se desgastado e a textura, devido à garoa ininterrupta, paradoxalmente lembrava o solo do sertão, árido e resignado com seus anos vividos da maneira que lhe foi permitido, sem chance de mudança. O corredor de entrada era escuro como o interior de uma tumba selada e excretava variados tipos de fumaça, como uma neblina artifical escapando de um forno que incinerava os bons costumes. A névoa era aromatizada com tabaco na forma de cigarros industrializados e feitos à mão, metal do fundo de colheres queimando e um desconfortável odor de pele crestando na sala especial para cauterizações com ferro incandescente. Em noites que duram mais do que a noite propriamente dita, tudo pode acontecer. E quem entrava, não estava ali para sair e tomar meia dúzia de pontos no pronto-socorro.</p>
<p>Sobrevivendo a um possível acidente precoce em algum prego tetanificado, dentro de duas horas os olhos paravam de lacrimejar, criando uma resistência ao que normalmente é considerado tóxico, como se acionasse um parabrisa na retina. O palco parcamente alumiado acomodava os instrumentos básicos de uma banda, mais um piano de um quarto de cauda e uma mesa de discotecagem. As pesadas cortinas de um veludo verde-azulado estavam recolhidas, mas nunca se escondiam por completo. Continuando de cada lado do palco um grande balcão guarnecia o espaço e servia de bar, porém só o lado direito tinha bancos. Do lado de dentro do balção não havia luz, nem sinal de movimento, mas chegando perto e pedindo qualquer coisa etílica você era atendido, hora por um sarraceno, hora pelos seios de uma stripper que para ser considerada apenas decadente precisaria de anos de academia e vida regrada. Entre os balcões, a pista, com poucas pessoas desinibidas, dançando sem ritmo, sem coordenação e sem pudor. Passando a pista, uma grande área envolta em breu, uma quase completa ausência de luz. Em algum lugar ali se encontrava o banheiro. Sua porta, apesar de espelhada, não ficava nada aparente, precisando sempre ser encontrada com o tato. No pouco que restava do ambiente se alojava a mesa de som, dois puffs coloridos, surrados e sem enchimento e a sala de operações.</p>
<p>Mesmo completamente fechado um vento algente invadia o local e qualquer ébrio poderia dizer que não era de uma central de ar-condicionado. Ele passava por frestas, por rachaduras minúsculas, por buracos hitoricamente cavocados pelas foices fora de contexto que agora ornavam as paredes e pelo hálito de absinto e akvavit de quem usava as bebidas como Listerine. Os casacos ficavam amontoados em um canto e era sensato imaginar que na saída tudo que você precisava era de um pouco de sorte para escolher algum que fosse do seu tamanho. As luzes, diferente do que se imagina em um clube, não ficavam estroboscopiando a todo milisegundo. Elas quase não existiam. As poucas que ficavam ligadas eram coloridas e fracas o suficiente para refletir apenas os copos mais próximos e as lantejoulas multicoloridas espalhadas pelo chão. O ambiente de cauterização, usado também como estúdio de branding, mantinha um abajur com uma lâmpada branca, e por isso mesmo a porta mantinha-se sempre fechada. Minhas costas ainda estavam se acostumando com a marca deixada pelo ferro quente há um mês. Na ocasião saí carregado pela banda, sobre o case do baixo. Em meio a essa enxurrada de informações, o mais impressionante mesmo era o teto. Feito de vidro, entre ele e o forro superior existia um ecossistema composto de um solo seco, uma parca vegetação composta de arbustos e árvores do cerrado, ayes-ayes biomodificados, com grandes caninos e pernas fortes como a de rãs, mini-camelos do tamanho de gatos e um monstro-de-gila. De baixo, por meio de uma estrutura bem pensada de espelhos podíamos ver tudo que acontecia na ecobertura do belzebu. Enquanto as pessoas observavam os animais, pensando em qual pereceria caso a fome apertasse, eu pensava em ir ao banheiro. Precisava me confessar antes de enfrentar a noite.</p>
<p>Encontrei a porta espelhada e ganhei um corte no indicador. Alguém deve ter achado que um espelho estilhaçado combinava com a decoração. O lado do meu dedo jorrava sangue. Amaldiçoei o filho da puta com palavrões leves e entrei no banheiro. A pia com a torneira enferrujada ficava ao fundo. No caminho até ela, seis cabines, cada qual um evento à parte como um grande peep show no modo shuffle. Na primeira delas a porta aberta mostrava mais do que as pernas finas de uma mulher escorada na privada com os cotovelos. Com uma das mãos ela segurava o longo cabelo castanho, com a outra buscava mais uma base de apoio na borda do vaso. Muitas doses de substâncias ilícitas ou uma síndrome anoréxica a qualquer coisa que ela possa ter engolido. No segundo espaço a porta encostada era a prova de que, tirando a menina da primeira cabine, a maioria estava minimamente sã. Nenhuma porta tem tranca no lavatório. Depois de certa hora é impossível mantê-las fechadas como esta aqui. A terceira e a quarta cabine são, tradicionalmente, onde os clientes enchem seus narizes e veias de flagelos estimulantes, como se houvesse alguma pré-designação. Não à toa havia fila de espera. Tive que pedir licença para passar. A quinta porta encontrava-se fechada e estava quase explodindo com tantas pernas do lado de dentro. Era impossível imaginar que algo pudico estava acontecendo ali, ao mesmo tempo era absurdo pensar que alguém conseguia fazer muita coisa em tamanha densidade demográfica. Talvez essa seja a graça. <em>“Vê, hoje coloquei a sua frente a vida e o bem, a morte e o mal”</em>. Na sexta cabine um homem segurava com cuidado a cabeça de outro que vomitava sangue. O homem parecia bem preparado para as desventuras da vida. Seu terno propositalmente claro e o sapato de croma alemão destoavam do público. Os suspensórios denotavam o caráter sério e, provavelmente foi isso que me fez tomar-lhe por alguém prevenido. Perguntei se ele por algum acaso tinha alguma coisa contra cortes menores. Tomando-me por um amador qualquer ele estendeu um tubo de Super Bonder acompanhado de um olhar de desdém. Com o braço para cima deixei o sangue estancar, limpei a crosta formada e o que eu consegui de tudo que havia escorrido até os ombros. Espalhei a cola sobre o local e movimentei rapidamente o dedo para evitar que ficasse sem movimento. Depois esquentei a cola com um isqueiro para ela selar. Nada que o pronto-socorro não pudesse remendar da maneira apropriada, no momento apropriado.</p>
<p>Acendi um cigarro, devolvi a supercola e, amparado por um dos pés na parede de azulejos, esperei pacientemente a menina da primeira cabine terminar de expelir o pâncreas. Depois de uma grande pausa entre uma jorrada e outra ela me olhou e sugeriu que precisava de algo bem no fundo da garganta para conseguir vomitar algo que estava fazendo mal a ela. Mesmo aqui a proposta era baixa demais. Ofereci o cabo de um esfregão imundo que estava do meu lado, e ela olhando estrabicamente para todos os lugares respondeu com uma voz arrastada que o cabo era muito, muito duro e muito fino. Arrastei ela pelos tornozelos ossudos e a joguei dentro da quinta cabine. Ali ela conseguiria resolver o que quer que fosse. Ainda era cedo para filas em todas as portinholas do banheiro. Pude mijar sem nenhuma ninfomaníaca olhando para meu traseiro e coloquei uma lasca de diavol sobre a gengiva. O puro diavol é feito em Slobozia, Romênia, uma cidade que além de uma réplica no máximo esforçada da Torre Eiffel e do lago Amara não tem nada que valha o registro. Em resumo, a cidade é uma merda, o diavol, em contrapartida, é divino. Ele e o lago. O Amara é salgado, e rico em brometo, uma substância que até o início do século vinte era usada como sedativo. O que dizem no País é que uns trinta anos atrás Goculesco Stossel levou um pouco de <em>Andryala levitomentosa</em> – uma planta que só é encontrada nas montanhas Bistrita – e fez um chá com a água do lago antes de dormir. Sem saber que a água era salgada expeliu o líquido logo no primeiro gole e deixou a taça de madeira no chão. Ao acordar Goculesco viu que, em questão de horas, flores cresceram exatamente onde ele havia cuspido. Ainda sobre influência do antepassado do diavol, a conclusão óbvia que ele chegou foi que precisava desidratar o composto da erva embebida na água e comer. Goculesco fez dos restos vegetais seu almoço. Uma semana se passou, e quando a euforia baixou, só então ficou claro que as flores não existiam. O diavol era apenas muito forte. Na atual composição ainda são embutidos alguns químicos para inibir a fome e o sono, tudo na forma de pílula. A noite estava apenas começando.</p>
<p>Saí pela placa que indicava saída. Devido a um brilhantismo arquitetônico não era o mesmo local da entrada. O recinto estava um pouco mais abarrotado. Segui direto até o bar do lado direito sem responder as mãos que me puxavam para o centro da pista, sentei em um banco, pedi um gim tônica e ganhei a companhia de um rapaz de uns dois metros, cabelo bem curto que tinha os dentes cerrados. Sentados lado a lado ficamos ambos olhando para os ganchos de suspensão. As performances, com o perdão do trocadilho, haviam sido suspensas há uns cinco meses. Um gordinho estava na horizontal, a uns dois metros do chão, e as pessoas começaram a se dependurar nele até a pele não aguentar. O cara se esborrachou no chão, espalhando entranhas a esmo, um segundo antes da virada que o DJ estava preparando fazia dez minutos. Todos foliões congelaram, a música pronta para uma reentrada triunfal mantinha as pessoas no estado anestésico da matéria, o gordinho ainda estrebuchava quando os graves voltaram, como um torpedo de um submarino russo no ouvido de quem estava presente. No instante seguinte, que funcionou como um desfibrilador coletivo, já tinha gente vagueando com o intestino de colar e um osso da costela prendendo os cabelos.</p>
<p>O rapaz me perguntou se eu estava presente, referindo-se claramente à obesa performance. Respondi que sim e mostrei as botas marcadas pelo sangue impossível de ser retirado sem rasgar o couro do calçado. Lembrei que nessa oportunidade fui arrastado pela jaqueta até a sarjeta e apoiado educadamente no poste com um conhaque evasado em uma garrafa plástica nas mãos para me hidratar se necessário. Pelo menos era o que o bilhete do segurança relatava. O bípede continuou dizendo, nessas palavras, que “o balofinho era um altruísta. Todo rosadinho e sardentinho. Deu a vida para que pudéssemos ter uma das noites mais profundas da nossa existência.”</p>
<p>Eu podia jurar que o homenzarrão estava distorcendo os fatos quase em sua totalidade, mas achei melhor não discordar de alguém que chama um cara dilacerado de balofinho. Os meus olhos começavam a piscar em câmera lenta, por mais que eu estivesse com qualquer outra atividade involuntária em perfeita ordem. Virei para a parte interna do bar, joguei meu cartão de crédito para dentro e sussurrei a senha à atendente. Munido de álcool levantei para fazer um reconhecimento onírico do mesmo ambiente, que em poucos minutos estaria completamente diferente. No primeiro passo o monstro-de-gila entrou no meu caminho. Ele tinha uns oitenta centímetros e eu nunca soube que os animais desciam do terrário. Fui acompanhando o lento lagarto em sua missão. Ele ficava solto pela casa e assim que mordia alguém, a pessoa corria a implorar por um pico e injetava MDMA-alfa líquido diluído em placentóides. Mesmo no meu estado de percepção reduzido a reação das pessoas impressionava. Quase imediatamente elas se jogavam no chão áspero de madeira escura e continuavam dançando como se o eixo de referência delas tivesse mudado para as paredes.</p>
<p>Em uma hora o chão estava tomado de criaturas humanas se mexendo como se estivessem de pé. Elas giravam em seus ombros sem sentir dor, batiam os narizes, os joelhos, clavículas e cotovelos, se contorciam com a fúria de quem viveu uma vida de injustiças e estivesse finalmente com o motivo de seus fracassos amarrado em um berço de judas. Perplexo, continuava a encarar os bailarinos e suas juntas moles como de crianças. Eu estava hipnotizado pela cena como se olhasse o primeiro brócolis da minha vida. Entre dançatrizes e janotas não conseguia ver o olho cheio de fissura ou cerrados mirando o nirvana, o balanço do corpo mole tinha ficado nas raves de décadas atrás, o ar blasé chegava quando conveniente, mas na maioria do tempo todos se olhavam e faziam sexo com os cílios interdependentes de mais de vinte centímetros. Fui ao banheiro decidido que o sobejo do diavol daria um jeito na minha repentina e inesperada caretice. No caminho virei um brandy que havia ficado no balcão, provavelmente de algum eletrowalzertänzer de solo. Na verdade eu estava só torcendo para que houvesse alguma coisa na bebida. Não havia. Só um bom brandy.</p>
<p>A fila dos bóias-frias da degradação agora lutava por um espaço nos vasos. Se alguém quisesse urinar seria mais fácil fazer no lixo ou na parede. Isso claro, até alguém perceber que o lixo é de metal, é plano e está seco. Queria também lavar o rosto e me aproximei com algum esforço da pia. Chequei o estado do meu dedo – milagrosa cola que deve ter uns antioxidantes na composição – e abaixei a cabeça melancólico com o palco de tragédia concluída exposto na última cabine. Do lado direito da privada a menina de pernas fininhas, com o cabelo todo desfeito e desmaiada. Seu vestido já estava mais parecendo um trapo e sua cútis, hidratada desde cedo no leite de cabra vienense, já estava suja, com pedaços escuros de detritos embaixo das unhas e nas protuberâncias. <em>“Alguns homens se esquecem de tudo, menos de serem ingratos”. </em>Dentro da privada descansava um mini-camelo. Morto. Tirei meu canivete do bolso para cortar a corcova do bicho e extrair a cartilagem, em falta na feira de ilícitos da cidade desde o ano passado. Coloquei o diavol inteiro na boca para esvaziar a âmpola e apertei dentro do frasco a pequena bolsa de gordura. Mesmo que minha preocupação estivesse diluída em entorpecentes, torcia para que a menina não tivesse bebido da mesma água da privada que o falecido mamífero de laboratório. E para evitar que isso chegasse a acontecer coloquei ela sobre o ombro, lavei o rosto da sujeita e molhei algumas partes como o pescoço e os pulsos. Sair da pocilga por uma perfuração no rim seria ridículo, mas agora encontrava-me com uma situação potencialmente séria nas mãos. Passo com o estorvo, adotado em meio a uma crise de remorso, estribada nos ombros. Da saída do banheiro até a saída da casa, com o diavol potencializado, e em meio a infinitos e defectivos pas de deux horizontais, só consegui notar o lenço dourado de rakematiz amarrado no pulso combinando perfeitamente com um longo cabelo castanho claro. Tentei ralentar o passo, mas invariavelmente tomaria um rabo-de-arraia, pensei em fazer uma curva mas podia sentir os orgãos da menina desacordada palpitando em minha escápula esquerda, clamando por ar puro. O rosto abaixado que eu procurava ver usava os cabelos como um escudo de sombras impenetrável. Só pude ver uma taça, cheia até a metade, de uma simples cerveja acomodada nas mãos bem desenhadas. Ressentido com minha nobre atitude, coloquei os óculos escuros antes de sair. Não queria saber exatamente que horas eram. Tomei um táxi que me parecia ter o formato de um estegossauro e disse: “Chofer, rumo ao hospital deste burgo. Antes, passe na Feira do Rajastão”. Ele me olhou estranho e fui obrigado a apontar o estado da rapariga para que a necessidade de urgência fosse sentida.</p>
<p>Na feira não me extendi mais que cinco minutos. Consegui um bom preço na corcova do sedento camelinho. Assim que chegamos ao hospital a enfermeira arregalou os olhos e fez um carnaval tão grandiloquente para conseguir um quarto imediatamente que deixaria a Sapucaí parecida com um stand up de carrapatos, por mais divertido que isso pareça. Acompanhei a ébria em sua maca suando frio com a assepsia da instituição. Já no quarto algumas máquinas começaram a chegar e perguntaram se eu tinha alguma relação com o traste. Me limitei a responder que era eu quem a havia trazido. Com essa resposta não me permitiram ficar durante o procedimento, aparentemente seríssimo. Decidi aguardar na sala de espera. Se o estado da coisa era grave fiz bem em trazê-la. Quatro horas depois um médico me acordou do meu cochilo. Arrumei os óculos escuros e me aprumei para ouvir o pior. Mas o pior fora evitado em tempo. Eu já não tinha mais nada para fazer ali. E, sinceramente, tinha pressa.</p>
<p>Parti quase trôpego pelas luzes que driblavam as lentes dos óculos e não ornavam em nada com a dinâmica do diavol. <em>“O desejo liga o que não existe ao existente, o impossível a você”</em>. Dois quilômetros que separavam a alcova do hospital pareceram duas maratonas dentro das condições normais de temperatura e pressão narcóticas. As pernas estavam pesadas e eu só pensava em encostar no balcão do bar. É bem verdade que não pensava só nisso, mas também nisso. Novamente a frente da porta azul cadete, respirei fundo antes de adentrar mais uma vez à romaria do torpor. Pelos meus cálculos eu me encontrava mais ou menos na quinta estação, das nove possíveis. Levantei a perna para o passo derradeiro, porém antes do meu pé tocar o chão peçonhento, uma mão me segurou pelos ombros. O segurança do local, pequeno para os padrões de quem trabalha no ramo, magro e com cara de que há pouco tempo era ele quem saía retirado do local pelo seu predescessor. Mal se notava o sujeito durante à noite. Como uniforme vestia uma toga preta e asas falsas de penas de mutum com corvo.</p>
<p>-       São reais? As penas?</p>
<p>Ele respondeu que sim e que a carne do corvo, especificamente, se transforma em um guizado muito bom. Era uma informação um pouco nojenta, mas dei o benefício do passaporte ao segurança travestido de porta bandeira. De onde ele veio o corvo pode ser uma iguaria ímpar. Olhei para dentro do recinto e em seguida para o marmanjo, como se dizendo, “E então? Posso?” e ele balançou a cabeça negativamente. Respirei fundo como um Zebu, então execrei e blasfemei contra aquela imbecil que claramente não sabia onde estava e nem quem a levara até o leito. Expliquei calmamente que precisava encontrar um rakematiz dourado.</p>
<p>-       E que mais? – o segurança insistiu.</p>
<p>Disse que precisava encontrar um rosto desconhecido, um ombro desnudo que terminava sua linha em finos dedos na borda de uma taça, um nariz diferente e um olhar por baixo dos cabelos.</p>
<p>-       Aaah – exclamou com onipresença. Rakematiz dourado no pulso? Seria isso?</p>
<p>Minhas sobrancelhas responderam com um sim beirando a aflição. Seguiu-se uma cara de desalento por parte do senhor fantasiado. E ele continuou.</p>
<p>-       Ainda está aí dentro, mas, infelizmente, sua noite terminou. Você já cumpriu com o que era determinado que fizesse.</p>
<p>Sentei-me com as costas no poste o qual já me servira de colchão e mais uma vez baixei a cabeça desconsolado.</p>
<p>-       Você tem ao menos alguma coisa para beber? – perguntei para a fantasia de anjo das trevas.</p>
<p>-       Da cerveja ao brennivín, mais barato que lá dentro.</p>
<p>O preço da casa era bem razoável, mas consegui abrir um sorriso com a informação. Fui de brennivín. Não é em todo lugar que se encontra essa jóia. Conforme as horas corriam os sobreviventes da babel saíam aliviados. E cada vez que a porta abria a conversa entre mim e o empenado era brindada com uma pausa. Mas nada do rakematiz reluzente.</p>
<p>Um dia de bebida foi consumido, até que a penúltima pessoa passou pelo portal, fazendo o caminho de volta do pós-mortis autoinduzido. O homem passou por nós com uma impressionante energia, fitou o rosto de cada um, fez um sinal de reverência e saiu sorrindo. E o segurança se dirigiu a mim.</p>
<p>-       Pode entrar agora.</p>
<p>Olhei surpreso para a figura e não pensei duas vezes para aceitar a permissão. Só havia uma pessoa ainda andando pelo espaço. Os animais do terrário se encontravam em seu lugar de origem, dormindo, aparentemente. A menina do rakematiz desfilava com passos lentos e largos, apoiando-se primeiro na ponta dos pés, como em um bailado. A taça ainda em mãos entrava em conflito com o andar linear e sem claudicâncias. Com um pouco da luz que exorcisava a atmosfera interna, os cabelos lisos formavam uma moldura que lembrava hora ouro envelhecido, hora um ipê amarelo em dia de sol. Não estava alheia ao que acontecia. Só estava sozinha. E ficava bem assim. Seus dedos longos levaram até a boca um último gole. O vidro e o líquido ajudavam a marcar ainda mais seu nariz, ligeiramente maior do que é considerado belo. Eu não conseguia tirar os olhos dele. Ao arrumar o cabelo com a mão ornada pelo tecido dourado seus olhos perceberam minha fascinação a deixando envergonhada. Aproximamo-nos devagar, tomei a taça vazia de sua mão bem devagar e joguei para trás do balcão. Não ouvimos nenhum grito, tampouco o som de vidro estilhaçando. Entrelaçando os dedos ficamos a distância de uma folha de papel vista de perfil. Ela respirou profundamente ao encostar o nariz em meu peito e acomodou a cabeça acompanhada de um sorriso que só pude sentir. Com as portas abertas o reduto não era mais que uma sala empoeirada e ainda assim não havia melhor lugar no mundo. Mais um dia se passou quando finalmente fomos interrompidos de nosso estado hipnótico. Era o aviso que precisávamos sair. Não era permitido contaminar o recôncavo. Atravessamos o corredor e não encontramos ninguém reminiscente do lado de fora. Fechamos a porta azul cadete empurrando cada um de um lado. Assim que a fechadura encontrou seu espaço a tranca correu por dentro automaticamente, e a calçada nos recebeu com sua selvageria urbana. Grudados, trocávamos carinhos estáticos, como impulsos subcutâneos, como olhares de pálpebras fechadas, falávamos confidências sem abrir a boca e ela também descobriu que sua noite havia terminado. Já sabíamos que nossos caminhos eram opostos. Choramos sorrindo, sem derrubar uma lágrima e cada um rumou para seu Norte, olhando para trás somente uma vez, mas por tanto tempo, tão longamente, que assim ficamos, estátuas e efígies, como flores mirando, cada qual seu Sol.</p>
<p><a href="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2010/08/jeff_peq.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-149" title="jeff_peq" src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2010/08/jeff_peq.jpg?w=380&#038;h=380" alt="" width="380" height="380" /></a></p>
<p><em><a href="http://rapidshare.com/files/241617678/Jeff_Buckley-Sketches_For_My_Sweetheart_The_Drunk-1998-PeerDen.rar" target="_blank">Jeff Buckley &#8211; Sketches for My Sweetheart the Drunk</a>. Álbum póstumo do filho de Tim, que combina peso e delicadeza como poucas vezes o rock pode presenciar.</em></p>
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		<pubDate>Wed, 04 Nov 2009 14:16:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Você…quer contar mais alguma coisa? – perguntou a policial já de saída. Não. – respondi quase sem voz e fechei a porta. Depois de mais de 30 anos, tenho que me acostumar a dormir no meio da cama de novo. E tudo que sobrou, umas poucas fotos – o flash despertava reações horríveis nele – [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=138&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Você…quer contar mais alguma coisa? – perguntou a policial já de saída.</p>
<p>Não. – respondi quase sem voz e fechei a porta.</p>
<p>Depois de mais de 30 anos, tenho que me acostumar a dormir no meio da cama de novo. E tudo que sobrou, umas poucas fotos – o flash despertava reações horríveis nele – e um caderno de anotações em que propositalmente só se salvaram da lareira as úlitmas páginas.</p>
<p>“Eu poderia dizer que te amo com mais frequência. Eu gostaria até, na verdade. Mas não consigo. Porque às vezes, eu só sinto indiferença por você. Eu olho com as pálpebras semicerradas, fico medindo cada centímetro da sua pele e dos panos caros, bidrapeados, guardados para uma data especial que cobrem sua silhueta, e eles não significam nada para mim. Não consigo nem me lembrar como um dia você chegou a ser importante dentro do meu contexto. E depois de pensar em tudo isso, eu durmo. E acordo cheio de saudades. E chego a escovar os dentes antes de voltar pra cama e te beijar na boca.</p>
<p>Uma inconstante mutação de humores e razões que só mesmo um louco clinicamente comprovado poderia acompanhar. Aqui estou sendo sincero. Saiba que te amo, e odeio saber que você não pode sentir isso da mesma maneira que eu sinto: sem esse turbilhão de sinais que me afastam de você para que eu posso amá-la ainda mais quando vem em meu auxílio. Desde sempre foi assim. Quando eu coloria os quadros que já estavam nas paredes da escola ou das casas em que tínhamos aniversários supostamente divertidos. Adorava as cores e os cheiros de comida de cada uma dessas cores, saboreava o visual de todas, como se fossem você. Tinha também aqueles dias em que eu me escondia e só uma pessoa conseguia me encontrar. Você dizia que eu estava sentado no meio da sarjeta, ou no pé de uma árvore, mas eu sabia que estava escondido; e sua aura e sua maquiagem borrada chegavam na forma de um abraço, bem antes da sua voz.</p>
<p>Eu gostava que tivesse alguém tão formosa e com um estrutura óssea tão bonita correndo atrás de mim, só não entendia porque era tão raro esse momento. E me irritava não entender. Já não entendia muita coisa, precisava de mais uma? Já não entendia você. Mas quanto a isso tudo bem, tem gente bem mais sã que eu me garantindo que mulheres não existem para ser compreendidas. E eu que não sou mulher? Não sendo compreendido, deveria ser uma? E se eu for? Por vezes eu acho que tenho formas mais femininas que os outros homens. Mas só às vezes, nas mãos. E nada como as suas, nenhum contorno é como o seu. Ele me estapeia na cara de duas maneiras, como um litro de sangue vertido ao lado do tubarão e como uma gota de sangue cuidadosamente colocada a um quilômetro do mesmo tubarão. Surge a necessidade de chegar perto do seu corte, raso ou profundo, de cutelo certeiro ou de faca cega, para então saber se vou só esparramar meu rosto em seu gosto de ferrugem ou se vou morder até arrancar pedaços da sua carne, carregando parte da sua alma comigo por toda eternidade.</p>
<p>Claro que eu planejei ser um gênio adormecido, mas vamos ser realistas, quais eram as probabilidades disso acontecer? Seria mais fácil eu levar o Serra Dourada inteiro na minha minivan com um carreto cheio de palhaços equilibristas de doninhas adestradoras de um circo de percevejos que sabem ler relógios digitais. Não é óbvio? E você ainda assim quis ficar do meu lado. Limitando seu campo de ações às minhas anomalias e desfalecimentos. Gostaria de ficar para ouvir da sua boca o porquê disso. Mas acho que não preciso…e que não me convenceria de que pouco acrescentei a suas ambições. E eu com toda minha cupidez, exigindo que me ajudasse com meus projetos patetas.</p>
<p>Não me procure marginália ao riacho, tenho a distinção de não me guardar em meio a nossas vestuárias ou nos dejetos de nossos vizinhos. Florestas parecem atraentes, mas lá não vou saber se as vozes vem do meu predador ou da minha cadeça. A mata nunca fica em silêncio e fica longe, muito longe. Longe demais para eu manter a lucidez, que pode permanecer perfeitamente impenetrável embaixo de uma boa camada de papelão.</p>
<p>Não quero que isso seja visto como um abandono, mas sua alforria. E se agora você chora, deveria gritar pela liberdade conquistada com meus cotovelos queimando ao rastejar no asfalto e meu pranto que brota quando bate os ventos dos descampados. Não faço nada como autopunição, mas como fuga do meu mundo interior. Dos cheiros, dos comandos, das ideias brilhantemente desconexas. É provável que esteja gastando aqui meu último lapso de sanidade e coerência, se algum dia nos encontrarmos novamente você poderá me responder se existe aqui algum sentido, e eu com olhos esbugalhados de dúvidas tentarei imbecilmente compreender.</p>
<p>Todo conteúdo pré-escrito neste caderno não tinha o mesmo teor do que você está lendo aqui. Por isso queimei. O que resta é a verdade. O que eu antes retratei com palavras não mereciam chegar ao estágio amarelado das páginas; eram mentiras que deveriam passar direto às cinzas. Eram muito lindos, os momentos, belos como alguma maravilha que você vê pela primeira vez. Relendo antes de decidir me exilar, quase desisti de tudo e por pouco que não me deixei convencer de que nossa vida era uma bela novela sem drama, sem reviravolta. Para mim provavelmente era. Para você, que lidava com minhas surpresas de roteiro, trabalhadas com esmero pelas partes incógnitas do cérebro, o drama virava suspense com a simples empunhadura de uma faca na hora do jantar. Ao que me lembro, pelo menos nunca descambamos para a introdução de um filme macabro. Mas, não creio que minhas memórias tenham tanto valor agora para qualquer pessoa que não esteja em uma sala com um divã, mordendo as peles ao redor dos dedos, refletindo sua incontrolável curiosidade mórbida metamorfizada em anos de estudo, mestrados e doutorados.</p>
<p>Não quero me enguiar mais. Só preciso saber que você não vai partir em uma busca descompensada e lamuriosa. Aqui, estou tirando a trava de minha demência. Tudo que controlei por anos – ou que tentei – vai atravessar minha mente como uma boiada brava no sertão, levantando fumaça densa e niquelada, desnudando cada ângulo desse estábulo que por anos teve suas sujeiras jogadas para baixo das ferraduras usadas e das crinas que não se tornaram cordas de violoncelos. Daqui poucos dias estarei irreconhecível, quiçá, vivo. Aqui eu te deixo, aqui eu me encontro. Daqui em diante, vou ouvir as canções entoadas pelas ruas e pelas estradas, por cegos em portas de igrejas, por realejos em quermesses sem maçãs-do-amor. Vou contemplar ternos alinhados e pés descalços, um se escaldando em agonia, outro nas brasas moles do piche. Vou viver a desgraça como o bêbado vive a bebida. Vou me alimentar de trevos de três folhas, deixando os de quatro para quem teve mais sorte que eu. Vou tomar da água dos deltas para não amaldiçoar as nascentes. E dormirei a favor do vento, para nunca mais sentir seu perfume.”</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-139" title="crystal_peq" src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2009/11/crystal_peq.jpg?w=380&#038;h=380" alt="crystal_peq" width="380" height="380" /></p>
<p><em><a href="http://www.mediafire.com/?uigzvcmzmym" target="_blank">Crystal Antlers – Tentacles.</a> Vozes, texturas e sentimentos que estavam desejosos e gritando para se libertar.</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/138/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/138/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/138/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=138&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">crystal_peq</media:title>
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	</item>
		<item>
		<title>OLHE PARA OS DOIS LADOS</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Jun 2009 21:29:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>unknown</dc:creator>
				<category><![CDATA[não interessa]]></category>
		<category><![CDATA[synthpop]]></category>
		<category><![CDATA[växjö]]></category>

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		<description><![CDATA[Precisa de muita coragem para pular quando você chega até o parapeito de uma cobertura. Ainda mais nessa porra de prédio. Só três andares. Ao invés de ver meus miolos espalhados por aí enquanto ascendo ao meu estágio mais elevado, corro o risco de ficar ouvindo os médicos falando do traumático estado vegetativo irreversível que [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=131&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Precisa de muita coragem para pular quando você chega até o parapeito de uma cobertura. Ainda mais nessa porra de prédio. Só três andares. Ao invés de ver meus miolos espalhados por aí enquanto ascendo ao meu estágio mais elevado, corro o risco de ficar ouvindo os médicos falando do traumático estado vegetativo irreversível que me encontro. Já tive uma amiga que tentou se matar com uma arma. Colocou o cano na própria boca e atirou. Ficou cega, sem cabelo, sem dois terços do maxilar e ainda assim não abotoou o corpete. Foram doze anos de coma induzido até que sua irmã conseguisse subornar direito o chefe do departamento de internações para que ele desligasse as máquinas: boquetes semanais por tempo indeterminado. O médico teria aceitado a oferta de quase um milhão dos pais, não tivesse visto a garota de shortinhos, aos quinze anos, se debruçando e chorando sobre a caçula ainda no local da tentativa de suicídio, isso na época que ainda era legista do Denarc.</p>
<p>Eu não tenho irmã para fazer boquetes. Só tenho um namorado que, por sinal, me chupa com a boca tão chocha que dá ainda mais vontade de soltar meu corpo à ação da gravidade. Filho da puta. Agora ele deve estar no banheiro daquele cortiço que ele chama de trabalho batendo uma punheta pensando em qualquer vadia que use um decote. Não é à toa que chega brocha em casa. Quem se acostumou à desculpa da dor de cabeça está fudida. Agora os caras falam de stress, abrem uma cerveja ou uma cartela de antidepressivos para relaxar antes que a gente consiga lembrar se o comprimido de casa é Neosaldina ou Melhoral.</p>
<p>-    Desce daí, menina. Pelomordedeus. Se você se arrebentar o edifício tem que pagar uma multa – gritou o zelador do prédio lá do térreo. É a terceira vez em duas semanas.</p>
<p>-    Vai se foder. – respondi com todo o ar do meu pulmão, imediatamente antes de sair de perto da beirada e retornar ao meu apartamento.</p>
<p>Nos dias de hoje não conseguimos nem subir no parapeito de um prédio em um dia de ventos fortes que alguém já enche o saco. Eu gosto de refletir em lugares diferentes, que me ofereçam um pouco de risco. Assim você pensa só no necessário, não fica perdida em devaneios. Mas deixando a objetividade de lado, é muito estranho que existam equipes especializadas em evitar o suicídio – especificamente aquele suicídio de filmes que o cara pula de uma janela em uma grande avenida comercial. Psicólogo especializado com megafone, equipes de segurança e resgate surgindo por detrás dos edifícios mais altos e espelhados da metrópole. Para que todos esses caralhos? Quando alguém vai se matar mergulhando de cabeça no asfalto, não dá tempo de chegar ninguém, a não ser que seja para recolher amostras que podem confirmar se o autocida estava chapado de mescalina. Se por ventura, alguém equipado com qualquer parafernalha chegou antes do salto, é sinal que o suicida em potencial está vacilando. Logo, qualquer coisa que o negociador fale diferente de “Pula que é fofinho” deveria surtir efeito intimidador. E até o imbecil do meu namorado sabe que ninguém incentiva o amargurado sujeito. Você já está em dúvida, não ouve nenhum reforço positivo e ainda assim se joga. Não ter certeza das coisas é um dramalhão do cacete.</p>
<p>Hoje faz cinco meses de ócio forçado. Uma data que precisa ser comemorada com um drink. Mês que vem é o último que posso contar com salário-desemprego. É uma merreca, mas é melhor que nada. Morando nessa pocilga ainda consigo salvar algum para trabalhar no meu projeto de fibradora. Encontrei esse curso de modelagem no vidro que é quase grátis. Somos em sete alunos e só temos que dividir o táxi do professor. A aula é em um galpão grande que já tem tudo. As resinas, as mantas prensadas, tecidos trançados, fitas, cordéis, luvas, fornos. Adoro a idéia de uma peça de alta resistência que não enferruja, ao contrário do meu carro. Veja bem, tenho profunda paixão pela minha Variant 73, mas um antixoidante não faria mal. De qualquer maneira, acho muito interessante uma profissão que algumas pessoas chamam de fibrador e outras de artista. Eu me classificaria como funcional. Já até fiz meu copo de dry martini, uma pena que nenhum lugar dá desconto para quem traz o acessório de casa. Talvez eu devesse abrir um bar que a cerveja fosse mais barata para quem trouxesse seu próprio copo, e ainda mais barata para aquele grupo que deslocasse sua mesinha de metal. Trouxe as batatas, porção de fritas com 80% de desconto. Penso sobre isso no banho e enquanto passo a toalha muito devagar para não machucar minha pele na hora de me enxugar. Telefono para umas dez pessoas chamando para uma saidinha básica no fim de tarde. Deixo um post-it com o nome de um drinkplace que meu namorado conhece e pode me encontrar, mesmo duvidando que ele vá. Passo pelo microondas, tiro a xícara com ketaminina para suínos que estava ali desde ontem de madrugada, cheiro uma carreira, guardo o resto em um plástico com lacre, coloco no bolso e saio sem nem me preocupar em trancar a porta.</p>
<p>As ruas estão começando a ficar caóticas novamente. Às 18h25 ninguém anda a mais de quinze quilômetros por hora, e esse número só começa a melhorar a partir das 21 horas. Quase três horas de angústia. Por isso minha Variant ficava mais na garagem do que em qualquer lugar. Será que é por isso que ela está enferrujando tanto? A garagem é bastante úmida. Depois de dois quarteirões caminhados, duas batidas: a primeira envolvendo um carro e uma moto, a segunda foi da PM em uma kombi, revista geral. Um bom dia para ser uma pedestre.</p>
<p>Cinco blocos para aquele lado de lá da minha casa e eu já estou sentada em minha mesa favorita, onde eu consigo ver todo movimento de pessoas, de carros, de motos, de animais de estimação em coleiras ou animais abandonados abanando o rabo por um caroço de azeitona. Pedi meu manhattan e cinco cigarros avulsos. Gosto de deixar o cigarro pra fora da caixinha, como se ele estivesse respirando, e além disso minhas calças são muito justas para não amassar o invólucro. Não importa o quanto tenha de lycra, no bolso da frente, tenho os ossos saltados, no bolso de trás, sou distraída o suficiente para sentar em três pacotes por dia.</p>
<p>As pessoas começam a chegar, o bar começa ficar com cara de bar. Os neóns se acendem. Daqui a pouco os primeiros copos começam a se quebrar e o aroma da fumaça exalada dentro dessas paredes começa a se misturar com o álcool vertido. A essência de fritura também se acentua a cada quarto de hora. O duto de ventilação funciona, mas ele já está com uma crosta melequenta, grudenta e cinza. Provavelmente nunca foi limpado em seus mais de vinte anos. Minhas amigas esboçam um sorriso que só eu conheço. Não preciso nem olhar para o lado de fora. Sei que meu irmão está entrando no local. Não achei que ele vinha.</p>
<p>-    Trocou a chatinha pela irmãzinha é? – perguntei enquanto ele estalava um beijo na minha testa.</p>
<p>-    Ela não é chatinha, querida irmã. E dividimos nosso circo entre tenda e picadeiro. Ela foi voar e eu fiquei, para me apresentar debaixo de chuva.</p>
<p>-    E para onde a ruivinha foi bater as asinhas?</p>
<p>-    Para a casa dos pais. As palavras que você proferiu a ela no último final de semana surtiram efeito. Aparentemente, ela achou que voltar para baixo das asas paternas seria mais vantajoso do que continuar dividindo a cama comigo.</p>
<p>-    Eu não tenho culpa que ela é uma mimada desocupada.</p>
<p>-    Desocupada? Achei que estávamos comemorando seu salário-desemprego, mas aparentemente devemos brindar a alguma promoção fantasia em um emprego imaginário. – disse sarcástico, com sorriso de canto de rosto, enquanto cumprimentava cada uma de minhas três amigas com um beijo suave na boca.</p>
<p>Eu simplesmente não conseguia me irritar com ele.</p>
<p>Pedi um canundinho para beber minha cerveja. A K começava a fazer seu trabalho e eu não queria uma roupa banhada em lúpulo.</p>
<p>-    Você devia parar com isso, sabia? – falou sério meu irmão enquanto o resto da mesa conversava.</p>
<p>-    O sóbrio está me dizendo o quê? – respondi, querendo entender o que as outras pessoas estavam falando para não continuar esse assunto.</p>
<p>-    Você nem salário vai ter daqui um mês. Com um entorpecente barato desses, provavelmente está gastando mais do que imagina.</p>
<p>-    E você vai me emprestar dinheiro para eu comprar algo suficientemente caro para o seu gosto?</p>
<p>-    Ora, estou limpo a muito tempo e não me importava com o valor do que ingeria, sabe disso do mesmo jeito que sabe que não posso te emprestar nada. Minha conta foi cancelada depois daquele leve incidente.</p>
<p>-    Leve? Você destruiu nossa família – lembrei-o segurando o choro.</p>
<p>-    Mamãe e papai estão em um lugar melhor.</p>
<p>-    E como você sabe? – desafiei.</p>
<p>-    Eu fui para o pior. E eles não estão lá.</p>
<p>Um princípio de vômito desce pelo canudinho e começa a boiar dentro do copo meio cheio. Me levanto na hora e vou ao banheiro. Nada mais é processado. Eu quero colocar tudo para fora: o álcool, o cigarro, o pastelzinho de carne seca, o salário desemprego, meus últimos seis anos. Quero alguém que conheça meus defeitos e queira ficar ao meu lado, mesmo com tantas novas qualidades, prontas para serem descobertas a cada esquina iluminada por uma luz fraca de um poste antigo. Eu quero meu namorado. Mas eu sei que ele não vem. Abro o plástico que estava em meu bolso com uma dentada e anestesio minhas lembranças.</p>
<p>Volto pálida e sorridente do banheiro. Eu não via mais meu irmão. Minhas amigas já tinham se acostumado comigo assim, mas ainda olhavam com preocupações claras no cenho e na inquietude das mãos. Sento entre elas e me imagino amada. Peço uma água com gás e começo a soluçar. Todas as lágrimas tinham evaporado com meus pensamentos. Só conseguia soluçar. E o fiz sem vergonha, sem me importar no que meus convidados pensariam. Podem até pensar que chorava compulsivamente por conta deles que não estariam totalmente errados. Soluçava, soçobrava, engolia ar até quase sufocar na esperança de trazer do âmago a pessoa que eu amava, e junto com ela os sentimento do nosso primeiro olhar.</p>
<p>Quando meus olhos marejados apontam para o outro lado da rua, ele está lá. Com flores na mão. Olhando para dentro do bar. Eu vou rápido na direção dele, com as pernas pesadas, dando passos errados, mas não consigo esperar. Assim que me vê, joga as flores para cima como se estivesse desesperado. As gardênias são provavelmente para sua amante. Me viro sem pensar, torcendo a coluna de decepção e dou de frente com um caminhão. Tão perto, tão rápido, deslocando a mesma quantidade de ar que uma brisa matinal em sua tentativa fracassada de derrubar as gotas de orvalho. Consigo quase ver os pistões dentro da carroceria. Minha pele amodorrada e meus ossos dormentes mal reagem ao impacto, minha língua deixa de perceber os dentes.</p>
<p>Eu não sou atormentada por nenhuma dor, isso é bom. Eu posso sentir apenas o que eu quero sentir. Meu namorado me abraça, eu vejo que as flores são para mim. Aquecida, mesmo estando gelada. Isso é bom. Muito bom.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-132" title="melody_club_peq" src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2009/06/melody_club_peq.jpg?w=380&#038;h=380" alt="melody_club_peq" width="380" height="380" /></p>
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<p><em>password: my melody</em></p>
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		<title>FESTA NA FLORESTA</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Jan 2009 18:03:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>unknown</dc:creator>
				<category><![CDATA[não interessa]]></category>
		<category><![CDATA[country rock]]></category>
		<category><![CDATA[londres]]></category>

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		<description><![CDATA[Não havia como não lembrar dos momentos da minha infância querida enquanto dirigia até a casa de meu avô. Fazia vinte e seis anos que não vinha para cá. E ainda assim consegui fazer o mapa para os convidados de cabeça. Foi tão fácil. As estradas bem pavimentadas ainda não chegaram por aqui, mas isso [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=110&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não havia como não lembrar dos momentos da minha infância querida enquanto dirigia até a casa de meu avô. Fazia vinte e seis anos que não vinha para cá. E ainda assim consegui fazer o mapa para os convidados de cabeça. Foi tão fácil. As estradas bem pavimentadas ainda não chegaram por aqui, mas isso era só o começo da diversão. Entrando na bifurcação à esquerda, na BR-452, um pouco antes de Araporã, como sempre foi, segue-se uns quinze quilômetros em estrada de terra batida. Da última vez aqui, só conseguia acompanhar as árvores que passavam pela janela do banco de trás do carro. A cada tronco a madeira se aproximava do cerrado, ficando sempre mais retorcida. O calor característico da região Centro-Oeste surgia, naquele espaço de terra, estranhamente abafado, tamanha a umidade. Isso não havia mudado em nada.</p>
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<p class="MsoNormal">Quase chegando no cabedal, eu lembrava, havia um pequeno estabelecimento de tijolos com o reboque mal acabado onde viviam Seu Zé e Dona Yolanda. Os rejuntes, mais de duas décadas depois, também não haviam mudado uma poeira de seu acabamento mambembe. Fiz questão de descer do carro para ver bem de perto. Parecia artisticamente cavocado, como um condomínio de barbeiros, insandecidos para transmitir Doença de Chagas aos seres humanos desavisados que insistiam em dormir à noite. Para o azar dos artrópodes, o único ser humano que vivia perto, além dos moradores do secos e molhados, era meu avô. Os primeiros, contam os causos, tinham gerado imunidade à enfermidade depois de fazer oferenda na encruzilhada da mata. Meu avô quando nos deixou não foi por conta da deficiência descoberta pelo doutor Carlos. De qualquer maneira, com barbeiro ou sem, era aqui o lugar mais próximo para comprar qualquer coisa que faltasse no festejo.</p>
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<p class="MsoNormal">A porteira do terreno continuava a mesma, só as dobradiças que estavam podres. A madeira escura adquirira um tom esverdeado de musgo. As poucas partes de madeira nova pareciam raspadas por algo bem afiado. A placa com o letreiro havia desaparecido, mas estava no meu mapa. Aquele caminho escancarado por ervas-daninhas e folhas combinava bem com a floresta um pouco mais fechado da área. Dava a impressão que ninguém morava naquele local. E realmente, ninguém morava ali. Tanto que a primeira medida que tomei depois de deixar a mala em casa foi procurar uma caixa de ferramentas para consertar as dobradiças e logo em seguida fiz uma plaquinha. Quem ou o que quer que passe pela entrada deve ter certeza que alguém está aqui de novo. Mesmo que só por um ensejo. Mesmo que sem os olhos cor de mel de meu avô. Ainda que prevalecesse a ausência dos maneirismos do campo.</p>
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<p class="MsoNormal">Porteira em seu devido lugar, placa firmada para guiar os hóspedes, agora era só esperar. Tenho tempo suficiente para andar pelo pomar, nadar no rio e lembrar como as coisas funcionavam por aqui. Nessa época do ano as ameixas e as pêras devem estar ótimas. As amoras um pouco passadas e já castigadas pela quentura que fazia suar uma pedra. De qualquer maneira, essas visitas podem ser feitas amanhã pela manhã e à tarde. Com a noite chegando eu lembro só de uma coisa: de que os adultos nunca deixavam a gente ficar para fora depois que escurecesse. Claro que isso tinha um motivo. Só o vovô ficava para fora, na varanda de madeira rangente. Ele, essa mesma cadeira de balanço, que parece ter se encaixado muito bem nas minhas costas, sua carabina e seu cigarro de palha. E a noite sussurrava tranqüila. Quando acordávamos, levávamos alguns minutos para abrir todos os cadeados e trancas da porta. Depois, era sair na varanda e esperar alguns trinados de juriti que o avoengo já despontava com uma caça recentemente abatida para o almoço. Por vezes ele aparecia um pouco machucado, mas nesses casos ele sempre falava “Pelo menos eu não fiquei no estado dessa aqui”, e levantava a preia com um dos braços cheio de velhas cicatrizes e novos cortes de onde ainda escorria sangue quente.</p>
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<p class="MsoNormal">Boas memórias para um lugar sem eletricidade. Vou entrar para não acabar com todo o gás do lampião. Amanhã compro mais, as pessoas vão precisar para a festa. Boa noite.</p>
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<p class="MsoNormal"><span> </span><span> </span>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-X&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<p class="MsoNormal">As madrugadas aqui não costumavam ser tão quietas. As casas mais próximas ficavam bem distantes, mas o terreno era rodeado por grandes propriedades que criavam os mais variados cortes de quatro patas. Bois, ovelhas, cabritos, porcos e tinha até um doidivanas que cercou parte do rio para começar uma criação de jacarés. Talvez por ter uma audição melhor quando era criança, costumava ouvir mugidos, balidos e grunhidos diversos. Até a população de corujas parece ter reduzido. Meu avô sempre disse que havia cachorros do mato pelas redondezas. Mas precisaria de uma superpopulação deles para acabar com tudo que existia nas cercanias. E mais, uma matilha esfomeada dificilmente passaria desapercebida. Não creio que meus convidados reclamem de um pouco de silêncio, mas voltando à cidade vou atrás de uma audiometria.</p>
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<p class="MsoNormal">O pomar se encontrava quase como imaginei. Com alguns frutos, mas fraco. Calculando que há duas décadas ninguém cuida dele, o número de ervas daninhas por metro quadrado é até bem reduzido. A foice me ajudou a compor o cenário de “quadro sobre a seca nordestina com tons de verde” e a eliminar as plantas que estavam prejudicando uma safra boa de vegetais que podem alimentar alguns morcegos daqui umas semanas. Alguns poucos insetos sempre chegavam mais perto, piniquentos e curiosos, mas não percebi o menor sinal de um animal um pouco maior. Sempre que imaginava ter visto um gambá ou um cervo eu me virava bem astuto, mas só via alguma coisa que parecia um vulto. Agradecia por não ser noite e continuava com a capinagem. Depois de umas quatro vezes com a mesma sensação, achei que já tinha abusado do meu instinto urbano e resolvi retornar para a casa antes que surpresa pior se sucedesse. No meio do caminho enchi um saco de batatas com gravetos e pensei que nunca tinha acendido um forno a lenha na vida, mas que não poderia ser muito complicado.</p>
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<p class="MsoNormal">Para tornar a tarefa mais fácil, resolvi não limpar a velha carabina e caçar um animal aparentemente inexistente hoje em dia nas vizinhanças, mas sim ir até o casebre com tijolos capemingas descobrir se existe um jeito de comprar uma carne ou se hoje viveria de pinga para comemorar o retorno ao pé no chão e ao banho de rio sem xampu. Depois de uns quarenta minutos andando pela estradinha, conseguindo desviar de todos os formigueiros escondidos embaixo de folhas e das maiores aranhas, cheguei ao lugar. Ele abria da hora que o Seu Zé acordasse até a hora que a sede chegasse à garganta do caboclo. Pelo pigarro que ele desprendeu logo quando entrei já percebi que teria pouco tempo. Mais de vinte anos tinham se passado. Ele estava mais velho e menos paciente. Apresentei-me, pedi um frango e Seu Zé gritou “Mulher, uma bicuda pru neto do Lino. Tira as pena e deixa as parte já cortada qui o minino é da cidade”. Achei que tinha me dado muito bem contra o matagal e no conserto da porteira, mas não fiz objeção alguma a um mínimo de comodidade. Depois de esbravejar contra a marida, Seu Zé me empurrou para a área de trás onde ficava o abate e Dona Yolanda, avisando que estava na hora de baixar as portas. A garrafa etílica seria aberta daqui a pouco no Seu Chico, vizinho de Seu Janino. O Sol começava a baixar, Dona Yolanda mandou me apressar enquanto conjurava o último terço do dia. Cheguei em casa com os vaga-lumes começando a aparecer no ponto que o verde da floresta já está negro. O forno a lenha, depois de um quarto de hora, estava com o que pode ser considerado o fogo baixo dos fogões modernos de acendimento automático. Em pouco tempo o frango de panela, o arroz e as batatas estavam prontos.</p>
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<p class="MsoNormal">É bom acabar de comer e não ter que ouvir a voz de um âncora de jornal proferindo uma notícia fria. Aliás, não estar ouvindo nada me incentiva a fazer uma coisa: ficar na cadeira de balanço à noite. Posso até pegar a carabina. Só para dar um clima. O cigarro de palha já está torcido. Durante a noite parece que a cadeira fica ainda mais confortável, provavelmente devido aos rangidos que embalam as árvores sem vento, como se estivessem na tela da televisão só que formada pelo parapeito, vigas e teto da varanda. Um momento emoldurado do silêncio, estampado em um canson tamanho <em>Ainfinito </em>de gramatura realidade. Talvez prestando muita atenção eu consiga ouvir algo. Opa, um pio. Silêncio. Outro pio e um corte seco deixando o canto um pouco estranho demais para qualquer ave. Um filhotinho de coruja-do-mato que na ausência da mãe tentou voar e se deu mal, provavelmente. Mas apertando bem os olhos por entre a fumaça exalada acho que consigo ouvir porque o cantador noturno se deu mal. Vim o suficiente aqui na minha infância para saber que esse não é o barulho de um pequeno galho podre caindo. Superstição é uma tolice. Superstição não existe. O que eu vejo é bem real. E grande demais para eu ficar do lado de fora sem trabuco armado. Espero que dê tempo de passar todos os cadeados.</p>
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<p class="MsoNormal">Deu.</p>
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<p class="MsoNormal"><span> </span><span> </span>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;X&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<p class="MsoNormal">Essa última noite não foi tão silenciosa. Talvez por pura força da imaginação, fruto da curiosidade mórbida, ouvi passos, ruídos, ululados, a voz de meus pais e os gritos dos meus tios, arrependidos por não terem colocado a casa abaixo quando tiveram a chance. Chequei a porta por uma dezena de vezes para ter certeza de que ela estava bem trancafiada. Não consegui dormir pensando na última vez que meu avô teve pescaria. Tinha marcado saída para quando aparecesse a terceira estrela. Demorava a noite toda de barco até chegar ao Rio Meia Ponte. Era noite de lua azul e apesar do atraso na saída, não quis fazer guarda de sua cadeira, mira em punho. Coincidentemente foi o dia em que ficamos um pouco mais para fora – contra ordens, claro – olhando para o céu, e na pressa de voltar para dentro, foi também a última vez que uma das travas não foi bem fechada. Da família, sobramos o primo Fábio e eu. vovô Lino nunca foi achado. Nós, os netos, sempre soubemos que vô Lino vigiava seu território contra alguma coisa, a gente só não sabia o que. Acreditamos também que sua pescaria de vários dias pressupunha nossa segurança. Demoramos quarenta e oito horas para ter coragem de sair da casa. Eu fiquei quase todo o tempo de olhos fechados. Na única vez que falamos sobre o assunto, Fábio me disse que a gente foi arrancado da vivenda pelo cheiro fétido de decomposição, pelo gosto de ferro na boca, não por um rompante de coragem. Tomou-nos mais um dia até conseguir uma carona até Belo Horizonte. Eu tinha quatro anos, meus primo, nove. Não fomos muito bem recebidos na cidade. Depois de uma semana a polícia apareceu na casa de meu avô, encontrou os corpos e levou um amigo da família, o Joel, para fazer reconhecimento. Ele deu por nossa falta. Fomos encontrados na rua e acabamos criados por ele e pela Aninha. Eu nunca consegui chamá-los de pais, apesar de considerá-los como tais, mas isso não impediu que eles fizessem um escândalo anteontem quando eu disse que vinha para cá pensando em organizar um folguedo.</p>
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<p class="MsoNormal">Acho pouco provável, mas se tivessem me visto essa manhã consertando o telhado da casa, talvez a imagem das paredes tingidas de carmesim que eles têm daqui desapareceria, ficando apenas uma janela para quadros dos bons momentos. Do alto do telhado eu podia ver melhor a divisão do terreno. Para trás da casa ficava o caminho que levava até o rio. Ele era bem definido, o pomar acompanhava essa trilha e tinha as demarcações das árvores bem precisas: maçãs, pêras, ameixas, amoras, jacas, pitangas e mangas. Depois disso, vindo desde o outro lado da margem, cercando o pomar, chegando até a parte da frente da casa e seguindo até perder de vista, uma flora rica, nativa e bem fechada, daquelas que você não consegue ver um palmo adiante, nem em noite de lua alta, quiçá nem com sol a pino. Ainda assim, noite passada eu sabia que tinha alguma coisa lá. Estava impossível de ver, da mesma maneira que era impossível não ouvir o zumbido irritante e intermitente dos insetos se silenciando. Os agudos mais distantes se distanciavam primeiro e voltavam aos ouvidos assim que os agudos mais próximos se calavam, incessantemente, metro a metro, como se algo nunca visto antes chegasse aos portais de uma pequena cidade do interior e todos ficassem estupefatos, de queixo desmantelado enquanto uma deformidade desfilava de ponta a ponta da avenida principal. Aqueles que colocaram reparo na bizarrice primeiro se recuperavam enquanto quem esperou no fim da avenida ainda estava para ficar atônito. Em uma mata tão densa é possível que o silêncio adquira uma forma física. E ele não poderia ser diferente, do que eu ouvi. Um silêncio eterno e galopante. Aterrador e fascinante. Não acho que meus hóspedes vão gostar dessa sensação, por isso deixo tudo preparado, tentando compensar o incômodo com extrema comodidade.</p>
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<p class="MsoNormal">Por mais moldado que eu esteja na cadeira de balanço, não quero ressonar. Carabina com dois projéteis em punhos. Cigarro apagado. Não posso dispersar e olhar para o fósforo. A floresta já está naturalmente quieta. Ele está chegando. Os poucos coaxados que resistem são interrompidos no meio com uma agonia que, mesmo sem ver o batráquio, é possível senti-la por um som de dor que atravessa a pele e segue até o começo do estômago. Ainda bem que comi pouco. Quero ligar para o meu primo, mesmo sendo idiota distrair-me com uma ligação. Tenho que perceber onde as cigarras interrompem seu estrilado primeiro, onde os gafanhotos desziziam, preciso saber por onde está vindo o que eu vou enfrentar. Qualquer orientação para que pelo menos um dos dois tiros aleije o alvo. Na cidade nossos instintos vão se perdendo dentro de janelas com isolamento acústico. Uma sensação de vazio pós-estimulante, de estar entregue nas mãos de algo que não se sabe o fim. Até a garganta está fechando. Lá vem, à esquerda.</p>
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<p class="MsoNormal">A silhueta estrambótica torna impraticável distinguir o que está saindo do vagalhão verde. Mas é mais escuro que a última árvore visível da floresta. Como se toda a mata fosse um caixilho de marfim para um quadro da demonstração do terror. As únicas coisas que brilhavam eram seus dentes e a pouca luz da lua, refletindo em sua saliva. Não havia pressa em seu semblante, mas não deixava de existir velocidade desproporcional a qualquer coisa que eu ouvi falar. Suas patas eram do tamanho de frigideiras e na boca caberia facilmente uma criança de três anos em pé. As pernas, muito machucadas e cheias de cicatrizes provam que nem todos respeitaram seu porte e força, mas que ninguém ainda conseguiu justificar essa desfeita. Para mim, só me resta puxar o gatilho. Erro o primeiro tiro por muito. Conforme a monstruosidade vai chegando perto, armo o martelo para disparar o segundo tiro. Miro bem no meio de seus olhos cor de mel, mas é impossível fazê-lo. Eu não posso atirar em quem está voltando depois de tão longa pescaria, nem que seja para minha cabeça ser estraçalhada com uma única mordida. Meus convidados devem chegar a qualquer minuto. Um tiro para o alto, que comece a festa. Ela tem tudo para ser memorável.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><img class="alignnone size-full wp-image-111" title="alberta_peq" src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2009/01/alberta_peq.jpg?w=380&#038;h=380" alt="alberta_peq" width="380" height="380" /></p>
<p class="MsoNormal"><a title="alberta_cross" href="http://www.mediafire.com/?zxz1ma1q5zf" target="_blank"><br />
</a></p>
<p class="MsoNormal"><em><a title="alberta_cross" href="http://www.mediafire.com/?zxz1ma1q5zf" target="_blank">Alberta Cross &#8211; The Thief &amp; The Heartbreaker.</a> O clima rural para que você consiga aproveitar sua chácara, sítio ou fazenda sem deixar as rimas fáceis do sertanejo invadir sua tranqüilidade.</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/110/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/110/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/110/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/110/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/110/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/110/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/110/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/110/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/110/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/110/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/110/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/110/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/110/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/110/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=110&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A TECNOLOGIA DO ATRASO</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Oct 2008 21:34:29 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[colônia]]></category>
		<category><![CDATA[kraut rock]]></category>

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		<description><![CDATA[Como os poucos leitores do blog podem perceber, ando meio defasado. A falta de tempo e a pouca vontade de ficar a frente do computador no aconchego do lar contribuem imensamente para isso. Mas o principal é que um dos contos está exigindo um tipo de narrativa que é, até o momento, intransponível. Para remediar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=59&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Como os poucos leitores do blog podem perceber, ando meio defasado. A falta de tempo e a pouca vontade de ficar a frente do computador no aconchego do lar contribuem imensamente para isso. Mas o principal é que um dos contos está exigindo um tipo de narrativa que é, até o momento, intransponível. Para remediar esse vazio no calendário, vou abusar do meu limitado conhecimento tecnológico.</p>
<p>A partir de agora o blog vai contar com RSS, uma maravilha de widget que não revela minha inabilidade de acabar um texto. Assim que algo for postado, você já fica sabendo, sem precisar entrar a cada semana para descobrir que ainda não tem nada novo.</p>
<p>Outras novidade que vão adentrar este espaço virtual é a tag cloud e possivelmente um link para quem quiser ouvir os álbuns relacionados (sem esquecer é claro de deletá-los em 24 horas).</p>
<p><a href="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/10/can_peq.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-60" title="can_peq" src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/10/can_peq.jpg?w=380&#038;h=376" alt="" width="380" height="376" /></a></p>
<p><em><a title="future days" href="http://rapidshare.com/files/91094235/CAN_-_1973_-_Future_Days.rar" target="_blank">Can &#8211; Future Days.</a> Para aproveitar este momento de pasmoso avanço tecnológico e integração, nada melhor que uma banda globalizada e que em 1973 já antecipava Kid A.</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/59/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=59&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>SEPARADOS FINALMENTE</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Apr 2008 00:51:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>unknown</dc:creator>
				<category><![CDATA[não interessa]]></category>
		<category><![CDATA[gotemburgo]]></category>
		<category><![CDATA[indie]]></category>

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		<description><![CDATA[Diásporas são temas estudados com freqüência por brilhantes e limitados estudantes desde o Ensino Fundamental. A despeito das circunstâncias com que cada uma foi provocada, suas conseqüências mercadológicas e antropológicas são inegáveis. A globalização espelhou-se nas galeras fenícias, mas a internet tem suas bases nas diásporas. Com a extensão da cultura típica de uma região [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=54&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal">Diásporas são temas estudados com freqüência por brilhantes e limitados estudantes desde o Ensino Fundamental. A despeito das circunstâncias com que cada uma foi provocada, suas conseqüências mercadológicas e antropológicas são inegáveis. A globalização espelhou-se nas galeras fenícias, mas a internet tem suas bases nas diásporas. Com a extensão da cultura típica de uma região se alastrando por paisagens diferenciadas, a conclusão natural é que as diásporas e o mercado naval foram os precursores diretos do mundo virtual.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Mas se conseguimos enxergar um ponto positivo em um momento invariavelmente delicado para a história de qualquer povo, não podemos, por outro lado, limitar à condição humana o privilégio de se reerguer de um momento de dificuldade, ou a tragédia de afundar mais, quando ninguém imagina que isso seja ainda possível. Pacas e andorinhas também fazem sua diáspora, independentemente dos conceitos bípedes de nação. Convença uma paca que aquele pedaço da várzea sem alimento é o dela e por isso ela deve sofrer de inanição ao invés de nadar até o outro lado do estreito rio, que farão um filme com você, e será bem melhor que o Dr. Doolittle da Pesada Muito Louco em Londres 3.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">A despeito da espécie, podemos considerar que a definição de nação depende do sujeito em questão. Abelhas, por exemplo, têm em sua colméia uma nação bem definida. As formigas, o outro exemplo óbvio de colônia, vivem em constantes batalhas com o reino dos anelídeos, das toupeiras e são freqüentemente invadidas pelas infantarias do tamanduá. Ou seja, se a divisão de castas sugere um controle social completo e imperialista nos melhores moldes humanos, o mesmo não acontece com a certeza sobre a extensão de seu domínio, em constante alteração.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Com esta rasa apresentação desse amplo conceito e suas ainda mais amplas possibilidades, estamos aptos a conhecer Olga. Olga sempre odiou seu nome. Ainda hoje acha que é um bom nome para sua avó. Ela odeia também o fato de que está sempre mudando de escola, bairro, cidade, país ou hemisfério antes que seus quase-amigos se acostumem com seu nome saído direto de um antiquário. O pai de Olga tem vários nomes. É possível que um deles seja o verdadeiro, mas, por ele ser o falsificador de cheques mais procurado em pelo menos quarenta e sete países, o normal é que a própria Olga fique em dúvida qual usar.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Acra, Amsterdã, Basiléia, Brasília, Campina Grande, Dacar, Dublim, Estocolmo, Havana, Jacarta, Juneau, Kiev, Londres, Lucerna, Manágua, Manila, Montevidéu, Moscou, Nicósia, Omsk, Phoenix, Riade, Roma, São Paulo, Tashkent, Tbilissi, Teresina, Tóquio e Zagreb são, em ordem alfabética, as cidades onde Olga já morou. Amanhã ela vai completar dezessete anos e o único lugar que seu nome passou despercebido foi em Estocolmo, onde é um nome até comum, e em Londres, onde esse tipo de estranheza é ignorado devido a outras coisas estranhas como a Lilly Allen ou qualquer capa de tablóide gratuito.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Hoje, Olga mora em São Paulo faz oito meses. A esta hora da noite ela deveria estar estudando, mas está pensando que adoraria cursar arqueologia, embora ainda não seja possível saber em que país deve escolher a faculdade. Só torce para que não seja em Burkina Fasso. Olga ouviu dizer que o francês burquinense é compreensível apenas com conhecimento das gírias do dialeto tribal da região. Telefone.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&quot;">-<span style="font-family:&quot;"> </span></span><!--[endif]-->Alô?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não, não tem ninguém com esse nome.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não, meu pai não está.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não sei se ele volta hoje.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Não esqueço de avisar, não.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Mas, qual o seu nome?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Ah, só dizer que é um amigo?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Sei.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Tudo bem, então.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:18pt;text-indent:17.4pt;">Tchau, tchau.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Acabamos de ter o privilégio de acompanhar o roteiro básico dos telefones à casa de Olga. Esta seqüência, claro, pode ter pequenas variações, para baixo (quando é engano) ou para cima (um inspetor mais insistente). Olga sabia que era alguém da polícia, e isso bastava para que ela usasse de respostas curtas e vagas, e para que seu pai ficasse tranqüilo. Ela imaginava, de qualquer forma, que a equipe de treinamento da polícia era formada por uma corja de apedeutas. Que espécie de amigo não perguntaria por ela? De qualquer modo ela sabia que seu pai nunca tivera um amigo. Olga não queria ficar como seu pai. Não queria desconfiar de todos, de toda rua, de todo prato de comida, de todo convite para uma noite divertida. Sabia que a desconfiança só confiava na solidão. Sabia também que queria ser arqueóloga, bioarqueóloga, para ser mais exata.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Olga convivia no período letivo com muitas adolescentes da mesma idade. Os desejos profissionais mais comuns atualmente eram publicidade, jornalismo, administração e especificamente em seu colégio, fonoaudiologia. Olga, como toda adolescente solitária, tinha uma bela coleção de teorias sobre tudo a sua volta. A explicação para o porquê de arqueologia era que sua rotina cigana a fizera muito apegada a suas origens, suas reais raízes, logo, com sua terra. Obviamente se isso fizer algum sentido, Olga deve cursar psicologia ou matemática analítica, não arqueologia.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">O que a idade psicologicamente conflitante de Olga não permite que ela perceba é como as pessoas com quem ela convive a acham interessante. Consideram-se mesmo incapacitadas de ter um assunto que seja coerente com a cultura de Olga. Sempre que ela se muda é a mesma estória. Fica aquela sensação de morte de melhor amiga nas meninas, de grande amor perdido nos meninos, de intercâmbio da filha perfeita nos adultos – e de solidão em Olga. Seu celular sempre tem os mesmos números na agenda: o da ambulância, dos melhores médicos, de uns quatro advogados, de seguranças, bordéis de média qualidade e do IML, caso precise do pai para uma situação emergencial. Nos picos de sua agonia, Olga chegou até a considerar uma ligação para a operadora de seu telefone para conversar com o telemarketing. Inventaria um problema na tecla de cancelar chamadas e pronto, tinha uma desculpa para ligar e ela ainda servia para que o papo se alongasse. Por respeito próprio ela preferiu não fazer isso.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Os dias de Olga passavam lentamente. Entre uma refeição e outra havia pouco mais que uma leitura, um passeio até a praça próxima e uma descansada na sarjeta. Raramente checava e-mails (eram sempre spams mesmo) e navegar na internet , ao contrário do que dizem por aí, não a fazia mais social. Às noites Olga pensava que o normal seria sair e se divertir ou ficar em casa relaxando. Sair sozinha pelas ruas era considerado perigoso até pelo seu pai. Sair com os seguranças presos em seus calcanhares era como não sair. Ficar em casa tornava-se, assim, noite após noite, a opção depressivamente mais recomendada.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">É muito claro para todas as pessoas que Olga está muito bem de vida. Infelizmente, para Olga só é claro que suas coisas maravilhosas e sofisticadas são oriundas unicamente dos embustes paternos, e que no primeiro vacilo dele tudo se esvairá. De maneira alguma Olga colocar-se-ia entre o pai e os negócios que os jornais fingem que entendem a cada notícia de tentativa frustrada de prisão. Toda essa compreensão não contribui em nada para que Olga queira seguir uma carreira familiar, muito pelo contrário.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Para aqueles que não conseguem enxergar Olga como uma menina tímida, com vergonha do próprio nome, ela é mais uma riquinha, mimada e que quando as férias de verão chegarem, ela vai voltar contando vantagem sobre como os castelos escoceses são bucolicamente belos ou como a Disneyland é muito mais legal que o Disney World. Crianças podem ser verdadeiramente cruéis, mas adolescentes são verdadeiramente mentirosos e, acima de tudo, não se conhecem tão bem para saber que ficariam imensamente tristes sem a presença de Olga, caso ela sumisse sem aviso prévio, como sempre fora orientada a fazer.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Essa tarde Olga chegou de seu passeio, entrou no quarto e só viu o seguinte bilhete em seu travesseiro:</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">SE EU NÃO CHEGAR ATÉ ÀS 20H30 PEGUE SEU CASACO E ME ENCONTRE LÁ.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Embaixo do bilhete havia uma passagem para Abidjan, capital marfinense, agendada para às 23h50. Tempo mais que suficiente para o check-in e um pão de queijo de despedida de mais uma casa. Talvez por isso Olga não conseguisse estudar, e sim só pensar em arqueologia. Olga sabia que em momentos de urgência, ordens transmitidas por escrito e sem direito a contra-argumentação deviam ser seguidas a qualquer custo. Casaco na mão. Olga só esperava a hora certa para assegurar-se que nada sairia errado. 20h27. Telefone.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&quot;">-<span style="font-family:&quot;"> </span></span><!--[endif]-->Alô – gritou Olga.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&quot;">-<span style="font-family:&quot;"> </span></span><!--[endif]-->Não, não tem nin&#8230;quer dizer, sim&#8230;sou eu.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Nunca alguém ligara para ela antes. Ela ficou paralisada de alegria. 20h28.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&quot;">-<span style="font-family:&quot;"> </span></span><!--[endif]-->Se eu quero sair? Mas é que eu estou de saída – respondeu tímida.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&quot;">-<span style="font-family:&quot;"> </span></span><!--[endif]-->Cinema com o pessoal amanhã?</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&quot;">-<span style="font-family:&quot;"> </span></span><!--[endif]-->Acho que tudo bem.</p>
<p class="MsoNormal" style="margin-left:36pt;text-indent:-18pt;"><!--[if !supportLists]--><span style="font-family:&quot;">-<span style="font-family:&quot;"> </span></span><!--[endif]-->E onde é o bar de hoje, mesmo?</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">20h29.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Olga deixou o casaco em cima da cama e saiu pela porta dos fundos. Foi passeando, à noite, sozinha pelas ruas. A cada passo ela lembrava de canções de sua infância. Uma rima de Gana e outra entoada irlandesa eram suas favoritas. Olga tinha decorado as principais conexões dos aeroportos de Frankfurt, Hong Kong e Atlanta desde os doze anos de idade, mas não sabia o preço de uma garrafa de cerveja e de uma porção de batatas fritas em um botequim. Ela não queria saber mais de rotas aéreas do que dos túneis da cidade. Pensando bem, Olga nem gostava de arqueologia. Também não gostava de publicidade, jornalismo, administração e fonoaudiologia. Mas gostava de acordar no mesmo lugar no dia seguinte.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Essa tarde seria a última vez que Olga veria seu pai. Ela sabia disso. Era bom estar de volta para um lugar o qual ela só conheceu nos sonhos. Um lugar que ela pudesse chamar de seu. Não tinha como procurar por seu pai. Por qual nome procuraria? Em que lista ele se arriscaria a colocar sua identidade? Mas só para garantir que ele não a achasse, Olga resolveu deixar seu telefone em uma lata de lixo. Era uma lata bem suja, e Olga colocou seu aparelho bem no fundo enquanto uma lágrima escorria devagar, molhando só um pouco suas maçãs. Seus olhos, ao invés de inchados e cerrados, ficavam ainda mais brilhantes.</p>
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<p class="MsoNormal"><a href="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/04/fibes_peq.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-55" src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/04/fibes_peq.jpg?w=380" alt="" /></a></p>
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<p class="MsoNormal"><em><span><a href="http://rapidshare.com/files/255859528/FOF_SF.zip.html" target="_blank">Fibes, Oh, Fibes! – Still Fresh.</a> </span>Um ama salsa, outro considera o Arizona importantíssimo para sua formação cultural e as ruas mereciam mais bancos para você fumar um cigarro tranqüilo enquanto ouve.</em></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/54/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/54/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=54&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>MACHIFESTO</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Mar 2008 17:16:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>unknown</dc:creator>
				<category><![CDATA[não interessa]]></category>
		<category><![CDATA[chicago]]></category>
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		<description><![CDATA[Em um futuro não muito distante, em um grande ginásio de uma grande universidade, o Partido dos Limitados – que tivera seu nome definido pelo congresso – apresentava seu devastador discurso, que, segundo seus líderes, revolucionaria as bases epistemológicas sociais e antropológicas impostas na época. O local estava repleto de homens barbados. Barbas bem feitas, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=52&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Em um futuro não muito distante, em um grande ginásio de uma grande universidade, o Partido dos Limitados – que tivera seu nome definido pelo congresso – apresentava seu devastador discurso, que, segundo seus líderes, revolucionaria as bases epistemológicas sociais e antropológicas impostas na época. O local estava repleto de homens barbados. Barbas bem feitas, aparadas, sedosas e brilhosas como uma crina, nada daquelas barbas dos cossacos. Eles eram os descendentes dos glutões do século XX, que morreram gordos em uma época em que o colesterol ainda era uma preocupação e a água do mar não era filtrada. Estavam todos eles segurando seus copos de cerveja e ouviam atentamente a promessa de um mundo mais justo, livre da perseguição sexofóbica das mulheres.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">“Amigos,</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Ainda hoje, em pleno século XXVI é inaceitável que existam membros do sexo feminino, considerando que nós, homens, não conseguimos fazer as coisas tão bem quanto elas. Claramente apoiadas pela maioria feminina no congresso e senado, as representantes do sexo forte continuam a explorar os homens desde sua mais maviosa idade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">É injusto e assustador que há mais de dois séculos sejamos tratados com descaso e repúdio pelas classes maquiadas, que têm acesso liberado ao backstage das fábricas de sutiã. Por exemplo, as universidades infantis são um privilégio feminino. Por que o garoto, brilhante como a mais iluminada das meninas, é obrigado a freqüentar o grupo escolar destinado ao seu número de registro de nascença? Mesmo que isso signifique viajar mais de duzentos quilômetros diários em variados transportes públicos, só para obter uma educação básica e beldroega.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">A história nos mostra que esta repressão ocorre desde o século XXII. Antes disso, o mundo era capitaneado, em sua maioria, por homens. Em um ato de benevolência e clara demonstração de superior capacidade de convívio social entre iguais, nós, homens, permitimos que as mulheres (que já tinham suas honrosas tarefas domésticas e maternais) fizessem parte do nosso ambiente de trabalho, dos círculos sociais que nos orgulhávamos, de nossas vidas íntimas. E então, elas nos aplicaram um golpe de grande-mestre enxadrista. Enquanto países em desenvolvimento mexiam em pecinhas de construção civil e AKs-47 as mulheres em desenvolvimento moviam pessoas e contextos ao seu favor. Aparentemente, além do avanço biológico privilegiado, as mulheres também evoluíram em outros aspectos como, egosociais, antropofágicos, esportivos e bélicos. Todavia, companheiros, tal progresso só seria possível caso as fêmeas antigas conseguissem dominar as dimensões relativas da física e seus portais espaço-tempo. Portanto, em vista da seriedade desta possibilidade, é correto afirmar que nossas opositoras políticas vivem, ainda nos dias de hoje, agora, conosco e ao mesmo tempo no futuro, onde provavelmente o mundo segue seu caminho natural, liderado por homens. Porém, aqui, em nosso tempo, somos subjugados, e quando chegarmos ao futuro, continuaremos dominados e o presente da outra dimensão, como ele deveria ter acontecido, terá se alterado. Às favas com o paradoxo temporal.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Assim, o lorpo destino da nossa sociedade atual recai ao momento em que permitimos a entrada delas para um novo mundo, cruel, do qual as estávamos preservando. Neste ponto,surgiu numa microfração muito relevante da linha histórica que deu abertura para que <span> </span>fatos notáveis contribuíssem com mudanças significativas na ordem e organização, prezada e defendida por nós, espécime masculina, sucedessem. Não é isso mesmo, afiliados? Vejam só as academias de ginástica, um câncer que ainda hoje impera, seja na área rural, urbana ou espacial, e nos torna cada vez mais impotentes. A simples visão das curvas torneadas pela magia negra das máquinas de supino é o nosso melhor exemplo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Historicamente, a instituição Academia de Ginástica começou a se formar nos calabouços de Green Grass Northshire Castle. Lá condenados passavam pelo julgo de reis e rainhas, príncipes e princesas, amas e cozinheiros, e eram sentenciados a ficarem, de tempos em tempos, presos em uma posição semelhante a da crucificação. No ano de 1.376, uma mulher de idade foi colocada junto dos detentos homens. Eles, sensibilizados com a situação daquela senhora foram ajudá-la. Mal sabiam que ela era uma harpia aprisionada em sua forma unicamente humana. Aos poucos, ela foi sugando a energia de cada um dos réus, até que se tornassem pele, ossos descalcificados e glóbulos oculares amarelados. Quando seus poderes atingiram o auge, ela conseguiu escapar, mas antes amaldiçoou a posição que tanto forçou seus músculos e quase provocou a perda completa de seus movimentos, e por conseqüência, sua mágica. Estudos comprovam que essa posição amaldiçoada é a mesma recomendada nas primeiras máquinas de supino, sucesso entre os homens da década de 1980. Além de tornar os polhastros atrativos apenas para Ursos Grizzlies, a vaidade entrava sem vaselina no consciente masculino, derrubando a auto-estima como se ela fosse um objeto de decoração sem valor. Para corrigir esse problema, os homens passaram a desenvolver aparelhos mais tecnológicos, que tornassem o corpo mais sensual. Isso também não fez com que sua auto-estima se engrandecesse. Então, homens benevolentes, mais uma vez ludibriados por alguma poção vinda do futuro, apresentaram às mulheres a academia, oferecendo a chance de elas mostrarem todo seu talento e capacidade de raciocínio em um ambiente tipicamente masculino, tornando-o mais harmônico. Ingênuos, isso que fomos. O contato massivo da espécie feminina com a antiga maldição da harpia aflorou os piores instintos do mulheredo. E por isso hoje, séculos depois, nós definhamos. Só temos ridículos hectares de florestas recuperadas pelos governos femininos para correr e nos exercitar, enquanto as fêmeas podem usufruir das florestas, com seus lagos e rios despoluídos, e também das nanomodernas vilas esportivas. Mas não me tomem por praguejador e detalhista. Não. O departamento esportivo é apenas um dos segmentos em que somos humilhados e azorragados.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Estão começando a entender o que quero dizer companheiros de punheta? Onde está a poluição que preenchia nossos pulmões? E como as mulheres lhe tratam no trânsito? Xingam você de burro, braço. E os carecas então? É só ultrapassar um pouco o limite de velocidade que já ouvimos o coro “tinha que ser careca”. Injustiçados carecas. Elas pensam que o domínio de modalidades como Fórmula Zero e X-Rally lhes dá o direito de pensar que nós, homens, não temos mínimas condições de competir em uma prova automobilística. Insulto.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">E agora, peço aos associados que consideram seu estômago forte o suficiente, que fiquem. Mas sintam-se à vontade para não continuar aqui, aqueles que ficarem incomodados com os temas. São delicados, eu sei, mas temos o dever de levantar as questões Entretenimento ao Ar Livre e Trabalho. Esses tópicos específicos são considerados as principais causas de suicídios nos países com alto índice de suicídios. E não é para menos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Como, homens da minha nação, nós vamos nos divertir tranqüilamente na praia enquanto mulheres poderosas passam a nos intimidar, e a caluniar nossos defeitos e exaltar nossas qualidades como se fôssemos legumes muito verdes ou muito rotos. “Ah, esse é bom de apalpar, esse já está mole. Hum, esse tem uma pele boa, este parece um pé enrugado com frieiras”. Como, meus selváticos, vamos manter o mesmo desempenho visual que o delas. Somos proibidos de entrar em lojas de cosméticos, não temos um ginásio sequer. Apenas uma campo que tem mais terra batida e texugos do que grama. Não estamos em condições de argumentar, quanto mais de demonstrar que também podemos escolher, que o esporte, a política, as cirurgias, a educação, tudo, não são atividades exclusivamente femininas. Quando nós poderemos olhar um biquíni e fazer um coro de elogio às ancas? Quando poderemos entrar em praias de topless sem ter que pagar uma taxa abusiva? Quando voltaremos a ter shampoo e condicionador 2 em 1 ao invés de sabão de coco incluído na cota da nossa cesta básica masculina? Quando as meninas do campo vão balançar suas saias hippies e ouvir aplausos ao invés de desejos reprimidos? Este tema precisa de abordagem iminente, correligionários de bolsa escrotal, e acreditem, se tivermos a chance, não vamos nos intimidar.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">E quanto ao trabalho. Proponho uma greve imediata. Da mesma maneira que somos tratados em boates, danceterias e bares, a falta de mesura também assola o ambiente corporativo. Nossos cargos, muitas vezes abaixo do que merecemos, nos ata as mãos frente às injustiças sexuais sofridas. Depilar o peitoral como técnica barata de sedução em entrevistas, sapatos bico fino para parecer que sempre calçamos uns números a mais, ter que apalpar os peitos caídos da superiora da área, depois da superiora do departamento e por fim da superiora geral só para ganhar um café na reunião que, por um milagre, você foi convocado e não está entendendo nada, porque a informação relevante nunca chega aos seus ouvidos. E o pior, mesmo não possuindo posições de comando em nenhuma das grandes empresas do mundo, a culpa sempre recai sobre nossos ombros. Lembram-se do caso da presidente daquela empresa inglesa? No processo de separação o marido saiu com um par de meias e um colher de café. Acusado de interesseiro e biltre em praça pública. Logo em seguida, devido a uma segunda mão de esmalte mal aplicado, ela foi deposta. Neste momento o pobre do (já) EX-marido foi acusado de abalá-la emocionalmente em um desquite que lhe drenou a consciência. Não somos interesseiros caros colegas, somos sim interessados na nossa emancipação dessa ditadura repressora do absorvente.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Por isso, meus companheiros que vão ao barbeiro ao invés do cabeleireiro, conto com o apoio de vocês no último domingo do próximo mês para iniciarmos o processo de renovação social, onde os homens também poderão controlar ações e rumos a serem tomados. Teremos um canal de televisão só com pornografia, a Copa do Mundo Masculina voltará a ser jogada a cada quatro anos e a área do comércio do amendoim japonês será redefinida de acordo com os padrões dos botecos mais tradicionais. São planos ambiciosos. Sim, eu sei. Mas eu não deixo de acreditar que juntos, unidos, atingiremos nossos direitos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Obrigado.”</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">“Não. Juntos e unidos não significa de mãozinhas dadas.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom:.0001pt;line-height:normal;"><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></span></p>
<p><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Obrigado.”</span></p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/03/liz_peq1.jpg?w=380" alt="liz_peq1.jpg" /></p>
<p><em><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;"><a title="exile in guyville" href="http://rapidshare.com/files/60956522/Exile_In_Guyville.rar.html" target="_blank">Liz Phair – Exile In Guyville.</a> </span><span style="font-size:10pt;font-family:Verdana;">Ah, homens. Rendam-se logo, por favor.</span></em></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/52/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/52/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=52&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A PRIMEIRA VEZ ANTES DA PRIMEIRA VEZ</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Feb 2008 18:07:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>unknown</dc:creator>
				<category><![CDATA[não interessa]]></category>
		<category><![CDATA[pop]]></category>
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		<description><![CDATA[Está mentindo a garota que discorre sobre sua primeira vez, relembrando dolorosa e maliciosamente da experiência que teve entre os catorze e dezoito anos. Mas não se matem, meninas, vocês não têm a menor idéia de que estão mentindo. É um loroteiro de marca maior o garoto que se gaba de ter consumado o coito [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=50&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal">Está mentindo a garota que discorre sobre sua primeira vez, relembrando dolorosa e maliciosamente da experiência que teve entre os catorze e dezoito anos. Mas não se matem, meninas, vocês não têm a menor idéia de que estão mentindo. É um loroteiro de marca maior o garoto que se gaba de ter consumado o coito pela primeira vez aos treze – ou pouco depois disso – enquanto caçoa de seus coleguinhas de turma que mantêm a virgindade. E é um tolo o coleguinha que baixa a cabeça, resignado com sua virilidade, quando deveria responder que a primeira vez dele acontecera há alguns anos. E não só a dele. Desconsiderando a fase oral, a primeira vez de muita gente aconteceu muito antes do que eles mesmos se lembram e consideram a fornicada primogênita.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Há quem considere sexo somente o ato da penetração. Provavelmente as mesmas pessoas que não consideram felação algo estimulante. Esse tipo de mentalidade contribui diretamente para o tabu da primeira vez. Se todos adolescentes e seus hormônios incontroláveis atingissem a etapa final sabendo que a primeira vez não é, na verdade, a primeira vez, tudo seria mais fácil e menos traumático. O primeiro dia de escola é uma experiência considerável para algumas crianças, mas não se compara à primeira relação mais profunda. O primeiro dia de trabalho é cercado de muita expectativa, mas não pode competir com a implacabilidade da primeira noite (manhã? Tarde?) de um pré-adolescente. Todas essas atividades (ir à escola, ao trabalho, sexo) são realizadas exaustivamente durante nossas vidas, por isso o conceito da primeira vez deveria ser revisado por algum conselho de pedagogia psicanalítica e adotado em instituições de ensino particulares e estaduais. Veja por este ângulo: duas crianças em um banheiro, muito mais do que um ato recriminado por pais católicos e pelas freiras do internato, é o cenário de um dos momentos mais excitantes da infância. O banheiro torna-se, nessas circunstâncias, o motel de quem ainda não tem idade para dirigir nem pedalinho. Outro bom exemplo é um casal de velhinhos desdentados e impossibilitados de movimentar a pélvis. Eles buscam no sexo oral banguela-genginitivo sua dose mensal de hormônios e incitamento naturais. Assim, percebemos que a idade é sim um limitador da atividade sexual, mas não da libido.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Tirando (novamente) a fase oral e as variações de cópula com galináceos, ovinos e eqüinos, mais relatadas na forma de piada do que como know-how, a maioria dos meninos e meninas tem sua primeira experiência antes dos dez anos, e o ser oposto normalmente é: irmã(o) de outro casamento do pai, prima(o), amiga(o) da escola ou da rua (do prédio/do condomínio). Dificilmente esse tipo de relação ocorre em locais de pouca freqüência. Clubes, por exemplo, se são usados única e exclusivamente para a prática de um esporte podem gerar as subseqüentes experiências da garota ou do raparigo, mas não a primeira, quando ainda existe uma cumplicidade entre os praticantes do ato. Poucas crianças falam “mostra o seu que eu mostro o meu” para um desconhecido.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">A desconstrução do mito da primeira vez começa com a desmistificação do ritual de passagem. É só sexo. Não significa que você tem que caçar um leão com um abridor de latas. Não é algo que você vai fazer uma vez na vida para provar que pode ser um o guerreiro-chefe ou capitão de um caiaque. Da mesma maneira, as garotas que mais cedo percebem que a foda de princesa vai acontecer dos vinte e poucos em diante, que a primeira vez vai doer, mais cedo vai perceber os prazeres que o sexo proporciona, seja o tântrico ou a rapidinha na caixa d’água.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Um bom gosto e disposição nas preliminares (e por preliminares entenda até o beijo que antecede a mão nas nádegas quando se tem 11 anos) mostram subliminarmente ao parceiro, então um amador cheio de medos e nojos (os quais você já superou), que ninguém faria algo ruim com tanta disposição. Ou vocês acham que o carrasco não gostava de ficar dando nós em cordinhas e afiando lâminas? Porém, ao contrário das crianças descobrindo a sexualidade, o carrasco tinha uma sociedade, ou ao menos mandatários, que o apoiavam e incentivavam suas sevícias.</p>
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportEmptyParas]--> <!--[endif]--></p>
<p class="MsoNormal">Mas novamente, meninos e meninas, não se aflijam. Existem sempre livros sofríveis cheios de dicas traumatizantes sobre a construção de um relacionamento saudável. Eles são para maiores de 18 anos, mas tudo bem, revistinha de sacanagem também é e qualquer moleque de calças curtas compra um exemplar. E o principal na fase de transição entre bandeirante dos hormônios e conquistador de experiências é nunca deixar de fazer alguma coisa que lhe dê prazer, como tomar fanta uva, comer sanduíches de manteiga com açúcar e se quiser incluir na lista, sexo e coisas proibidas por aqueles que não tiveram coragem de colocar essas mesmas coisas em prática.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2008/02/newpornographers_peq.jpg?w=380" alt="newpornographers_peq.jpg" /></p>
<p class="MsoNormal"><em><span><a title="electric version" href="http://www.megaupload.com/?d=W63JUXU0" target="_blank">New Pornographers – Electric Version.</a> </span>Pop pornô de rapidinhas que mais parece a aula “Rock Contemporâneo: Composição e Bom Gosto Para Bandas Superestimadas”. Combina com cervejas, refrigerantes radioativos, conhaques, cigarros e pedaços de camembert, tudo junto. Para quem não tem tabus com músicas que grudam nos ouvidos desde a primeira vez.</em></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/50/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/50/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=50&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>DO THE EVOLUTION</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Aug 2007 02:47:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>unknown</dc:creator>
				<category><![CDATA[não interessa]]></category>
		<category><![CDATA[antibes]]></category>
		<category><![CDATA[electronic rock]]></category>

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		<description><![CDATA[Acordar no susto era uma coisa corriqueira em minha vida. Mas antes, o que eu achava normal passou a me assustar cada vez mais. Já fazia uns nove anos que eu estava nessa porra de hospitalzinho psiquiátrico de bairro. Obviamente não tinha nada, mas ainda assim uma vez a cada seis meses os diretores insistiam [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=48&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Acordar no susto era uma coisa corriqueira em minha vida. Mas antes, o que eu achava normal passou a me assustar cada vez mais. Já fazia uns nove anos que eu estava nessa porra de hospitalzinho psiquiátrico de bairro. Obviamente não tinha nada, mas ainda assim uma vez a cada seis meses os diretores insistiam em fazer relaxantes sessões de eletrochoque. Pelo menos não aumentavam minha voltagem igual faziam com o Xing-Sen. Coitado do chinês, ficava desatinado. Só porque queria colocar pastel de cachorro na barraquinha da feira. Eu falava pra ele que aqui não era a China, que um dia iam reclamar. E como reclamaram.</p>
<p>No geral, a rotina transcorria de uma maneira até pacífica. O pior eram os remédios mesmo. Teve um dia que meu ex-colega de quarto colocou Stelazine no suco de um enfermeiro. O cara era forte pra burro, saudável o suficiente para agüentar uma dessas pílulas que a gente toma por aqui. Deu uma semana piava e saltitava alucinando. De jagunço virou chicoteado também. Achei um pouco triste, mas conheci gente que batia palmas quando ele ia para o quartinho reformatório. Não havia um dia que não voltava todo borrado. Isso era considerado o auge da rebeldia naqueles anos.</p>
<p>Quanto mais o (antes) enfermeiro entrava e saía com o esfíncter frouxo da ala nove, mais vibravam meus colegas de reformatório. Muito mais pelo fato de ser um ex-carrasco que se cagava do que pelo ato de cagar em si. Mesmo porque aqui todo mundo fazia suas necessidades fora de lugar. Comíamos fora das mesas, dormíamos em tábuas por capricho organizacional – quanto pior o sono, menor a resistência que apresentaríamos – escovávamos os dentes no tanque de roupa, fazíamos sexo em qualquer lugar, logo, não poderiam criar a expectativa de que a cagada seria no vaso. Nos tratavam como escória e depois queriam que nos comportássemos como sommeliers.</p>
<p>Eu percebi isso dos remédios deveras rápido, por isso consegui escapar de um caminho que a maioria traça depois que cruza os portões pela primeira vez. Percebi um pouco antes de entrar nessa pocilga, há uns dez anos, quando um tio passou uma temporada aqui. Ele chamou depois, no auge da sua tênue lucidez, de temporada com o tinhoso. A culpa pelo carinhoso nome recaiu sobre o diretor da instituição e os remédios. A afeição que eu tinha pelo irmão de minha mãe, pelo sorriso e pelos apelidos com que ele me chamava desapareceram com a amargura e o rancor que agora exalavam de seus olhos e das suas ações.</p>
<p>Para compensar os remédios, umas duas vezes ao ano alguém era liberado. Você nunca sabia quem seria o pseudo-fortuito. Pseudo porque poderia ficar igual meu tio, uma pessoa completamente irreconhecível para a família e amigos próximos. Um paria cercado de vultos, que em nenhuma hipótese seriam considerados conhecidos, tamanho o desprezo que cultivam por ele. Uma choldra covarde, que não conseguia encarar o fato de que o estado mental e social do ex-sangue-do-seu-sangue era em grande parte sua culpa. O último que eu vi sair foi o velho Ofir. Rapaz bom, devia ter uns cinqüenta e tantos, aparentava uns setenta e muitos. A família fez uma festança para recebê-lo em casa e fez outra ainda maior quando, uma semana depois, ele foi mandado de volta. Ofir nos contou às gargalhadas que o genro não agüentou quando um punhado de bosta com pétalas de lírio acertou bem o rosto do pug da família. Ofir se justificava para o marido de sua própria filha:” Mas tinha umas pétalas brancas cheirosas.” Pedro Pablo chamava o pug. Com certeza merecia um troço de merda na cara.</p>
<p>O fim das altas, como medida repressiva ao comportamento de Ofir, tornou as visitas um pouco mais freqüentes. A falta da mais reles esperança faz coisas impressionantes com a ridícula mente humana. Certa vez, e isso eu vi com minhas próprias orelhas, uma família veio visitar a instituição. O único interno que se recusou a tomar banho era exatamente o motivo da visita. Quando pai, mãe e irmãos entraram no quarto havia um azedume e o sujeito estava deitado em cima de sujeira pura. Algo muito chocante para a família, que provavelmente imaginava encontrar seu filho em um hotel três estrelas. No jantar daquele mesmo dia fui perguntar porque ele se recusou a tomar banho, no que ele disse: “Para simbolicamente poder mostrar para minha família que eu tenho nojo deles por me deixarem aqui, e para verbalmente falar, tenho medo dos enfermeiros, se fico imundo eles mantém distância”. Foi de um raciocínio brilhante. Pouco depois ele foi retirado daqui e anos depois viemos a descobrir pelo tráfico de jornal (que era o único tipo de tráfico que tínhamos há uns anos) que um jovem problemático havia matado a família. Um verdadeiro ator aquele menino. Convenceu a todos, até a nós, que sempre pensamos que nos conhecíamos. E essa dúvida foi o começo de um pandemônio interno.</p>
<p>A partir daí ficamos um pouco mais precavidos e passamos a cuidar mais uns dos outros. A organização aqui dentro foi impressionante e segmentada. Esquizofrênicos com esquizofrênicos, formando com suas inúmeras vozes o maior quorum de argumentação (segundo eles, óbvio) para qualquer decisão; depressivos com depressivos, confabulando em como a vida de todos nós era sem sentido em um lugar como aquele, exigiam a plenos pulmões remédios mais fortes e em doses para orangotangos. Obsessivo-compulsivos se maculavam do sangue de tantos transtornos juntos, divididos entre cada um dos membros da tribo. Foi uma cena impressionante e ninguém conseguiu explicar como eles conseguiram se organizar no final das contas. Suspeitamos que foram apenas obsessivamente se juntando com aqueles que não conseguiam falar por que estavam muito concentrados em suas rotinas excentricamente frenéticas. Infelizmente o grupo de Napoleões, tão desejado por boa parte do local acabou não se formando – os dois Bonapartes do antro decidiram que o reino era pequeno demais para os dois e um deles virou Carl Gustav, o monarca.</p>
<p>Foi o mais próximo que conseguimos ficar de um freak show sem controle. Aos comandos do diretor cada defeito considerado socialmente inapto de convivência era enaltecido e enquadrado para o caderno de notícias bizarras como justificativa às verbas exorbitantes que começamos a receber. Começamos, não só diretoria. Percebendo que a organização feita por osmose espontânea e multicelular de comportamentos não lineares realizada pelos grupos trouxera benefícios para o caixa da instituição, o diretor passou a se dedicar como nunca aos seus ex-renegados. Alas separadas, cada um com seu capricho para evitar incompreensão e batalha campal. Eu suspeitava que isso nunca daria certo. E isso realmente só durou até o dia da grande chacina na ala dos fóbicos. Sem saber qual medo deveria ser o regente supremo de sua jurisdição (com direito a voto pela internet) e quase em vias de decisão, os medrosos mais patológicos do bairro de repente se viram invadidos pelos residentes da ala da síndrome do pânico, não se sabe como. Nesse momento foi fácil decidir qual medo deveria ser combatido prontamente. Foi a primeira briga de facções literalmente insanas que se teve notícia em território nacional. Saldo de mortos e feridos que deixaria muita rebelião do crime organizado parecendo briguinha de gang infantil.</p>
<p>De circo passamos a ameaça nacional. Como se tivéssemos armas químicas e de longo alcance, o exército ficou plantado nas cercanias, o Complexo do Alemão e afins puderam trabalhar tranqüilos. Em reconhecimento ganhamos algumas centenas de quilogramas de maconha e outras tantas de cocaína, entregues diretos pelos esgotos em pacotes impermeáveis. Bem debaixo da barba e dos canos dos fuzis de cabos e tenentes. Em pouco tempo nós vendíamos drogas aos soldados, que sem relação com seus distantes familiares também nos ofereciam um trocado para uma felação sem responsabilidade. Era uma boa justificativa para tomar um banho.</p>
<p>Eu tinha um papel importante nos planos do diretor. Algum dos sintomáticos daqui deixou escapar que eu não tomava os remédios e estava bem. Ora, porque ele que também parecia bem tinha que tomar? Antes de isso se tornar um levante, o dedo-duro foi executado com estiletadas, bem ao estilo da ala psicótica em seus levantes bipolares mais agudos. E logo em seguida fui chamado para uma conversa. Achei que seria isso, bom passar pelo mundo e até a próxima. Mas não. Percebendo que eu tinha livre acesso por todas as alas, fui informalmente nomeado o representante dos internos para seu contato com o mundo externo. Isso faz mais ou menos umas três semanas. Pouco exerci do meu cargo diplomático, nós não gostávamos de nos comunicar com o mundo externo.</p>
<p>Como deveria ser natural, última noite sonhei que estava saindo daqui, que chegava em casa, uma bela mesa de jantar estava posta e pronta para um belo convescote. Deixei meus poucos pertences no quarto, a cama de casal encontrava-se pronta para o leito solitário e profundo. Essa calma e mesmice era como um pesadelo para mim. Mais uma vez acordei no susto. Mas susto mesmo foi ver uma circunferência do tamanho de um escapamento de carro a cinco centímetros do meu nariz e aquele odor de pólvora. Só tive tempo de pensar que eu deveria ter recusado meu importante e diplomático cargo. A cobiça é algo que loucos, não loucos e mais loucos compreendem, com o agravante de ter a capacidade de tornar os sãos loucos.</p>
<p>Hoje, uma semana depois de ser executado à queima-roupa só consigo pensar em uma coisa: poucos poderão se orgulhar por terem vivido na época em que era fácil ser louco. Mas deveria eu me ressentir por não morrer de overdose ou explosão cardíaca provocada pelos choques? Ou deveria me orgulhar, por ser considerado quem mostrou em manchetes sensacionalistas e em revistas antitudo o paradoxo de não saber em que lugar reside a real loucura? Dentro ou fora dos muros que habitei?</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/08/m83.jpg?w=380" alt="m83.jpg" /></p>
<p><em><a title="before the dawn heals us" href="http://rapidshare.com/files/24604818/M83_-_Before_The_Dawn_Heals_Us.rar.html" target="_blank">M83 – Before The Dawn Heals Us.</a> Completo do começo ao fim. Com vozes de fundo para não ouvir sozinho à noite, com guitarras longas para ouvir correndo por compridos corredores brancos de azulejo, com batidas para ouvir louco, às 3h da manhã, na festa.</em></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/48/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/48/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=48&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>ADORO ESSE TIPO</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 22:15:35 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[antifolk]]></category>
		<category><![CDATA[indie]]></category>
		<category><![CDATA[moscou]]></category>
		<category><![CDATA[new york]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma bebida. Eu preciso de uma bebida. De preferência com uma comida junto. Esse lugar parece ótimo. Lembra aquelas tabernas antigas. Ah, é uma taberna antiga. Sem grandes invenções, o pedido em uma taberna deve ser uma cerveja e uma irish soup. Leitinho, mesmo de cabras-montesas, suquinhos, naturais ou de polpa e água são vistos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=42&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma bebida. Eu preciso de uma bebida. De preferência com uma comida junto.<br />
Esse lugar parece ótimo. Lembra aquelas tabernas antigas.<br />
Ah, é uma taberna antiga.<br />
Sem grandes invenções, o pedido em uma taberna deve ser uma cerveja e uma irish soup.<br />
Leitinho, mesmo de cabras-montesas, suquinhos, naturais ou de polpa e água são vistos com maus olhos.<br />
Água com gás é seguido de expulsão com safanões morais.<br />
Um lugar vazio ao lado. Ou, ou, quase vazio.<br />
Uma jaqueta em cima do banco, um copo de vinho com uma marca de batom na altura  dos cotovelos.<br />
Batom vermelho, elimina-se a irish soup.<br />
Passos próximos.<br />
Salto, definitivamente alto, elimina-se a cerveja.<br />
Vinho? Destilado?<br />
Água com açucar para controlar a ansiedade hipoglicêmica? Controle-se, você está em uma taberna.<br />
Peça uma cerveja escura.<br />
Não, uma red ale. Isso.</p>
<p>- Me vê uma red ale. Oi? Acabou? É, vou ver o que eu peço.</p>
<p>Bom, o lógico é pedir uma cerveja escura.<br />
Mas calma.<br />
Mulheres não costumam ser grandes apreciadoras de cerveja escura.<br />
Talvez devesse pedir um vinho, ela se sentiria acolhida e atraída pela mesma bebida.<br />
Mas se ela for uma das poucas apreciadoras de cerveja escura? Que chance estarei perdendo?<br />
E olhar para o rosto dela? Isso pode ser uma boa idéia.<br />
Droga, ela está olhando para o outro lado. Mas o cabelo é muito bonito, um cheiro muito agradável.<br />
Quem eu quero enganar? O cabelo é bonito mas aqui está cheirando a álcool.<br />
Conhaque para ser mais exato.<br />
Epa. Será que ela está bêbada, exalando, e eu não consigo perceber?<br />
Impossível. Os saltos marcavam passos ritimados. Não ouvi tropeços ou tropicões. Ela não está alterada a este ponto.<br />
Será que sou eu?<br />
A ressaca ontem foi pesada mesmo. Mas não, muito improvável.<br />
É esse lugar, com certeza. Preciso tirá-la daqui. Mesmo sem conhecê-la.<br />
Eu posso sair. Ela pode vir atrás. Acho que vi uma olhada de soslaio.<br />
Mas e se ela não vier atrás? Aliás, porque ela viria atrás? Ela pode ter olhado meu sapato e pensado, “Nossa, igual do meu tio-avô”.<br />
Isso acabaria com a minha noite. Se bem que já são quatro e meia da manhã.<br />
E pensando melhor, o que essa mulher está fazendo num lugar desses essa hora?<br />
Deve ser namorada do cara do bar. Daí fica difícil.<br />
Seria mais fácil se ela fosse meretriz. Como eu vou perguntar isso?<br />
Bom, acho que aí, eu posso simplesmente sair. Ela pode vir atrás.<br />
Mas já é tarde. E se acabou o turno dela?<br />
Eu nunca namorei uma puta. Como será?<br />
Namorados de putas também são cornos? É o trabalho delas, afinal de contas.<br />
É uma dúvida legítima. Vou perguntar.</p>
<p>- E cerveja escura? Uma então.</p>
<p>Ela me notou. Ela gosta de cerveja escura.<br />
Ela tem um jeito diferente mesmo. Será que é estrangeira?<br />
Para gostar de cerveja escura, deve ser escocesa.<br />
Ouvi dizer que na Grã-Bretanha as moças são liberais, mas demoram para iniciar uma conversa.<br />
Isso significa que posso estar me dando bem sem saber.<br />
Um gole para comemorar o meu sucesso.<br />
É uma boa cerveja.<br />
Estou no lugar certo. Uma boa cerveja, uma boa mulher.<br />
Pare com isso.<br />
Você ainda nem sabe como é o rosto dela.<br />
Ela ainda não disse uma palavra. Parece muda.<br />
E se for?<br />
Interessante. Já saí com uma muda uma vez.<br />
Entre uma muda e uma escocesa, fico com a muda. Se for sair com a escocesa quem fica mudo sou eu.<br />
Mas como ela pediu o vinho? Não existe cardápio, não existem garrafas de vinho expostas. O sinal universal do “traz uma bebida” é sinônimo de cerveja.<br />
É, ela não é muda.<br />
E não existem meretrizes escocesas na cidade. Isso aqui não é Amsterdam.<br />
Ou seja, está tudo bem. Ela é como as outras.<br />
Você já sabe lidar com esse tipo.<br />
Então, é agora.</p>
<p>Meeeeerda. Eu vi.<br />
Fudeu.<br />
Com esse tipo eu nunca soube como lidar.</p>
<p>- Mas por que ela tem que ser tão linda?</p>
<p>Caralho. Eu disse isso? Disse.<br />
Ela está olhando. Com cara de assustada.<br />
Saiu.<br />
Foi embora.<br />
Realmente, sou muito burro.<br />
Só indo embora mesmo.<br />
Eu devia seguir o mesmo conselho silencioso.<br />
Vamos.<br />
Um passo de cada vez.<br />
Só por que você destruiu sua noite com uma frase?<br />
Quão ridículo.<br />
Bela porta de entrada.<br />
Já está clareando.</p>
<p>- Oi.</p>
<p>É ela. O que eu digo?</p>
<p>- Fiquei imaginando se você sairía logo depois que eu saísse.</p>
<p>Droga. Ela é rápida. Como não pensei nisso antes?</p>
<p>- Eu estava indo para casa. Quer vir?</p>
<p>Aceite<br />
Isso. Muito bem.<br />
É, eu adoro o tipo linda.<br />
Mas adoro ainda mais o tipo objetiva.</p>
<p><img src="http://gorilaalbino.files.wordpress.com/2007/06/spektor1.jpg?w=380" alt="spektor1.jpg" /></p>
<p><em><a title="begin to hope" href="http://rapidshare.com/files/138513711/Regina_Spektor_-_Begin_to_Hope.rar.html" target="_blank">Regina Spektor – Begin To Hope.</a> Nas palavras de um bom amigo, “é como se Tori Amos tivesse encontrado Diamanda Galás num beco escuro”. E com Regina é certeiro: você encontra e se encanta.</em></p>
<br /><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/categories/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /> <img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/tags/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/gorilaalbino.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/gorilaalbino.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/gorilaalbino.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/gorilaalbino.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/gorilaalbino.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/gorilaalbino.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/gorilaalbino.wordpress.com/42/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/gorilaalbino.wordpress.com/42/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=gorilaalbino.wordpress.com&amp;blog=242170&amp;post=42&amp;subd=gorilaalbino&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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