BEIJO NO ROSTO É SINAL DE CARÊNCIA

Maio 4, 2007

Certa vez ouvi relatos de uma mãe nada coruja, mas ainda assim muito apegada ao filhote, que o garoto no auge dos seus sete anos adora beijos de meninas mais velhas – por volta dos seus quinze anos – com a mesma intensidade que repudia os beijos melosos da tia Rosana.

Além do nome em comum com esse garoto, a semelhança de comportamento me surpreendeu. No meu caso, a tia Judith, com um agá horroroso no final do nome, ficava lambuzando minhas bochechas com beijos estalados e ao mesmo tempo ensinava a pronúncia correta do seu nome, que na sua concepção distorcida de sonoridade, em muito diferia da sua vizinha, Judite.

Tia Judith foi meu primeiro contato quase traumático com o sexo oposto. Levando em conta que menos de 1% da população deve lembrar de como era ser amamentado pela mãe, tias Rosanas e Judiths podem ser consideradas a principal causa de um dos grandes argumentos psicológicos sobre o comportamento masculino e feminino na adolescência: o de que meninas amadurecem primeiro.

Veja bem, as meninas são tratadas de maneira bem mais harmoniosa pela família. Imaginem o que o pai e mãe iriam pensar se vissem o tio Clóvis dando beijos e mais beijos nas bochechas rosadas de sua filhinha indefesa. Pedofilia, perversão, sodomita enrustido. E essa concepção passa pela cabeça do tio Clóvis, logo a menina cresce em paz com o sexo oposto.

Aos treze anos boa parte das meninas já menstruaram e estão louquinhas para testar seu novo estado hormonal, digno de uma mulher. Mulher?, pensa o menino de treze anos com o kichute e a bola de capotão no pé. A imagem da tia grudenta é imediata. Dentro desse contexto atingir um pé de igualdade é difícil. Mas tudo melhora depois que beijar fica uma coisa normal. Normal não, gostosa.

Nesse momento, as meninas que não aguentavam mais esperar o amadurecimento dos infantes já partiram para a ação com garotos mais velhos. E você, tolhido em suas ações, começa a olhar para as meninas mais novas. Crianças.

Quando carícias, beijos e sexo já fazem parte do vocabulário e do repertório corporal de qualquer pessoa, aí sim revela-se o lado de tia Judith dos homens, e não é o lado meloso, é o lado possessivo. Tia Judith, como tia Rosana, coitadas, são as tias que nenhum homem quis. Perdoem-me as duas e suas variações espalhadas pelos cantos do mundo, mas vocês estão nessa situação porque são chatas e apegadas.

Se quando éramos pequenos os beijos dessas hárpias da gosma bucal caía sobre nossas faces, agora crescidos, esse sentimento cai sobre nossas acompanhantes. Do mesmo jeito que a titia queria tomar whisky, fazer os docinhos do aniversário, fumar um cigarro, grudar na sua bocheca; você quer tomar uma cerveja, fumar um cigarro, fazer uma bagunça e quando chegar em casa encontrar sua mulher. Elas eram possessivas, você ainda é.

Sem notar que já fizemos uma mulher chorar (senão muitas), somos arrebatados por uma porrada psicológica e ao perceber que não existirá uma mulher quando chegarmos em casa, uma mistura de posse com pânico se acomoda em algum lugar entre o estômago e o último dos neurônios. Sinapses enfervecidas com ketamina não conseguem produzir tal efeito.

Mas acredite, xarazinho do começo do texto, isso não é uma regra, mas que sua mulher no futuro não estará fazendo docinhos, é verdade. E pior, quando você for procurá-la vai achar uma boca selada a outra em cada esquina. Para sua tristeza, ao menos uma delas será conhecida. Nesse momento, um beijo na bochecha nos ajudaria a superar essa situação – não a visão da alheia, mas a possessividade humana inerente – mesmo que fosse um beijo da tia Judith.

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Aqueduct – I Sold Gold. I’d never leave you there screaming for my love. Uma homenagem subjetiva ao desapego.


TERCEIRA CHANCE

Maio 2, 2007

São três horas da manhã. Acabei de completar cento e oito horas acordado. Sabia que algumas pessoas já tinham ficado assim, mas eu achei que estava imune, que comigo isso não aconteceria. É, de fato, uma insanidade. No sentido literal da palavra.

Ainda que a insônia fosse todo o problema do momento, ela é apenas mais um dos sintomas que não consigo ignorar (nem meus chefes, que já me recomendaram um psicólogo no mesmo andar do RH). Os outros sintomas, como a falta de apetite, o desejo de ficar trancado em casa, a incrível resignação com que tento passar o dia e a noite, são bem piores. Sem planos e sem projetos. Bem comigo, que sempre pensei ser invulnerável a elas.

Não tenho certeza se alguém já disse isso, mas de todas as drogas, as mulheres são as mais viciantes. É muito provável que sim, devido à obviedade da afirmação. De qualquer maneira só posso concluir que a abstinência de uma mulher é torturante. É a pior parte.

O homem experimenta, gosta, rapidamente se envolve e de repente fica sem. Por alguma bobagem, alguma estupidez, sem motivo algum ou por trocá-la por outra droga (as mulheres invariavelmente culpam a cerveja, loira deliciosa e perpicaz, que aumenta a auto-estima masculina com poucos minutos de conversa). Assim, no mesmo tempo em que uma banda consegue cantar one, two three, four, uma mulher consegue te largar. Sem uma resposta, sem sequer uma pista de como proceder.

Você deve agir, fazer alguma coisa. Mas fazer o quê? Fazer como? Você pode esperar. Mas esperar até quando? Por quanto tempo consegue um homem ficar sem pensar em uma mulher? Por quanto tempo um homem vive sem uma paixão? Uma paixão que ele possa conversar, tocar, beijar e transar. Não um símbolo de time do esporte bretão. Uma paixão que tenha a pele macia e lábios desenhados de um jeito que só os maiores artistas conseguem copiar. Copiar, porque criar algo tão perfeito é impossível. Eu não sei dizer por quanto tempo isso é possível.

Mas quando esse tempo chega, ele vale toda espera. É incrível como de repente, com uma simples notícia, o homem percebe que todo seu sofrimento, toda angústia, não passava de uma bobagem adolescente já superada. Tudo bem que ele teve que esperar muito por isso, mas agora está tudo perfeito, como deveria estar.

Uma segunda chance de aproveitar uma dose de Soma e se embriagar em odores que não se encontram em nenhum outro lugar, a não ser naquela pessoa, naquele pescoço e naqueles cabelos. Uma delicadeza que só se sente naquelas mãos, naquela boca e naqueles seios. É tão perfeito que não pode ser real.

É tão perfeito que não é real. Porque no momento seguinte ela já está dizendo adeus. Cada vez mais rápida, cada vez mais dolorido. Como uma arma que antes de perfurar lentamente o coração, transpassa ouvidos, nariz e olhos, para que o homem só saiba que uma mulher está próxima ao sentir o toque de seus dedos. Uma lâmina que dilacera o interior, porém deixa a carcaça inteira, para que todos o vejam apodrecer e morrer, um pouco por dia.

E o homem, que não sabe como encontrá-la, espera. Aguarda por mais um segundo, que seja, de sua saliva e do sopro que sai de sua alma e transforma todas as sensações em uma catarse que só pode ser superada pelo torpor eterno.

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Arcade Fire – Funeral. Não existe uma banda como eles. Existem melhores e piores, mas não como eles.

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Arcade Fire – Neon Bible. Já estou sem comer e sem conseguir raciocinar esperando pelo próximo contato.


A PROFISSÃO MAIS HONROSA DO MUNDO

Abril 18, 2007

Ele abriu o guarda-roupa. Em meio a tantas calças jeans, camisetas, jaquetas e roupas do dia-a-dia, separou um paletó bege de lã fria. Achou a melhor opção entre um terno preto, extremamente sério para esse momento de alegria, a fantasia de papagaio e o quimono de judô. Mais discreto, sem ser conservador. Hoje o equilíbrio entre discrissão e carisma seria fudamental.

Ontem mesmo, no parque de diversões a fantasia de papagaio tinha funcionado maravilhosamente bem. Enquanto colocava a gravata, o homem sorria lembrando-se da cena. A pobre coitada da vítima; sentado no banco, pálpebras fechadas, igual a maioria dos avôs depois de um almoço digno de avós, parecia perturbada, como se estivesse aproveitando o último dia de sua vida.

Mas isso foi ontem. O mês andava turbulento. Os negócios tomavam boa parte de seu tempo para ficar se apegando ao passado, mesmo que recente. A corrupção contribuia, e muito, para o bom andamento do negócio. Só este mês já visitara Jaders, um Orestes, Severinos e Josés.

Ficara particularmente orgulhoso do trabalho desenvolvido junto à Antonio Carlos. Houve ali uma grande imerssão. Ele se aproximou dos seus maiores imediatos, pôde descobrir detalhes que o ajudaram muito. O Painho merecia todo seu respeito e cuidado. Um erro e ele estaria condenado ao esquecimento. Sua carreira escoaria pelo ralo no melhor estilo Hitchcockiano.

Mas a perfeição e o grau de dificuldade do serviço realizado valorizaram seu passe. O mercado concorrente o temia. Tinha pesadelos com a possibilidade de encontrá-lo numa disputa. O mercado que contava com seu talento natural sorria por cada centavo investido. E eram muitos.

A reunião de hoje seria com pessoa ilustre e influente. Talvez, o grande salto da sua carreira, já meteórica, no grande centro econômico do Brasil. Paulo aguardaria uma pessoa com o nome de Dalila em um dos melhores restaurantes de São Paulo. Ele adorava causar surpresas e se empenhava para tal. Dalila tinha até número de registro. As suas surpresas por vezes chocavam, é verdade. Por exemplo um ex-presidente, caçador de marajás e carateca exímio, morreu de medo ao encontrá-lo vestido de atirador de facas de circo.

O terno bege estava impecável. A gravata feita com um Windsor Duplo realçava seu pescoço esguio e combinava perfeitamente com seus óculos escuros, circulares e não totalmente pretos. Satisfeito com o que via no espelho, dirigiu-se ao escritório e preparou sua maleta. Ela era mais larga, um pouco maior e da mesma forma de uma maleta executiva normal. Elegante, mas ainda assim, normal.

Checou se tudo estava no seu devido lugar. Considerava essa hora importantíssima. Uma falha e todo o projeto ruiría como a Torre de Babel. Importante manter-se atento às referências bíblicas. Paulo é costumaz freqüentador de cerimônias dominicais.

Pegou o carro e em pouco tempo estava estacionado a três quadras do local marcado. Gostava de parar sempre um pouco distante. Fazia uma última preparação mental de tudo que estava por vir, andava um pouco, analisava o ambiente. Nunca havia falhado, porque mudar. No encontro com Orestes chegara de ônibus e saíra andando, frente a olhares desnorteados que olhavam para o ocorrido procurando uma explicação.

Entrou em um suntuoso prédio e subiu direto para a cobertura. O sigilo do local era fundamental para que o negócio se concluísse sem estorvo. Da cobertura completamente vazia, olhou para o prédio em frente. Paulo estava lá, a uma rua de distância, esperando por Dalila. “Velhinho safado”, pensou. Posicionou-se e calmamente abriu sua maleta. Tirou cada parte de seu rifle Heckler & Koch PSG1 e o montou com todo o cuidado. Colocou a mira telescópica e manipulou cuidadosamente uma única bala, a beijou e colocou no cano. “Seu destino é certo, Dalila. Na mão de muitos homens passarás. Não desvendarão o seu passado, e mesmo assim, entrarás para a história.”

Enquanto saía do suntuoso prédio pessoas passavam gritando. Sirenes já se ouviam, ainda que distantes, e o homem, em seu terno bege impecável, andava e pensava consigo mesmo que amanhã, parte do obituário estará na primeira página dos jornais.
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Steely Dan – Pretzel Logic. Um duo que se veste do que for necessário para passar sua mensagem. E sempre consegue.


O REI QUE MORREU À PAULADA

Fevereiro 23, 2007

Em um distante reino o benevolente rei estava incrivelmente entediado. Mais que entediado, ele estava enfadado. Tinha a plena certeza de que pelo resto de seus dias o auge da animação seria acompanhar o mofo evoluindo em seu trono, subindo até seu manto. Como ele não tinha filhos ninguém se sentaria em seu lugar, logo ele conseguia ver os fungos consumindo mesmo seu cetro em todos seus detalhes de ouro.

Só na última semana três bobos da corte, contrariando qualquer exemplo de benevolência, foram executados com sacos de risada amarrados na cabeça. O rei não tolerava piadas sobre nacionalidades, religiões, homossexualidade e – obviamente – políticas centralizadoras. Como os bobos sindicalizados seguiam a cartilha desenvolvida pelos antigos truões em épocas mais prodigiosas, o repertório se esgotara.

Qualquer possibilidade de entretenimento fora de seus domínios era ridicularizada pelo próprio rei. Uma vez que o esporte mais praticado em suas terras era uma variação mais lenta e complicada da bocha, a culpa não poderia ser jogada toda em suas costas. Há alguns anos seus mensageiros, que viajavam divulgando seu glorioso reino, voltaram com um revolucionário jogo que exigia apenas pouco mais de vinte pessoas e uma bola. O monarca vetou veementemente qualquer tipo de propalação sobre um jogo que utilizasse apenas uma única bola. E isso foi culpa toda dele.

Os cozinheiros e copeiros que se aventuravam a alegrar a rotina do rei pelo estômago também não tinham vida fácil. Depois de quilos de receitas internacionais despejadas no lixo, de infindáveis testes de ingredientes, de meses visitando os mais obscuros mercadões dentro dos limites do território e além, a equipe gastronômica decidiu apelar. Passaram noites em claro pesquisando novas técnicas e cursos de aprimoramento na internet. De nada adiantou. O imperador sempre pedia frango com pele acompanhado de salada verde, arroz e batatas sauté. Duas bananas de sobremesa.

Com o passar do tempo o rei continuava incrivelmente entediado e o distante reino decidiu fazer alguma coisa. Mas o que oferecer a um rei, que ele já não tenha? Que experiência proporcionar, que ele já não tenha usufruído?, questionavam corte, povo, bobos não-sindicalizados (os únicos que restaram) e meros peregrinos. Depois de muito pensar, não se sabe ao certo quem falou – Que tal música?

A idéia, a princípio ridícula e absurda, passou a ser esperança quando fontes próximas revelaram que o conhecimento musical do desgastado monarca se limitava a uma apresentação de caráter singular: um duelo de menestréis dois no fagote contra dois na tuba.

Toda jurisdição começou então a buscar pelo que cada pessoa considerava a melhor música do império. No final da seleção, tomada pela esbórnia e por escolhas passionais, os envolvidos não conseguiram chegar a uma conclusão. A dúvida e a angústia eram inversamente proporcionais ao tempo que restava para o rei se enfastiar até de respirar.

Ao final de um conclave disputadíssimo um grupo foi selecionado pelo voto público. Aclamado como uma das grandes novidades pelos bardos do interior, que trabalharam pesado na boca de urna. Criticado pelos conservadores locais, sob o argumento de que Chopin e Lizst seriam a iniciação ideal para alguém com a posição social do imperador.

Já em cima do palco montado na ponte levadiça, durante duas horas o grupo tocou o melhor que podia. Os críticos mudaram de opinião, os adoradores foram aos prantos de emoção. Só uma pessoa não se levantou para aplaudir. O rei.

O legista da corte informou que a morte do benevolente imperador ocorreu dois minutos após as primeiras notas saírem dos amplificadores do grupo. Ataque cardíaco fulminante, conseqüência de um choque emocional agudo. Informou também que o sorriso estampado em seu rosto inerte era o mais sincero de toda sua vida.

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Macaco Bong – ao vivo – Novidade soando como novidade para os ouvidos. Nos dias de hoje, algo raro como rock instrumental.

P.S. – o link leva ao único álbum da banda, Artista Igual Pedreiro, que ainda não existia na época em que o conto foi escrito. Você precisa se cadastrar no site para baixar.


DO YOU HAVE A LIGHT?

Janeiro 23, 2007

Acenda um cigarro.

Sabe aqueles filmes em que ator e atriz principal e coadjuvantes fumam, fumam e fumam? E quando entra aquela cena de sexo que é completamente excitante? Mas, de repente, você não fica com tanta vontade de fazer sexo, e sim de fumar o cigarro pós-coito, que a câmera estática centralizou e deixou o trago ser mais forte que qualquer diálogo.

Se você fuma, você sabe. Se não fuma, essa estória não é feita para você, como você pôde perceber na primeira linha. O cigarro faz parte do imaginário glamoroso que permeia o mundo das artes.

No cinema, um trago de James Dean fez um delicioso câncer portátil entrar pelas gargantas e pulmões de uma geração inteira. Na música ele foi companheiro fiel de compositores solitários, de rodas de samba e, coitado do roqueiro que ousasse não fumar. No dia seguinte seria tachado de bubblegum pop.

Na gastronomia, conhecimento culinário elevado à condição de arte, os franceses são tão bons porque aprendem desde os treze anos a mexer a panela e cortar ingredientes com uma mão enquanto levam o tabaco à boca com a outra.

Pode parecer anti-higiênico; mas só até ver a pessoa que você conheceu em um café na noite anterior, na casa dela, usando só as roupas de baixo; acender o fogão e o cigarro com o mesmo fósforo. Nesse momento, quando você já estiver completamente hipnotizado, ela vai caminhar até você, falando a língua mais instigante do universo conhecido e vai beijar, beijar forte, não apaixonadamente, mas de um jeito que você nunca vai esquecer.

Nesse dia você não vai lembrar da cor da roupa de baixo, mas vai lembrar além do beijo, do sexo, do cigarro pós-sexo que tem exatamente o gosto que você imaginou que teria o cigarro pós-sexo dos filmes, se não melhor, e vai lembrar do croque-monsieur que ela fez para você. Aquilo sim que é um misto-quente.

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Mick Harvey – Intoxicated Man. Serge Gainsbourg pelo multiinstrumentista do Nick Cave & The Bad Seeds. Os cigarros que Serge adorava na língua de James Dean. Para ouvir, acenda um cigarro.


O CAMINHO DA FELICIDADE

Dezembro 22, 2006

Doce é uma merda. Em todas refeições as pessoas guardam um espacinho, ou seja, eliminam parte da dieta diária de proteína, carboidratos e essas coisas necessárias para se manterem saudáveis para comer um brigadeirozinho, um pastelzinho de belém, uma bomba ou qualquer sacarose que as cáries adoram.

Vai soar piegas agora, por isso prometo colocar uns palavrões bem escabrosos mais a frente, mas de doce já temos amizades, abraços, beijos, carnavais, feriados, água de coco na praia, fondue de queijo na primeira semana de frio do ano, viagem com a galera, viagem sozinho descobrindo uma nova galera. Enfim, doce é tudo que vai ficar marcado na sua vida.

O primeiro e mais odiado dos doces é o brigadeiro. De receita fácil e consistência semelhante dos chocolates em calda dos anúncios televisivos, o brigadeiro junta tudo de ruim que um doce pode ter. A qualquer momento alguma pessoa quer fazer uma panelinha de brigadeiro, na praia hordas de famintos anseiam pelo pôr-do-sol para compensar o tempo nublado com uma colherada da iguaria, e desde a infância bolinhas de brigadeiro são entuxadas nas pobres crianças que, de tanto gastar energia, se entregam primariamente ao vício da feniletilamina.

Sem defesa natural (pois mesmo o corpo humano, tão bem construído em alguns aspectos, não percebe o mal inerente que o doce carrega dentro de suas cápsulas açucaradas) o homem desenvolve uma dependência químico-social do doce. Ele acaba sendo seu melhor amigo na primeira desilusão semi-desastrosa, na segunda, na terceira e daí em diante.

E o cartel do doce já está montado há tempos, desde os astecas, quando somente os guerreiros, o conselho de guerra e imperadores bebiam um líquido sagrado feito de cacau que atribuía poderes a quem o tomasse. Do chocolate aos confeitos servidos nas cortes européias para os chicletes mascados pelos maiores atletas e também pelos maiores obesos norte-americanos, o doce é disparado a droga mais consumida do mundo.

Eu continuo achando o doce uma merda mas sei também que é muito difiícil lutar contra o mundo e contra as campanhas de marketing de Páscoa, por isso aos poucos fui me rendendo às maravilhas do doce. Ele é realmente uma metáfora maravilhosa.

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Mates Of State – Team Boo. Não é o último CD da dupla, mas vai se foder, uma banda que faz um puta som doce, mas tão doce que a dependência é imediata. Puta que o pariu, vai ser doce assim e bom assim na casa do caralho arregaçado. Vai tomar no cu doce de verdade. Para valor de um puto registro, o novo CD Bring It Back é doce que nem buceta com Amarula.


SÍMBOLOS QUE DURAM ERAS E MARCAM NOITES TAMBÉM CAEM

Dezembro 18, 2006

O símbolo máximo do rock é a guitarra. Barulhenta. Distorcida. Ensurdecedora.Mentira. O símbolo máximo do rock foi o All Star. O tênis dos punks e proto-punks. O tênis de descanso e passeio da turma do rock pesado. Mas principalmente o All Star era o tênis que nós, humildes e rebeldes seguidores do sexo, drogas e rock and roll podíamos comprar e surrar sem dó, igual nosso vocalista favorito.

Se depois de uma noite de bebedeira você apostasse seu All Star que derrotaria o dono do bar numa sinuca e (provavelmente) perdesse, você teria a certeza que apostou algo honrado, não aqueles cinco reais esfarelados que surgiram no bolso a caminho do bar. E também sabe que a perda não foi grave, porque o All Star estava aí para quem fosse rock and roll suficiente para usá-lo.

Me recordo de uma noite que logo após um show moribundo de uma banda hardcore saímos, uma morena linda e eu, direto para o apartamento dela. O lugar era pequeno, iluminado bem porcamente e ficava só um pouco acima dos fios de luz. Nunca mais vi a menina mas foram três horas tão malucas e tão intensas que jogamos nossos tênis, All Stars, nos fios por que ela queria uma lembrança do estrado quebrado.

Porém, faz alguns anos que percebi um movimento muito menos interessante do que pélvis em harmonia embaladas por movimentos hora peristálticos, hora circulatórios: o movimento da inflação do que podemos chamar mercado indie.

Não é o objetivo discutir o quanto esse mercado ainda existe ou o quanto ele é pop e não indie, quando ele começou ou por atitude (ou culpa) de quem. Acho que tenho respostas para boa parte destas perguntas mas definitvamente não é o caso. Já temos bastantes problemas discutindo a desvalorização do All Star.

Desvalorização sim, seus preços aumentaram mas seu valor sentimental diminuiu tão radicalmente quanto o mini moog. Sua estrela está nas piores e mais mulambas lojas, orgulhosa como sempre esteve, mas também nas melhores, intimidada pelo mainstream que sempre evitou. Pensando dessa maneira podemos dizer que o All Star, durante uns vinte e tantos anos, o produto mais comunista produzido pelos Estados Unidos e ainda assim exportado para o mundo, finalmente achou uma maneira de penetrar no capitalismo.

Novas bandas, cheias do chamado hype, chegam do nada, soando como a mesma música da banda anterior, que já tocava os mesmos acordes dos precurssores do movimento novo-rock (aliás, que bosta de nome) onde todos, sem exceção, imaginam que sua maior influência é Velvet Underground, não percebendo que não basta falar de drogas ou de umas putinhas para serem originais e transgressores, mesmo porque isso não é mais underground, não é mais indie; e só os indies ainda não perceberam.

Com uma certa dose de desilusão, admirando parte da minha pré-adolescência e juventude se estilhaçando pela falta de atualidade de um conceito, fico torcendo que minha menina do hardcore ainda more no mesmo lugar, fico imaginando que ela não se rendeu ao taileur e salto alto como rotina e que resiste às marcas mais cruéis do crescimento pseudo-responsável.

Mas o que eu mais desejo é encontrá-la e pedir para ir ao seu apartamento só uma vez mais, porque com o par de All Star custando tanto, aquele pé tão charmosamente entrelaçado nos fios vai cair como uma luva.

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Mars Volta – Amputechture. Uma banda e um disco que honram os All Stars que vestem.