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DO THE EVOLUTION

Agosto 20, 2007

Acordar no susto era uma coisa corriqueira em minha vida. Mas antes, o que eu achava normal passou a me assustar cada vez mais. Já fazia uns nove anos que eu estava nessa porra de hospitalzinho psiquiátrico de bairro. Obviamente não tinha nada, mas ainda assim uma vez a cada seis meses os diretores insistiam em fazer relaxantes sessões de eletrochoque. Pelo menos não aumentavam minha voltagem igual faziam com o Xing-Sen. Coitado do chinês, ficava desatinado. Só porque queria colocar pastel de cachorro na barraquinha da feira. Eu falava pra ele que aqui não era a China, que um dia iam reclamar. E como reclamaram.

No geral, a rotina transcorria de uma maneira até pacífica. O pior eram os remédios mesmo. Teve um dia que meu ex-colega de quarto colocou Stelazine no suco de um enfermeiro. O cara era forte pra burro, saudável o suficiente para agüentar uma dessas pílulas que a gente toma por aqui. Deu uma semana piava e saltitava alucinando. De jagunço virou chicoteado também. Achei um pouco triste, mas conheci gente que batia palmas quando ele ia para o quartinho reformatório. Não havia um dia que não voltava todo borrado. Isso era considerado o auge da rebeldia naqueles anos.

Quanto mais o (antes) enfermeiro entrava e saía com o esfíncter frouxo da ala nove, mais vibravam meus colegas de reformatório. Muito mais pelo fato de ser um ex-carrasco que se cagava do que pelo ato de cagar em si. Mesmo porque aqui todo mundo fazia suas necessidades fora de lugar. Comíamos fora das mesas, dormíamos em tábuas por capricho organizacional – quanto pior o sono, menor a resistência que apresentaríamos – escovávamos os dentes no tanque de roupa, fazíamos sexo em qualquer lugar, logo, não poderiam criar a expectativa de que a cagada seria no vaso. Nos tratavam como escória e depois queriam que nos comportássemos como sommeliers.

Eu percebi isso dos remédios deveras rápido, por isso consegui escapar de um caminho que a maioria traça depois que cruza os portões pela primeira vez. Percebi um pouco antes de entrar nessa pocilga, há uns dez anos, quando um tio passou uma temporada aqui. Ele chamou depois, no auge da sua tênue lucidez, de temporada com o tinhoso. A culpa pelo carinhoso nome recaiu sobre o diretor da instituição e os remédios. A afeição que eu tinha pelo irmão de minha mãe, pelo sorriso e pelos apelidos com que ele me chamava desapareceram com a amargura e o rancor que agora exalavam de seus olhos e das suas ações.

Para compensar os remédios, umas duas vezes ao ano alguém era liberado. Você nunca sabia quem seria o pseudo-fortuito. Pseudo porque poderia ficar igual meu tio, uma pessoa completamente irreconhecível para a família e amigos próximos. Um paria cercado de vultos, que em nenhuma hipótese seriam considerados conhecidos, tamanho o desprezo que cultivam por ele. Uma choldra covarde, que não conseguia encarar o fato de que o estado mental e social do ex-sangue-do-seu-sangue era em grande parte sua culpa. O último que eu vi sair foi o velho Ofir. Rapaz bom, devia ter uns cinqüenta e tantos, aparentava uns setenta e muitos. A família fez uma festança para recebê-lo em casa e fez outra ainda maior quando, uma semana depois, ele foi mandado de volta. Ofir nos contou às gargalhadas que o genro não agüentou quando um punhado de bosta com pétalas de lírio acertou bem o rosto do pug da família. Ofir se justificava para o marido de sua própria filha:” Mas tinha umas pétalas brancas cheirosas.” Pedro Pablo chamava o pug. Com certeza merecia um troço de merda na cara.

O fim das altas, como medida repressiva ao comportamento de Ofir, tornou as visitas um pouco mais freqüentes. A falta da mais reles esperança faz coisas impressionantes com a ridícula mente humana. Certa vez, e isso eu vi com minhas próprias orelhas, uma família veio visitar a instituição. O único interno que se recusou a tomar banho era exatamente o motivo da visita. Quando pai, mãe e irmãos entraram no quarto havia um azedume e o sujeito estava deitado em cima de sujeira pura. Algo muito chocante para a família, que provavelmente imaginava encontrar seu filho em um hotel três estrelas. No jantar daquele mesmo dia fui perguntar porque ele se recusou a tomar banho, no que ele disse: “Para simbolicamente poder mostrar para minha família que eu tenho nojo deles por me deixarem aqui, e para verbalmente falar, tenho medo dos enfermeiros, se fico imundo eles mantém distância”. Foi de um raciocínio brilhante. Pouco depois ele foi retirado daqui e anos depois viemos a descobrir pelo tráfico de jornal (que era o único tipo de tráfico que tínhamos há uns anos) que um jovem problemático havia matado a família. Um verdadeiro ator aquele menino. Convenceu a todos, até a nós, que sempre pensamos que nos conhecíamos. E essa dúvida foi o começo de um pandemônio interno.

A partir daí ficamos um pouco mais precavidos e passamos a cuidar mais uns dos outros. A organização aqui dentro foi impressionante e segmentada. Esquizofrênicos com esquizofrênicos, formando com suas inúmeras vozes o maior quorum de argumentação (segundo eles, óbvio) para qualquer decisão; depressivos com depressivos, confabulando em como a vida de todos nós era sem sentido em um lugar como aquele, exigiam a plenos pulmões remédios mais fortes e em doses para orangotangos. Obsessivo-compulsivos se maculavam do sangue de tantos transtornos juntos, divididos entre cada um dos membros da tribo. Foi uma cena impressionante e ninguém conseguiu explicar como eles conseguiram se organizar no final das contas. Suspeitamos que foram apenas obsessivamente se juntando com aqueles que não conseguiam falar por que estavam muito concentrados em suas rotinas excentricamente frenéticas. Infelizmente o grupo de Napoleões, tão desejado por boa parte do local acabou não se formando – os dois Bonapartes do antro decidiram que o reino era pequeno demais para os dois e um deles virou Carl Gustav, o monarca.

Foi o mais próximo que conseguimos ficar de um freak show sem controle. Aos comandos do diretor cada defeito considerado socialmente inapto de convivência era enaltecido e enquadrado para o caderno de notícias bizarras como justificativa às verbas exorbitantes que começamos a receber. Começamos, não só diretoria. Percebendo que a organização feita por osmose espontânea e multicelular de comportamentos não lineares realizada pelos grupos trouxera benefícios para o caixa da instituição, o diretor passou a se dedicar como nunca aos seus ex-renegados. Alas separadas, cada um com seu capricho para evitar incompreensão e batalha campal. Eu suspeitava que isso nunca daria certo. E isso realmente só durou até o dia da grande chacina na ala dos fóbicos. Sem saber qual medo deveria ser o regente supremo de sua jurisdição (com direito a voto pela internet) e quase em vias de decisão, os medrosos mais patológicos do bairro de repente se viram invadidos pelos residentes da ala da síndrome do pânico, não se sabe como. Nesse momento foi fácil decidir qual medo deveria ser combatido prontamente. Foi a primeira briga de facções literalmente insanas que se teve notícia em território nacional. Saldo de mortos e feridos que deixaria muita rebelião do crime organizado parecendo briguinha de gang infantil.

De circo passamos a ameaça nacional. Como se tivéssemos armas químicas e de longo alcance, o exército ficou plantado nas cercanias, o Complexo do Alemão e afins puderam trabalhar tranqüilos. Em reconhecimento ganhamos algumas centenas de quilogramas de maconha e outras tantas de cocaína, entregues diretos pelos esgotos em pacotes impermeáveis. Bem debaixo da barba e dos canos dos fuzis de cabos e tenentes. Em pouco tempo nós vendíamos drogas aos soldados, que sem relação com seus distantes familiares também nos ofereciam um trocado para uma felação sem responsabilidade. Era uma boa justificativa para tomar um banho.

Eu tinha um papel importante nos planos do diretor. Algum dos sintomáticos daqui deixou escapar que eu não tomava os remédios e estava bem. Ora, porque ele que também parecia bem tinha que tomar? Antes de isso se tornar um levante, o dedo-duro foi executado com estiletadas, bem ao estilo da ala psicótica em seus levantes bipolares mais agudos. E logo em seguida fui chamado para uma conversa. Achei que seria isso, bom passar pelo mundo e até a próxima. Mas não. Percebendo que eu tinha livre acesso por todas as alas, fui informalmente nomeado o representante dos internos para seu contato com o mundo externo. Isso faz mais ou menos umas três semanas. Pouco exerci do meu cargo diplomático, nós não gostávamos de nos comunicar com o mundo externo.

Como deveria ser natural, última noite sonhei que estava saindo daqui, que chegava em casa, uma bela mesa de jantar estava posta e pronta para um belo convescote. Deixei meus poucos pertences no quarto, a cama de casal encontrava-se pronta para o leito solitário e profundo. Essa calma e mesmice era como um pesadelo para mim. Mais uma vez acordei no susto. Mas susto mesmo foi ver uma circunferência do tamanho de um escapamento de carro a cinco centímetros do meu nariz e aquele odor de pólvora. Só tive tempo de pensar que eu deveria ter recusado meu importante e diplomático cargo. A cobiça é algo que loucos, não loucos e mais loucos compreendem, com o agravante de ter a capacidade de tornar os sãos loucos.

Hoje, uma semana depois de ser executado à queima-roupa só consigo pensar em uma coisa: poucos poderão se orgulhar por terem vivido na época em que era fácil ser louco. Mas deveria eu me ressentir por não morrer de overdose ou explosão cardíaca provocada pelos choques? Ou deveria me orgulhar, por ser considerado quem mostrou em manchetes sensacionalistas e em revistas antitudo o paradoxo de não saber em que lugar reside a real loucura? Dentro ou fora dos muros que habitei?

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M83 – Before The Dawn Heals Us. Completo do começo ao fim. Com vozes de fundo para não ouvir sozinho à noite, com guitarras longas para ouvir correndo por compridos corredores brancos de azulejo, com batidas para ouvir louco, às 3h da manhã, na festa.