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SEPARADOS FINALMENTE

abril 11, 2008

Diásporas são temas estudados com freqüência por brilhantes e limitados estudantes desde o Ensino Fundamental. A despeito das circunstâncias com que cada uma foi provocada, suas conseqüências mercadológicas e antropológicas são inegáveis. A globalização espelhou-se nas galeras fenícias, mas a internet tem suas bases nas diásporas. Com a extensão da cultura típica de uma região se alastrando por paisagens diferenciadas, a conclusão natural é que as diásporas e o mercado naval foram os precursores diretos do mundo virtual.

Mas se conseguimos enxergar um ponto positivo em um momento invariavelmente delicado para a história de qualquer povo, não podemos, por outro lado, limitar à condição humana o privilégio de se reerguer de um momento de dificuldade, ou a tragédia de afundar mais, quando ninguém imagina que isso seja ainda possível. Pacas e andorinhas também fazem sua diáspora, independentemente dos conceitos bípedes de nação. Convença uma paca que aquele pedaço da várzea sem alimento é o dela e por isso ela deve sofrer de inanição ao invés de nadar até o outro lado do estreito rio, que farão um filme com você, e será bem melhor que o Dr. Doolittle da Pesada Muito Louco em Londres 3.

A despeito da espécie, podemos considerar que a definição de nação depende do sujeito em questão. Abelhas, por exemplo, têm em sua colméia uma nação bem definida. As formigas, o outro exemplo óbvio de colônia, vivem em constantes batalhas com o reino dos anelídeos, das toupeiras e são freqüentemente invadidas pelas infantarias do tamanduá. Ou seja, se a divisão de castas sugere um controle social completo e imperialista nos melhores moldes humanos, o mesmo não acontece com a certeza sobre a extensão de seu domínio, em constante alteração.

Com esta rasa apresentação desse amplo conceito e suas ainda mais amplas possibilidades, estamos aptos a conhecer Olga. Olga sempre odiou seu nome. Ainda hoje acha que é um bom nome para sua avó. Ela odeia também o fato de que está sempre mudando de escola, bairro, cidade, país ou hemisfério antes que seus quase-amigos se acostumem com seu nome saído direto de um antiquário. O pai de Olga tem vários nomes. É possível que um deles seja o verdadeiro, mas, por ele ser o falsificador de cheques mais procurado em pelo menos quarenta e sete países, o normal é que a própria Olga fique em dúvida qual usar.

Acra, Amsterdã, Basiléia, Brasília, Campina Grande, Dacar, Dublim, Estocolmo, Havana, Jacarta, Juneau, Kiev, Londres, Lucerna, Manágua, Manila, Montevidéu, Moscou, Nicósia, Omsk, Phoenix, Riade, Roma, São Paulo, Tashkent, Tbilissi, Teresina, Tóquio e Zagreb são, em ordem alfabética, as cidades onde Olga já morou. Amanhã ela vai completar dezessete anos e o único lugar que seu nome passou despercebido foi em Estocolmo, onde é um nome até comum, e em Londres, onde esse tipo de estranheza é ignorado devido a outras coisas estranhas como a Lilly Allen ou qualquer capa de tablóide gratuito.

Hoje, Olga mora em São Paulo faz oito meses. A esta hora da noite ela deveria estar estudando, mas está pensando que adoraria cursar arqueologia, embora ainda não seja possível saber em que país deve escolher a faculdade. Só torce para que não seja em Burkina Fasso. Olga ouviu dizer que o francês burquinense é compreensível apenas com conhecimento das gírias do dialeto tribal da região. Telefone.

- Alô?

Não, não tem ninguém com esse nome.

Não, meu pai não está.

Não sei se ele volta hoje.

Não esqueço de avisar, não.

Mas, qual o seu nome?

Ah, só dizer que é um amigo?

Sei.

Tudo bem, então.

Tchau, tchau.

Acabamos de ter o privilégio de acompanhar o roteiro básico dos telefones à casa de Olga. Esta seqüência, claro, pode ter pequenas variações, para baixo (quando é engano) ou para cima (um inspetor mais insistente). Olga sabia que era alguém da polícia, e isso bastava para que ela usasse de respostas curtas e vagas, e para que seu pai ficasse tranqüilo. Ela imaginava, de qualquer forma, que a equipe de treinamento da polícia era formada por uma corja de apedeutas. Que espécie de amigo não perguntaria por ela? De qualquer modo ela sabia que seu pai nunca tivera um amigo. Olga não queria ficar como seu pai. Não queria desconfiar de todos, de toda rua, de todo prato de comida, de todo convite para uma noite divertida. Sabia que a desconfiança só confiava na solidão. Sabia também que queria ser arqueóloga, bioarqueóloga, para ser mais exata.

Olga convivia no período letivo com muitas adolescentes da mesma idade. Os desejos profissionais mais comuns atualmente eram publicidade, jornalismo, administração e especificamente em seu colégio, fonoaudiologia. Olga, como toda adolescente solitária, tinha uma bela coleção de teorias sobre tudo a sua volta. A explicação para o porquê de arqueologia era que sua rotina cigana a fizera muito apegada a suas origens, suas reais raízes, logo, com sua terra. Obviamente se isso fizer algum sentido, Olga deve cursar psicologia ou matemática analítica, não arqueologia.

O que a idade psicologicamente conflitante de Olga não permite que ela perceba é como as pessoas com quem ela convive a acham interessante. Consideram-se mesmo incapacitadas de ter um assunto que seja coerente com a cultura de Olga. Sempre que ela se muda é a mesma estória. Fica aquela sensação de morte de melhor amiga nas meninas, de grande amor perdido nos meninos, de intercâmbio da filha perfeita nos adultos – e de solidão em Olga. Seu celular sempre tem os mesmos números na agenda: o da ambulância, dos melhores médicos, de uns quatro advogados, de seguranças, bordéis de média qualidade e do IML, caso precise do pai para uma situação emergencial. Nos picos de sua agonia, Olga chegou até a considerar uma ligação para a operadora de seu telefone para conversar com o telemarketing. Inventaria um problema na tecla de cancelar chamadas e pronto, tinha uma desculpa para ligar e ela ainda servia para que o papo se alongasse. Por respeito próprio ela preferiu não fazer isso.

Os dias de Olga passavam lentamente. Entre uma refeição e outra havia pouco mais que uma leitura, um passeio até a praça próxima e uma descansada na sarjeta. Raramente checava e-mails (eram sempre spams mesmo) e navegar na internet , ao contrário do que dizem por aí, não a fazia mais social. Às noites Olga pensava que o normal seria sair e se divertir ou ficar em casa relaxando. Sair sozinha pelas ruas era considerado perigoso até pelo seu pai. Sair com os seguranças presos em seus calcanhares era como não sair. Ficar em casa tornava-se, assim, noite após noite, a opção depressivamente mais recomendada.

É muito claro para todas as pessoas que Olga está muito bem de vida. Infelizmente, para Olga só é claro que suas coisas maravilhosas e sofisticadas são oriundas unicamente dos embustes paternos, e que no primeiro vacilo dele tudo se esvairá. De maneira alguma Olga colocar-se-ia entre o pai e os negócios que os jornais fingem que entendem a cada notícia de tentativa frustrada de prisão. Toda essa compreensão não contribui em nada para que Olga queira seguir uma carreira familiar, muito pelo contrário.

Para aqueles que não conseguem enxergar Olga como uma menina tímida, com vergonha do próprio nome, ela é mais uma riquinha, mimada e que quando as férias de verão chegarem, ela vai voltar contando vantagem sobre como os castelos escoceses são bucolicamente belos ou como a Disneyland é muito mais legal que o Disney World. Crianças podem ser verdadeiramente cruéis, mas adolescentes são verdadeiramente mentirosos e, acima de tudo, não se conhecem tão bem para saber que ficariam imensamente tristes sem a presença de Olga, caso ela sumisse sem aviso prévio, como sempre fora orientada a fazer.

Essa tarde Olga chegou de seu passeio, entrou no quarto e só viu o seguinte bilhete em seu travesseiro:

SE EU NÃO CHEGAR ATÉ ÀS 20H30 PEGUE SEU CASACO E ME ENCONTRE LÁ.

Embaixo do bilhete havia uma passagem para Abidjan, capital marfinense, agendada para às 23h50. Tempo mais que suficiente para o check-in e um pão de queijo de despedida de mais uma casa. Talvez por isso Olga não conseguisse estudar, e sim só pensar em arqueologia. Olga sabia que em momentos de urgência, ordens transmitidas por escrito e sem direito a contra-argumentação deviam ser seguidas a qualquer custo. Casaco na mão. Olga só esperava a hora certa para assegurar-se que nada sairia errado. 20h27. Telefone.

- Alô – gritou Olga.

- Não, não tem nin…quer dizer, sim…sou eu.

Nunca alguém ligara para ela antes. Ela ficou paralisada de alegria. 20h28.

- Se eu quero sair? Mas é que eu estou de saída – respondeu tímida.

- Cinema com o pessoal amanhã?

- Acho que tudo bem.

- E onde é o bar de hoje, mesmo?

20h29.

Olga deixou o casaco em cima da cama e saiu pela porta dos fundos. Foi passeando, à noite, sozinha pelas ruas. A cada passo ela lembrava de canções de sua infância. Uma rima de Gana e outra entoada irlandesa eram suas favoritas. Olga tinha decorado as principais conexões dos aeroportos de Frankfurt, Hong Kong e Atlanta desde os doze anos de idade, mas não sabia o preço de uma garrafa de cerveja e de uma porção de batatas fritas em um botequim. Ela não queria saber mais de rotas aéreas do que dos túneis da cidade. Pensando bem, Olga nem gostava de arqueologia. Também não gostava de publicidade, jornalismo, administração e fonoaudiologia. Mas gostava de acordar no mesmo lugar no dia seguinte.

Essa tarde seria a última vez que Olga veria seu pai. Ela sabia disso. Era bom estar de volta para um lugar o qual ela só conheceu nos sonhos. Um lugar que ela pudesse chamar de seu. Não tinha como procurar por seu pai. Por qual nome procuraria? Em que lista ele se arriscaria a colocar sua identidade? Mas só para garantir que ele não a achasse, Olga resolveu deixar seu telefone em uma lata de lixo. Era uma lata bem suja, e Olga colocou seu aparelho bem no fundo enquanto uma lágrima escorria devagar, molhando só um pouco suas maçãs. Seus olhos, ao invés de inchados e cerrados, ficavam ainda mais brilhantes.

Fibes, Oh, Fibes! – Still Fresh. Um ama salsa, outro considera o Arizona importantíssimo para sua formação cultural e as ruas mereciam mais bancos para você fumar um cigarro tranqüilo enquanto ouve.

MACHIFESTO

março 10, 2008

Em um futuro não muito distante, em um grande ginásio de uma grande universidade, o Partido dos Limitados – que tivera seu nome definido pelo congresso – apresentava seu devastador discurso, que, segundo seus líderes, revolucionaria as bases epistemológicas sociais e antropológicas impostas na época. O local estava repleto de homens barbados. Barbas bem feitas, aparadas, sedosas e brilhosas como uma crina, nada daquelas barbas dos cossacos. Eles eram os descendentes dos glutões do século XX, que morreram gordos em uma época em que o colesterol ainda era uma preocupação e a água do mar não era filtrada. Estavam todos eles segurando seus copos de cerveja e ouviam atentamente a promessa de um mundo mais justo, livre da perseguição sexofóbica das mulheres.

“Amigos,

Ainda hoje, em pleno século XXVI é inaceitável que existam membros do sexo feminino, considerando que nós, homens, não conseguimos fazer as coisas tão bem quanto elas. Claramente apoiadas pela maioria feminina no congresso e senado, as representantes do sexo forte continuam a explorar os homens desde sua mais maviosa idade.

É injusto e assustador que há mais de dois séculos sejamos tratados com descaso e repúdio pelas classes maquiadas, que têm acesso liberado ao backstage das fábricas de sutiã. Por exemplo, as universidades infantis são um privilégio feminino. Por que o garoto, brilhante como a mais iluminada das meninas, é obrigado a freqüentar o grupo escolar destinado ao seu número de registro de nascença? Mesmo que isso signifique viajar mais de duzentos quilômetros diários em variados transportes públicos, só para obter uma educação básica e beldroega.

A história nos mostra que esta repressão ocorre desde o século XXII. Antes disso, o mundo era capitaneado, em sua maioria, por homens. Em um ato de benevolência e clara demonstração de superior capacidade de convívio social entre iguais, nós, homens, permitimos que as mulheres (que já tinham suas honrosas tarefas domésticas e maternais) fizessem parte do nosso ambiente de trabalho, dos círculos sociais que nos orgulhávamos, de nossas vidas íntimas. E então, elas nos aplicaram um golpe de grande-mestre enxadrista. Enquanto países em desenvolvimento mexiam em pecinhas de construção civil e AKs-47 as mulheres em desenvolvimento moviam pessoas e contextos ao seu favor. Aparentemente, além do avanço biológico privilegiado, as mulheres também evoluíram em outros aspectos como, egosociais, antropofágicos, esportivos e bélicos. Todavia, companheiros, tal progresso só seria possível caso as fêmeas antigas conseguissem dominar as dimensões relativas da física e seus portais espaço-tempo. Portanto, em vista da seriedade desta possibilidade, é correto afirmar que nossas opositoras políticas vivem, ainda nos dias de hoje, agora, conosco e ao mesmo tempo no futuro, onde provavelmente o mundo segue seu caminho natural, liderado por homens. Porém, aqui, em nosso tempo, somos subjugados, e quando chegarmos ao futuro, continuaremos dominados e o presente da outra dimensão, como ele deveria ter acontecido, terá se alterado. Às favas com o paradoxo temporal.

Assim, o lorpo destino da nossa sociedade atual recai ao momento em que permitimos a entrada delas para um novo mundo, cruel, do qual as estávamos preservando. Neste ponto,surgiu numa microfração muito relevante da linha histórica que deu abertura para que fatos notáveis contribuíssem com mudanças significativas na ordem e organização, prezada e defendida por nós, espécime masculina, sucedessem. Não é isso mesmo, afiliados? Vejam só as academias de ginástica, um câncer que ainda hoje impera, seja na área rural, urbana ou espacial, e nos torna cada vez mais impotentes. A simples visão das curvas torneadas pela magia negra das máquinas de supino é o nosso melhor exemplo.

Historicamente, a instituição Academia de Ginástica começou a se formar nos calabouços de Green Grass Northshire Castle. Lá condenados passavam pelo julgo de reis e rainhas, príncipes e princesas, amas e cozinheiros, e eram sentenciados a ficarem, de tempos em tempos, presos em uma posição semelhante a da crucificação. No ano de 1.376, uma mulher de idade foi colocada junto dos detentos homens. Eles, sensibilizados com a situação daquela senhora foram ajudá-la. Mal sabiam que ela era uma harpia aprisionada em sua forma unicamente humana. Aos poucos, ela foi sugando a energia de cada um dos réus, até que se tornassem pele, ossos descalcificados e glóbulos oculares amarelados. Quando seus poderes atingiram o auge, ela conseguiu escapar, mas antes amaldiçoou a posição que tanto forçou seus músculos e quase provocou a perda completa de seus movimentos, e por conseqüência, sua mágica. Estudos comprovam que essa posição amaldiçoada é a mesma recomendada nas primeiras máquinas de supino, sucesso entre os homens da década de 1980. Além de tornar os polhastros atrativos apenas para Ursos Grizzlies, a vaidade entrava sem vaselina no consciente masculino, derrubando a auto-estima como se ela fosse um objeto de decoração sem valor. Para corrigir esse problema, os homens passaram a desenvolver aparelhos mais tecnológicos, que tornassem o corpo mais sensual. Isso também não fez com que sua auto-estima se engrandecesse. Então, homens benevolentes, mais uma vez ludibriados por alguma poção vinda do futuro, apresentaram às mulheres a academia, oferecendo a chance de elas mostrarem todo seu talento e capacidade de raciocínio em um ambiente tipicamente masculino, tornando-o mais harmônico. Ingênuos, isso que fomos. O contato massivo da espécie feminina com a antiga maldição da harpia aflorou os piores instintos do mulheredo. E por isso hoje, séculos depois, nós definhamos. Só temos ridículos hectares de florestas recuperadas pelos governos femininos para correr e nos exercitar, enquanto as fêmeas podem usufruir das florestas, com seus lagos e rios despoluídos, e também das nanomodernas vilas esportivas. Mas não me tomem por praguejador e detalhista. Não. O departamento esportivo é apenas um dos segmentos em que somos humilhados e azorragados.

Estão começando a entender o que quero dizer companheiros de punheta? Onde está a poluição que preenchia nossos pulmões? E como as mulheres lhe tratam no trânsito? Xingam você de burro, braço. E os carecas então? É só ultrapassar um pouco o limite de velocidade que já ouvimos o coro “tinha que ser careca”. Injustiçados carecas. Elas pensam que o domínio de modalidades como Fórmula Zero e X-Rally lhes dá o direito de pensar que nós, homens, não temos mínimas condições de competir em uma prova automobilística. Insulto.

E agora, peço aos associados que consideram seu estômago forte o suficiente, que fiquem. Mas sintam-se à vontade para não continuar aqui, aqueles que ficarem incomodados com os temas. São delicados, eu sei, mas temos o dever de levantar as questões Entretenimento ao Ar Livre e Trabalho. Esses tópicos específicos são considerados as principais causas de suicídios nos países com alto índice de suicídios. E não é para menos.

Como, homens da minha nação, nós vamos nos divertir tranqüilamente na praia enquanto mulheres poderosas passam a nos intimidar, e a caluniar nossos defeitos e exaltar nossas qualidades como se fôssemos legumes muito verdes ou muito rotos. “Ah, esse é bom de apalpar, esse já está mole. Hum, esse tem uma pele boa, este parece um pé enrugado com frieiras”. Como, meus selváticos, vamos manter o mesmo desempenho visual que o delas. Somos proibidos de entrar em lojas de cosméticos, não temos um ginásio sequer. Apenas uma campo que tem mais terra batida e texugos do que grama. Não estamos em condições de argumentar, quanto mais de demonstrar que também podemos escolher, que o esporte, a política, as cirurgias, a educação, tudo, não são atividades exclusivamente femininas. Quando nós poderemos olhar um biquíni e fazer um coro de elogio às ancas? Quando poderemos entrar em praias de topless sem ter que pagar uma taxa abusiva? Quando voltaremos a ter shampoo e condicionador 2 em 1 ao invés de sabão de coco incluído na cota da nossa cesta básica masculina? Quando as meninas do campo vão balançar suas saias hippies e ouvir aplausos ao invés de desejos reprimidos? Este tema precisa de abordagem iminente, correligionários de bolsa escrotal, e acreditem, se tivermos a chance, não vamos nos intimidar.

E quanto ao trabalho. Proponho uma greve imediata. Da mesma maneira que somos tratados em boates, danceterias e bares, a falta de mesura também assola o ambiente corporativo. Nossos cargos, muitas vezes abaixo do que merecemos, nos ata as mãos frente às injustiças sexuais sofridas. Depilar o peitoral como técnica barata de sedução em entrevistas, sapatos bico fino para parecer que sempre calçamos uns números a mais, ter que apalpar os peitos caídos da superiora da área, depois da superiora do departamento e por fim da superiora geral só para ganhar um café na reunião que, por um milagre, você foi convocado e não está entendendo nada, porque a informação relevante nunca chega aos seus ouvidos. E o pior, mesmo não possuindo posições de comando em nenhuma das grandes empresas do mundo, a culpa sempre recai sobre nossos ombros. Lembram-se do caso da presidente daquela empresa inglesa? No processo de separação o marido saiu com um par de meias e um colher de café. Acusado de interesseiro e biltre em praça pública. Logo em seguida, devido a uma segunda mão de esmalte mal aplicado, ela foi deposta. Neste momento o pobre do (já) EX-marido foi acusado de abalá-la emocionalmente em um desquite que lhe drenou a consciência. Não somos interesseiros caros colegas, somos sim interessados na nossa emancipação dessa ditadura repressora do absorvente.

Por isso, meus companheiros que vão ao barbeiro ao invés do cabeleireiro, conto com o apoio de vocês no último domingo do próximo mês para iniciarmos o processo de renovação social, onde os homens também poderão controlar ações e rumos a serem tomados. Teremos um canal de televisão só com pornografia, a Copa do Mundo Masculina voltará a ser jogada a cada quatro anos e a área do comércio do amendoim japonês será redefinida de acordo com os padrões dos botecos mais tradicionais. São planos ambiciosos. Sim, eu sei. Mas eu não deixo de acreditar que juntos, unidos, atingiremos nossos direitos.

Obrigado.”

“Não. Juntos e unidos não significa de mãozinhas dadas.

Obrigado.”

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Liz Phair – Exile In Guyville. Ah, homens. Rendam-se logo, por favor.

ADORO ESSE TIPO

junho 1, 2007

Uma bebida. Eu preciso de uma bebida. De preferência com uma comida junto.
Esse lugar parece ótimo. Lembra aquelas tabernas antigas.
Ah, é uma taberna antiga.
Sem grandes invenções, o pedido em uma taberna deve ser uma cerveja e uma irish soup.
Leitinho, mesmo de cabras-montesas, suquinhos, naturais ou de polpa e água são vistos com maus olhos.
Água com gás é seguido de expulsão com safanões morais.
Um lugar vazio ao lado. Ou, ou, quase vazio.
Uma jaqueta em cima do banco, um copo de vinho com uma marca de batom na altura  dos cotovelos.
Batom vermelho, elimina-se a irish soup.
Passos próximos.
Salto, definitivamente alto, elimina-se a cerveja.
Vinho? Destilado?
Água com açucar para controlar a ansiedade hipoglicêmica? Controle-se, você está em uma taberna.
Peça uma cerveja escura.
Não, uma red ale. Isso.

- Me vê uma red ale. Oi? Acabou? É, vou ver o que eu peço.

Bom, o lógico é pedir uma cerveja escura.
Mas calma.
Mulheres não costumam ser grandes apreciadoras de cerveja escura.
Talvez devesse pedir um vinho, ela se sentiria acolhida e atraída pela mesma bebida.
Mas se ela for uma das poucas apreciadoras de cerveja escura? Que chance estarei perdendo?
E olhar para o rosto dela? Isso pode ser uma boa idéia.
Droga, ela está olhando para o outro lado. Mas o cabelo é muito bonito, um cheiro muito agradável.
Quem eu quero enganar? O cabelo é bonito mas aqui está cheirando a álcool.
Conhaque para ser mais exato.
Epa. Será que ela está bêbada, exalando, e eu não consigo perceber?
Impossível. Os saltos marcavam passos ritimados. Não ouvi tropeços ou tropicões. Ela não está alterada a este ponto.
Será que sou eu?
A ressaca ontem foi pesada mesmo. Mas não, muito improvável.
É esse lugar, com certeza. Preciso tirá-la daqui. Mesmo sem conhecê-la.
Eu posso sair. Ela pode vir atrás. Acho que vi uma olhada de soslaio.
Mas e se ela não vier atrás? Aliás, porque ela viria atrás? Ela pode ter olhado meu sapato e pensado, “Nossa, igual do meu tio-avô”.
Isso acabaria com a minha noite. Se bem que já são quatro e meia da manhã.
E pensando melhor, o que essa mulher está fazendo num lugar desses essa hora?
Deve ser namorada do cara do bar. Daí fica difícil.
Seria mais fácil se ela fosse meretriz. Como eu vou perguntar isso?
Bom, acho que aí, eu posso simplesmente sair. Ela pode vir atrás.
Mas já é tarde. E se acabou o turno dela?
Eu nunca namorei uma puta. Como será?
Namorados de putas também são cornos? É o trabalho delas, afinal de contas.
É uma dúvida legítima. Vou perguntar.

- E cerveja escura? Uma então.

Ela me notou. Ela gosta de cerveja escura.
Ela tem um jeito diferente mesmo. Será que é estrangeira?
Para gostar de cerveja escura, deve ser escocesa.
Ouvi dizer que na Grã-Bretanha as moças são liberais, mas demoram para iniciar uma conversa.
Isso significa que posso estar me dando bem sem saber.
Um gole para comemorar o meu sucesso.
É uma boa cerveja.
Estou no lugar certo. Uma boa cerveja, uma boa mulher.
Pare com isso.
Você ainda nem sabe como é o rosto dela.
Ela ainda não disse uma palavra. Parece muda.
E se for?
Interessante. Já saí com uma muda uma vez.
Entre uma muda e uma escocesa, fico com a muda. Se for sair com a escocesa quem fica mudo sou eu.
Mas como ela pediu o vinho? Não existe cardápio, não existem garrafas de vinho expostas. O sinal universal do “traz uma bebida” é sinônimo de cerveja.
É, ela não é muda.
E não existem meretrizes escocesas na cidade. Isso aqui não é Amsterdam.
Ou seja, está tudo bem. Ela é como as outras.
Você já sabe lidar com esse tipo.
Então, é agora.

Meeeeerda. Eu vi.
Fudeu.
Com esse tipo eu nunca soube como lidar.

- Mas por que ela tem que ser tão linda?

Caralho. Eu disse isso? Disse.
Ela está olhando. Com cara de assustada.
Saiu.
Foi embora.
Realmente, sou muito burro.
Só indo embora mesmo.
Eu devia seguir o mesmo conselho silencioso.
Vamos.
Um passo de cada vez.
Só por que você destruiu sua noite com uma frase?
Quão ridículo.
Bela porta de entrada.
Já está clareando.

- Oi.

É ela. O que eu digo?

- Fiquei imaginando se você sairía logo depois que eu saísse.

Droga. Ela é rápida. Como não pensei nisso antes?

- Eu estava indo para casa. Quer vir?

Aceite
Isso. Muito bem.
É, eu adoro o tipo linda.
Mas adoro ainda mais o tipo objetiva.

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Regina Spektor – Begin To Hope. Nas palavras de um bom amigo, “é como se Tori Amos tivesse encontrado Diamanda Galás num beco escuro”. E com Regina é certeiro: você encontra e se encanta.

BEIJO NO ROSTO É SINAL DE CARÊNCIA

maio 4, 2007

Certa vez ouvi relatos de uma mãe nada coruja, mas ainda assim muito apegada ao filhote, que o garoto no auge dos seus sete anos adora beijos de meninas mais velhas – por volta dos seus quinze anos – com a mesma intensidade que repudia os beijos melosos da tia Rosana.

Além do nome em comum com esse garoto, a semelhança de comportamento me surpreendeu. No meu caso, a tia Judith, com um agá horroroso no final do nome, ficava lambuzando minhas bochechas com beijos estalados e ao mesmo tempo ensinava a pronúncia correta do seu nome, que na sua concepção distorcida de sonoridade, em muito diferia da sua vizinha, Judite.

Tia Judith foi meu primeiro contato quase traumático com o sexo oposto. Levando em conta que menos de 1% da população deve lembrar de como era ser amamentado pela mãe, tias Rosanas e Judiths podem ser consideradas a principal causa de um dos grandes argumentos psicológicos sobre o comportamento masculino e feminino na adolescência: o de que meninas amadurecem primeiro.

Veja bem, as meninas são tratadas de maneira bem mais harmoniosa pela família. Imaginem o que o pai e mãe iriam pensar se vissem o tio Clóvis dando beijos e mais beijos nas bochechas rosadas de sua filhinha indefesa. Pedofilia, perversão, sodomita enrustido. E essa concepção passa pela cabeça do tio Clóvis, logo a menina cresce em paz com o sexo oposto.

Aos treze anos boa parte das meninas já menstruaram e estão louquinhas para testar seu novo estado hormonal, digno de uma mulher. Mulher?, pensa o menino de treze anos com o kichute e a bola de capotão no pé. A imagem da tia grudenta é imediata. Dentro desse contexto atingir um pé de igualdade é difícil. Mas tudo melhora depois que beijar fica uma coisa normal. Normal não, gostosa.

Nesse momento, as meninas que não aguentavam mais esperar o amadurecimento dos infantes já partiram para a ação com garotos mais velhos. E você, tolhido em suas ações, começa a olhar para as meninas mais novas. Crianças.

Quando carícias, beijos e sexo já fazem parte do vocabulário e do repertório corporal de qualquer pessoa, aí sim revela-se o lado de tia Judith dos homens, e não é o lado meloso, é o lado possessivo. Tia Judith, como tia Rosana, coitadas, são as tias que nenhum homem quis. Perdoem-me as duas e suas variações espalhadas pelos cantos do mundo, mas vocês estão nessa situação porque são chatas e apegadas.

Se quando éramos pequenos os beijos dessas hárpias da gosma bucal caía sobre nossas faces, agora crescidos, esse sentimento cai sobre nossas acompanhantes. Do mesmo jeito que a titia queria tomar whisky, fazer os docinhos do aniversário, fumar um cigarro, grudar na sua bocheca; você quer tomar uma cerveja, fumar um cigarro, fazer uma bagunça e quando chegar em casa encontrar sua mulher. Elas eram possessivas, você ainda é.

Sem notar que já fizemos uma mulher chorar (senão muitas), somos arrebatados por uma porrada psicológica e ao perceber que não existirá uma mulher quando chegarmos em casa, uma mistura de posse com pânico se acomoda em algum lugar entre o estômago e o último dos neurônios. Sinapses enfervecidas com ketamina não conseguem produzir tal efeito.

Mas acredite, xarazinho do começo do texto, isso não é uma regra, mas que sua mulher no futuro não estará fazendo docinhos, é verdade. E pior, quando você for procurá-la vai achar uma boca selada a outra em cada esquina. Para sua tristeza, ao menos uma delas será conhecida. Nesse momento, um beijo na bochecha nos ajudaria a superar essa situação – não a visão da alheia, mas a possessividade humana inerente – mesmo que fosse um beijo da tia Judith.

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Aqueduct – I Sold Gold. I’d never leave you there screaming for my love. Uma homenagem subjetiva ao desapego.

TERCEIRA CHANCE

maio 2, 2007

São três horas da manhã. Acabei de completar cento e oito horas acordado. Sabia que algumas pessoas já tinham ficado assim, mas eu achei que estava imune, que comigo isso não aconteceria. É, de fato, uma insanidade. No sentido literal da palavra.

Ainda que a insônia fosse todo o problema do momento, ela é apenas mais um dos sintomas que não consigo ignorar (nem meus chefes, que já me recomendaram um psicólogo no mesmo andar do RH). Os outros sintomas, como a falta de apetite, o desejo de ficar trancado em casa, a incrível resignação com que tento passar o dia e a noite, são bem piores. Sem planos e sem projetos. Bem comigo, que sempre pensei ser invulnerável a elas.

Não tenho certeza se alguém já disse isso, mas de todas as drogas, as mulheres são as mais viciantes. É muito provável que sim, devido à obviedade da afirmação. De qualquer maneira só posso concluir que a abstinência de uma mulher é torturante. É a pior parte.

O homem experimenta, gosta, rapidamente se envolve e de repente fica sem. Por alguma bobagem, alguma estupidez, sem motivo algum ou por trocá-la por outra droga (as mulheres invariavelmente culpam a cerveja, loira deliciosa e perpicaz, que aumenta a auto-estima masculina com poucos minutos de conversa). Assim, no mesmo tempo em que uma banda consegue cantar one, two three, four, uma mulher consegue te largar. Sem uma resposta, sem sequer uma pista de como proceder.

Você deve agir, fazer alguma coisa. Mas fazer o quê? Fazer como? Você pode esperar. Mas esperar até quando? Por quanto tempo consegue um homem ficar sem pensar em uma mulher? Por quanto tempo um homem vive sem uma paixão? Uma paixão que ele possa conversar, tocar, beijar e transar. Não um símbolo de time do esporte bretão. Uma paixão que tenha a pele macia e lábios desenhados de um jeito que só os maiores artistas conseguem copiar. Copiar, porque criar algo tão perfeito é impossível. Eu não sei dizer por quanto tempo isso é possível.

Mas quando esse tempo chega, ele vale toda espera. É incrível como de repente, com uma simples notícia, o homem percebe que todo seu sofrimento, toda angústia, não passava de uma bobagem adolescente já superada. Tudo bem que ele teve que esperar muito por isso, mas agora está tudo perfeito, como deveria estar.

Uma segunda chance de aproveitar uma dose de Soma e se embriagar em odores que não se encontram em nenhum outro lugar, a não ser naquela pessoa, naquele pescoço e naqueles cabelos. Uma delicadeza que só se sente naquelas mãos, naquela boca e naqueles seios. É tão perfeito que não pode ser real.

É tão perfeito que não é real. Porque no momento seguinte ela já está dizendo adeus. Cada vez mais rápida, cada vez mais dolorido. Como uma arma que antes de perfurar lentamente o coração, transpassa ouvidos, nariz e olhos, para que o homem só saiba que uma mulher está próxima ao sentir o toque de seus dedos. Uma lâmina que dilacera o interior, porém deixa a carcaça inteira, para que todos o vejam apodrecer e morrer, um pouco por dia.

E o homem, que não sabe como encontrá-la, espera. Aguarda por mais um segundo, que seja, de sua saliva e do sopro que sai de sua alma e transforma todas as sensações em uma catarse que só pode ser superada pelo torpor eterno.

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Arcade Fire – Funeral. Não existe uma banda como eles. Existem melhores e piores, mas não como eles.

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Arcade Fire – Neon Bible. Já estou sem comer e sem conseguir raciocinar esperando pelo próximo contato.

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