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O REI QUE MORREU À PAULADA

fevereiro 23, 2007

Em um distante reino o benevolente rei estava incrivelmente entediado. Mais que entediado, ele estava enfadado. Tinha a plena certeza de que pelo resto de seus dias o auge da animação seria acompanhar o mofo evoluindo em seu trono, subindo até seu manto. Como ele não tinha filhos ninguém se sentaria em seu lugar, logo ele conseguia ver os fungos consumindo mesmo seu cetro em todos seus detalhes de ouro.

Só na última semana três bobos da corte, contrariando qualquer exemplo de benevolência, foram executados com sacos de risada amarrados na cabeça. O rei não tolerava piadas sobre nacionalidades, religiões, homossexualidade e – obviamente – políticas centralizadoras. Como os bobos sindicalizados seguiam a cartilha desenvolvida pelos antigos truões em épocas mais prodigiosas, o repertório se esgotara.

Qualquer possibilidade de entretenimento fora de seus domínios era ridicularizada pelo próprio rei. Uma vez que o esporte mais praticado em suas terras era uma variação mais lenta e complicada da bocha, a culpa não poderia ser jogada toda em suas costas. Há alguns anos seus mensageiros, que viajavam divulgando seu glorioso reino, voltaram com um revolucionário jogo que exigia apenas pouco mais de vinte pessoas e uma bola. O monarca vetou veementemente qualquer tipo de propalação sobre um jogo que utilizasse apenas uma única bola. E isso foi culpa toda dele.

Os cozinheiros e copeiros que se aventuravam a alegrar a rotina do rei pelo estômago também não tinham vida fácil. Depois de quilos de receitas internacionais despejadas no lixo, de infindáveis testes de ingredientes, de meses visitando os mais obscuros mercadões dentro dos limites do território e além, a equipe gastronômica decidiu apelar. Passaram noites em claro pesquisando novas técnicas e cursos de aprimoramento na internet. De nada adiantou. O imperador sempre pedia frango com pele acompanhado de salada verde, arroz e batatas sauté. Duas bananas de sobremesa.

Com o passar do tempo o rei continuava incrivelmente entediado e o distante reino decidiu fazer alguma coisa. Mas o que oferecer a um rei, que ele já não tenha? Que experiência proporcionar, que ele já não tenha usufruído?, questionavam corte, povo, bobos não-sindicalizados (os únicos que restaram) e meros peregrinos. Depois de muito pensar, não se sabe ao certo quem falou – Que tal música?

A idéia, a princípio ridícula e absurda, passou a ser esperança quando fontes próximas revelaram que o conhecimento musical do desgastado monarca se limitava a uma apresentação de caráter singular: um duelo de menestréis dois no fagote contra dois na tuba.

Toda jurisdição começou então a buscar pelo que cada pessoa considerava a melhor música do império. No final da seleção, tomada pela esbórnia e por escolhas passionais, os envolvidos não conseguiram chegar a uma conclusão. A dúvida e a angústia eram inversamente proporcionais ao tempo que restava para o rei se enfastiar até de respirar.

Ao final de um conclave disputadíssimo um grupo foi selecionado pelo voto público. Aclamado como uma das grandes novidades pelos bardos do interior, que trabalharam pesado na boca de urna. Criticado pelos conservadores locais, sob o argumento de que Chopin e Lizst seriam a iniciação ideal para alguém com a posição social do imperador.

Já em cima do palco montado na ponte levadiça, durante duas horas o grupo tocou o melhor que podia. Os críticos mudaram de opinião, os adoradores foram aos prantos de emoção. Só uma pessoa não se levantou para aplaudir. O rei.

O legista da corte informou que a morte do benevolente imperador ocorreu dois minutos após as primeiras notas saírem dos amplificadores do grupo. Ataque cardíaco fulminante, conseqüência de um choque emocional agudo. Informou também que o sorriso estampado em seu rosto inerte era o mais sincero de toda sua vida.

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Macaco Bong – ao vivo – Novidade soando como novidade para os ouvidos. Nos dias de hoje, algo raro como rock instrumental.

P.S. – o link leva ao único álbum da banda, Artista Igual Pedreiro, que ainda não existia na época em que o conto foi escrito. Você precisa se cadastrar no site para baixar.

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