Ele abriu o guarda-roupa. Em meio a tantas calças jeans, camisetas, jaquetas e roupas do dia-a-dia, separou um paletó bege de lã fria. Achou a melhor opção entre um terno preto, extremamente sério para esse momento de alegria, a fantasia de papagaio e o quimono de judô. Mais discreto, sem ser conservador. Hoje o equilíbrio entre discrissão e carisma seria fudamental.
Ontem mesmo, no parque de diversões a fantasia de papagaio tinha funcionado maravilhosamente bem. Enquanto colocava a gravata, o homem sorria lembrando-se da cena. A pobre coitada da vítima; sentado no banco, pálpebras fechadas, igual a maioria dos avôs depois de um almoço digno de avós, parecia perturbada, como se estivesse aproveitando o último dia de sua vida.
Mas isso foi ontem. O mês andava turbulento. Os negócios tomavam boa parte de seu tempo para ficar se apegando ao passado, mesmo que recente. A corrupção contribuia, e muito, para o bom andamento do negócio. Só este mês já visitara Jaders, um Orestes, Severinos e Josés.
Ficara particularmente orgulhoso do trabalho desenvolvido junto à Antonio Carlos. Houve ali uma grande imerssão. Ele se aproximou dos seus maiores imediatos, pôde descobrir detalhes que o ajudaram muito. O Painho merecia todo seu respeito e cuidado. Um erro e ele estaria condenado ao esquecimento. Sua carreira escoaria pelo ralo no melhor estilo Hitchcockiano.
Mas a perfeição e o grau de dificuldade do serviço realizado valorizaram seu passe. O mercado concorrente o temia. Tinha pesadelos com a possibilidade de encontrá-lo numa disputa. O mercado que contava com seu talento natural sorria por cada centavo investido. E eram muitos.
A reunião de hoje seria com pessoa ilustre e influente. Talvez, o grande salto da sua carreira, já meteórica, no grande centro econômico do Brasil. Paulo aguardaria uma pessoa com o nome de Dalila em um dos melhores restaurantes de São Paulo. Ele adorava causar surpresas e se empenhava para tal. Dalila tinha até número de registro. As suas surpresas por vezes chocavam, é verdade. Por exemplo um ex-presidente, caçador de marajás e carateca exímio, morreu de medo ao encontrá-lo vestido de atirador de facas de circo.
O terno bege estava impecável. A gravata feita com um Windsor Duplo realçava seu pescoço esguio e combinava perfeitamente com seus óculos escuros, circulares e não totalmente pretos. Satisfeito com o que via no espelho, dirigiu-se ao escritório e preparou sua maleta. Ela era mais larga, um pouco maior e da mesma forma de uma maleta executiva normal. Elegante, mas ainda assim, normal.
Checou se tudo estava no seu devido lugar. Considerava essa hora importantíssima. Uma falha e todo o projeto ruiría como a Torre de Babel. Importante manter-se atento às referências bíblicas. Paulo é costumaz freqüentador de cerimônias dominicais.
Pegou o carro e em pouco tempo estava estacionado a três quadras do local marcado. Gostava de parar sempre um pouco distante. Fazia uma última preparação mental de tudo que estava por vir, andava um pouco, analisava o ambiente. Nunca havia falhado, porque mudar. No encontro com Orestes chegara de ônibus e saíra andando, frente a olhares desnorteados que olhavam para o ocorrido procurando uma explicação.
Entrou em um suntuoso prédio e subiu direto para a cobertura. O sigilo do local era fundamental para que o negócio se concluísse sem estorvo. Da cobertura completamente vazia, olhou para o prédio em frente. Paulo estava lá, a uma rua de distância, esperando por Dalila. “Velhinho safado”, pensou. Posicionou-se e calmamente abriu sua maleta. Tirou cada parte de seu rifle Heckler & Koch PSG1 e o montou com todo o cuidado. Colocou a mira telescópica e manipulou cuidadosamente uma única bala, a beijou e colocou no cano. “Seu destino é certo, Dalila. Na mão de muitos homens passarás. Não desvendarão o seu passado, e mesmo assim, entrarás para a história.”
Enquanto saía do suntuoso prédio pessoas passavam gritando. Sirenes já se ouviam, ainda que distantes, e o homem, em seu terno bege impecável, andava e pensava consigo mesmo que amanhã, parte do obituário estará na primeira página dos jornais.

Steely Dan – Pretzel Logic. Um duo que se veste do que for necessário para passar sua mensagem. E sempre consegue.