Não havia como não lembrar dos momentos da minha infância querida enquanto dirigia até a casa de meu avô. Fazia vinte e seis anos que não vinha para cá. E ainda assim consegui fazer o mapa para os convidados de cabeça. Foi tão fácil. As estradas bem pavimentadas ainda não chegaram por aqui, mas isso era só o começo da diversão. Entrando na bifurcação à esquerda, na BR-452, um pouco antes de Araporã, como sempre foi, segue-se uns quinze quilômetros em estrada de terra batida. Da última vez aqui, só conseguia acompanhar as árvores que passavam pela janela do banco de trás do carro. A cada tronco a madeira se aproximava do cerrado, ficando sempre mais retorcida. O calor característico da região Centro-Oeste surgia, naquele espaço de terra, estranhamente abafado, tamanha a umidade. Isso não havia mudado em nada.
Quase chegando no cabedal, eu lembrava, havia um pequeno estabelecimento de tijolos com o reboque mal acabado onde viviam Seu Zé e Dona Yolanda. Os rejuntes, mais de duas décadas depois, também não haviam mudado uma poeira de seu acabamento mambembe. Fiz questão de descer do carro para ver bem de perto. Parecia artisticamente cavocado, como um condomínio de barbeiros, insandecidos para transmitir Doença de Chagas aos seres humanos desavisados que insistiam em dormir à noite. Para o azar dos artrópodes, o único ser humano que vivia perto, além dos moradores do secos e molhados, era meu avô. Os primeiros, contam os causos, tinham gerado imunidade à enfermidade depois de fazer oferenda na encruzilhada da mata. Meu avô quando nos deixou não foi por conta da deficiência descoberta pelo doutor Carlos. De qualquer maneira, com barbeiro ou sem, era aqui o lugar mais próximo para comprar qualquer coisa que faltasse no festejo.
A porteira do terreno continuava a mesma, só as dobradiças que estavam podres. A madeira escura adquirira um tom esverdeado de musgo. As poucas partes de madeira nova pareciam raspadas por algo bem afiado. A placa com o letreiro havia desaparecido, mas estava no meu mapa. Aquele caminho escancarado por ervas-daninhas e folhas combinava bem com a floresta um pouco mais fechado da área. Dava a impressão que ninguém morava naquele local. E realmente, ninguém morava ali. Tanto que a primeira medida que tomei depois de deixar a mala em casa foi procurar uma caixa de ferramentas para consertar as dobradiças e logo em seguida fiz uma plaquinha. Quem ou o que quer que passe pela entrada deve ter certeza que alguém está aqui de novo. Mesmo que só por um ensejo. Mesmo que sem os olhos cor de mel de meu avô. Ainda que prevalecesse a ausência dos maneirismos do campo.
Porteira em seu devido lugar, placa firmada para guiar os hóspedes, agora era só esperar. Tenho tempo suficiente para andar pelo pomar, nadar no rio e lembrar como as coisas funcionavam por aqui. Nessa época do ano as ameixas e as pêras devem estar ótimas. As amoras um pouco passadas e já castigadas pela quentura que fazia suar uma pedra. De qualquer maneira, essas visitas podem ser feitas amanhã pela manhã e à tarde. Com a noite chegando eu lembro só de uma coisa: de que os adultos nunca deixavam a gente ficar para fora depois que escurecesse. Claro que isso tinha um motivo. Só o vovô ficava para fora, na varanda de madeira rangente. Ele, essa mesma cadeira de balanço, que parece ter se encaixado muito bem nas minhas costas, sua carabina e seu cigarro de palha. E a noite sussurrava tranqüila. Quando acordávamos, levávamos alguns minutos para abrir todos os cadeados e trancas da porta. Depois, era sair na varanda e esperar alguns trinados de juriti que o avoengo já despontava com uma caça recentemente abatida para o almoço. Por vezes ele aparecia um pouco machucado, mas nesses casos ele sempre falava “Pelo menos eu não fiquei no estado dessa aqui”, e levantava a preia com um dos braços cheio de velhas cicatrizes e novos cortes de onde ainda escorria sangue quente.
Boas memórias para um lugar sem eletricidade. Vou entrar para não acabar com todo o gás do lampião. Amanhã compro mais, as pessoas vão precisar para a festa. Boa noite.
—————————-X—————————
As madrugadas aqui não costumavam ser tão quietas. As casas mais próximas ficavam bem distantes, mas o terreno era rodeado por grandes propriedades que criavam os mais variados cortes de quatro patas. Bois, ovelhas, cabritos, porcos e tinha até um doidivanas que cercou parte do rio para começar uma criação de jacarés. Talvez por ter uma audição melhor quando era criança, costumava ouvir mugidos, balidos e grunhidos diversos. Até a população de corujas parece ter reduzido. Meu avô sempre disse que havia cachorros do mato pelas redondezas. Mas precisaria de uma superpopulação deles para acabar com tudo que existia nas cercanias. E mais, uma matilha esfomeada dificilmente passaria desapercebida. Não creio que meus convidados reclamem de um pouco de silêncio, mas voltando à cidade vou atrás de uma audiometria.
O pomar se encontrava quase como imaginei. Com alguns frutos, mas fraco. Calculando que há duas décadas ninguém cuida dele, o número de ervas daninhas por metro quadrado é até bem reduzido. A foice me ajudou a compor o cenário de “quadro sobre a seca nordestina com tons de verde” e a eliminar as plantas que estavam prejudicando uma safra boa de vegetais que podem alimentar alguns morcegos daqui umas semanas. Alguns poucos insetos sempre chegavam mais perto, piniquentos e curiosos, mas não percebi o menor sinal de um animal um pouco maior. Sempre que imaginava ter visto um gambá ou um cervo eu me virava bem astuto, mas só via alguma coisa que parecia um vulto. Agradecia por não ser noite e continuava com a capinagem. Depois de umas quatro vezes com a mesma sensação, achei que já tinha abusado do meu instinto urbano e resolvi retornar para a casa antes que surpresa pior se sucedesse. No meio do caminho enchi um saco de batatas com gravetos e pensei que nunca tinha acendido um forno a lenha na vida, mas que não poderia ser muito complicado.
Para tornar a tarefa mais fácil, resolvi não limpar a velha carabina e caçar um animal aparentemente inexistente hoje em dia nas vizinhanças, mas sim ir até o casebre com tijolos capemingas descobrir se existe um jeito de comprar uma carne ou se hoje viveria de pinga para comemorar o retorno ao pé no chão e ao banho de rio sem xampu. Depois de uns quarenta minutos andando pela estradinha, conseguindo desviar de todos os formigueiros escondidos embaixo de folhas e das maiores aranhas, cheguei ao lugar. Ele abria da hora que o Seu Zé acordasse até a hora que a sede chegasse à garganta do caboclo. Pelo pigarro que ele desprendeu logo quando entrei já percebi que teria pouco tempo. Mais de vinte anos tinham se passado. Ele estava mais velho e menos paciente. Apresentei-me, pedi um frango e Seu Zé gritou “Mulher, uma bicuda pru neto do Lino. Tira as pena e deixa as parte já cortada qui o minino é da cidade”. Achei que tinha me dado muito bem contra o matagal e no conserto da porteira, mas não fiz objeção alguma a um mínimo de comodidade. Depois de esbravejar contra a marida, Seu Zé me empurrou para a área de trás onde ficava o abate e Dona Yolanda, avisando que estava na hora de baixar as portas. A garrafa etílica seria aberta daqui a pouco no Seu Chico, vizinho de Seu Janino. O Sol começava a baixar, Dona Yolanda mandou me apressar enquanto conjurava o último terço do dia. Cheguei em casa com os vaga-lumes começando a aparecer no ponto que o verde da floresta já está negro. O forno a lenha, depois de um quarto de hora, estava com o que pode ser considerado o fogo baixo dos fogões modernos de acendimento automático. Em pouco tempo o frango de panela, o arroz e as batatas estavam prontos.
É bom acabar de comer e não ter que ouvir a voz de um âncora de jornal proferindo uma notícia fria. Aliás, não estar ouvindo nada me incentiva a fazer uma coisa: ficar na cadeira de balanço à noite. Posso até pegar a carabina. Só para dar um clima. O cigarro de palha já está torcido. Durante a noite parece que a cadeira fica ainda mais confortável, provavelmente devido aos rangidos que embalam as árvores sem vento, como se estivessem na tela da televisão só que formada pelo parapeito, vigas e teto da varanda. Um momento emoldurado do silêncio, estampado em um canson tamanho Ainfinito de gramatura realidade. Talvez prestando muita atenção eu consiga ouvir algo. Opa, um pio. Silêncio. Outro pio e um corte seco deixando o canto um pouco estranho demais para qualquer ave. Um filhotinho de coruja-do-mato que na ausência da mãe tentou voar e se deu mal, provavelmente. Mas apertando bem os olhos por entre a fumaça exalada acho que consigo ouvir porque o cantador noturno se deu mal. Vim o suficiente aqui na minha infância para saber que esse não é o barulho de um pequeno galho podre caindo. Superstição é uma tolice. Superstição não existe. O que eu vejo é bem real. E grande demais para eu ficar do lado de fora sem trabuco armado. Espero que dê tempo de passar todos os cadeados.
Deu.
—————————–X——————————
Essa última noite não foi tão silenciosa. Talvez por pura força da imaginação, fruto da curiosidade mórbida, ouvi passos, ruídos, ululados, a voz de meus pais e os gritos dos meus tios, arrependidos por não terem colocado a casa abaixo quando tiveram a chance. Chequei a porta por uma dezena de vezes para ter certeza de que ela estava bem trancafiada. Não consegui dormir pensando na última vez que meu avô teve pescaria. Tinha marcado saída para quando aparecesse a terceira estrela. Demorava a noite toda de barco até chegar ao Rio Meia Ponte. Era noite de lua azul e apesar do atraso na saída, não quis fazer guarda de sua cadeira, mira em punho. Coincidentemente foi o dia em que ficamos um pouco mais para fora – contra ordens, claro – olhando para o céu, e na pressa de voltar para dentro, foi também a última vez que uma das travas não foi bem fechada. Da família, sobramos o primo Fábio e eu. vovô Lino nunca foi achado. Nós, os netos, sempre soubemos que vô Lino vigiava seu território contra alguma coisa, a gente só não sabia o que. Acreditamos também que sua pescaria de vários dias pressupunha nossa segurança. Demoramos quarenta e oito horas para ter coragem de sair da casa. Eu fiquei quase todo o tempo de olhos fechados. Na única vez que falamos sobre o assunto, Fábio me disse que a gente foi arrancado da vivenda pelo cheiro fétido de decomposição, pelo gosto de ferro na boca, não por um rompante de coragem. Tomou-nos mais um dia até conseguir uma carona até Belo Horizonte. Eu tinha quatro anos, meus primo, nove. Não fomos muito bem recebidos na cidade. Depois de uma semana a polícia apareceu na casa de meu avô, encontrou os corpos e levou um amigo da família, o Joel, para fazer reconhecimento. Ele deu por nossa falta. Fomos encontrados na rua e acabamos criados por ele e pela Aninha. Eu nunca consegui chamá-los de pais, apesar de considerá-los como tais, mas isso não impediu que eles fizessem um escândalo anteontem quando eu disse que vinha para cá pensando em organizar um folguedo.
Acho pouco provável, mas se tivessem me visto essa manhã consertando o telhado da casa, talvez a imagem das paredes tingidas de carmesim que eles têm daqui desapareceria, ficando apenas uma janela para quadros dos bons momentos. Do alto do telhado eu podia ver melhor a divisão do terreno. Para trás da casa ficava o caminho que levava até o rio. Ele era bem definido, o pomar acompanhava essa trilha e tinha as demarcações das árvores bem precisas: maçãs, pêras, ameixas, amoras, jacas, pitangas e mangas. Depois disso, vindo desde o outro lado da margem, cercando o pomar, chegando até a parte da frente da casa e seguindo até perder de vista, uma flora rica, nativa e bem fechada, daquelas que você não consegue ver um palmo adiante, nem em noite de lua alta, quiçá nem com sol a pino. Ainda assim, noite passada eu sabia que tinha alguma coisa lá. Estava impossível de ver, da mesma maneira que era impossível não ouvir o zumbido irritante e intermitente dos insetos se silenciando. Os agudos mais distantes se distanciavam primeiro e voltavam aos ouvidos assim que os agudos mais próximos se calavam, incessantemente, metro a metro, como se algo nunca visto antes chegasse aos portais de uma pequena cidade do interior e todos ficassem estupefatos, de queixo desmantelado enquanto uma deformidade desfilava de ponta a ponta da avenida principal. Aqueles que colocaram reparo na bizarrice primeiro se recuperavam enquanto quem esperou no fim da avenida ainda estava para ficar atônito. Em uma mata tão densa é possível que o silêncio adquira uma forma física. E ele não poderia ser diferente, do que eu ouvi. Um silêncio eterno e galopante. Aterrador e fascinante. Não acho que meus hóspedes vão gostar dessa sensação, por isso deixo tudo preparado, tentando compensar o incômodo com extrema comodidade.
Por mais moldado que eu esteja na cadeira de balanço, não quero ressonar. Carabina com dois projéteis em punhos. Cigarro apagado. Não posso dispersar e olhar para o fósforo. A floresta já está naturalmente quieta. Ele está chegando. Os poucos coaxados que resistem são interrompidos no meio com uma agonia que, mesmo sem ver o batráquio, é possível senti-la por um som de dor que atravessa a pele e segue até o começo do estômago. Ainda bem que comi pouco. Quero ligar para o meu primo, mesmo sendo idiota distrair-me com uma ligação. Tenho que perceber onde as cigarras interrompem seu estrilado primeiro, onde os gafanhotos desziziam, preciso saber por onde está vindo o que eu vou enfrentar. Qualquer orientação para que pelo menos um dos dois tiros aleije o alvo. Na cidade nossos instintos vão se perdendo dentro de janelas com isolamento acústico. Uma sensação de vazio pós-estimulante, de estar entregue nas mãos de algo que não se sabe o fim. Até a garganta está fechando. Lá vem, à esquerda.
A silhueta estrambótica torna impraticável distinguir o que está saindo do vagalhão verde. Mas é mais escuro que a última árvore visível da floresta. Como se toda a mata fosse um caixilho de marfim para um quadro da demonstração do terror. As únicas coisas que brilhavam eram seus dentes e a pouca luz da lua, refletindo em sua saliva. Não havia pressa em seu semblante, mas não deixava de existir velocidade desproporcional a qualquer coisa que eu ouvi falar. Suas patas eram do tamanho de frigideiras e na boca caberia facilmente uma criança de três anos em pé. As pernas, muito machucadas e cheias de cicatrizes provam que nem todos respeitaram seu porte e força, mas que ninguém ainda conseguiu justificar essa desfeita. Para mim, só me resta puxar o gatilho. Erro o primeiro tiro por muito. Conforme a monstruosidade vai chegando perto, armo o martelo para disparar o segundo tiro. Miro bem no meio de seus olhos cor de mel, mas é impossível fazê-lo. Eu não posso atirar em quem está voltando depois de tão longa pescaria, nem que seja para minha cabeça ser estraçalhada com uma única mordida. Meus convidados devem chegar a qualquer minuto. Um tiro para o alto, que comece a festa. Ela tem tudo para ser memorável.

Alberta Cross – The Thief & The Heartbreaker. O clima rural para que você consiga aproveitar sua chácara, sítio ou fazenda sem deixar as rimas fáceis do sertanejo invadir sua tranqüilidade.