Acenda um cigarro.
Sabe aqueles filmes em que ator e atriz principal e coadjuvantes fumam, fumam e fumam? E quando entra aquela cena de sexo que é completamente excitante? Mas, de repente, você não fica com tanta vontade de fazer sexo, e sim de fumar o cigarro pós-coito, que a câmera estática centralizou e deixou o trago ser mais forte que qualquer diálogo.
Se você fuma, você sabe. Se não fuma, essa estória não é feita para você, como você pôde perceber na primeira linha. O cigarro faz parte do imaginário glamoroso que permeia o mundo das artes.
No cinema, um trago de James Dean fez um delicioso câncer portátil entrar pelas gargantas e pulmões de uma geração inteira. Na música ele foi companheiro fiel de compositores solitários, de rodas de samba e, coitado do roqueiro que ousasse não fumar. No dia seguinte seria tachado de bubblegum pop.
Na gastronomia, conhecimento culinário elevado à condição de arte, os franceses são tão bons porque aprendem desde os treze anos a mexer a panela e cortar ingredientes com uma mão enquanto levam o tabaco à boca com a outra.
Pode parecer anti-higiênico; mas só até ver a pessoa que você conheceu em um café na noite anterior, na casa dela, usando só as roupas de baixo; acender o fogão e o cigarro com o mesmo fósforo. Nesse momento, quando você já estiver completamente hipnotizado, ela vai caminhar até você, falando a língua mais instigante do universo conhecido e vai beijar, beijar forte, não apaixonadamente, mas de um jeito que você nunca vai esquecer.
Nesse dia você não vai lembrar da cor da roupa de baixo, mas vai lembrar além do beijo, do sexo, do cigarro pós-sexo que tem exatamente o gosto que você imaginou que teria o cigarro pós-sexo dos filmes, se não melhor, e vai lembrar do croque-monsieur que ela fez para você. Aquilo sim que é um misto-quente.

Mick Harvey – Intoxicated Man. Serge Gainsbourg pelo multiinstrumentista do Nick Cave & The Bad Seeds. Os cigarros que Serge adorava na língua de James Dean. Para ouvir, acenda um cigarro.