Desapontei muitas pessoas. Desconfiei de outros quando deveria ter desconfiado de mim. Rotulei indivíduos, julguei atitudes, manipulei conhecidos para chegar até onde queria. “Ponha-te de acordo, sem demora, com teu inimigo, enquanto estás atado a ele pelo caminho, para que não suceda que te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao carcereiro e seja posto na obscura enxovia. Em verdade te digo, que dali não sairás até que pagues o último xelim”. Só havia uma redenção para mim.
A pequena porta de entrada era pintada de azul cadete. As diversas camadas de tinta já tinham se desgastado e a textura, devido à garoa ininterrupta, paradoxalmente lembrava o solo do sertão, árido e resignado com seus anos vividos da maneira que lhe foi permitido, sem chance de mudança. O corredor de entrada era escuro como o interior de uma tumba selada e excretava variados tipos de fumaça, como uma neblina artifical escapando de um forno que incinerava os bons costumes. A névoa era aromatizada com tabaco na forma de cigarros industrializados e feitos à mão, metal do fundo de colheres queimando e um desconfortável odor de pele crestando na sala especial para cauterizações com ferro incandescente. Em noites que duram mais do que a noite propriamente dita, tudo pode acontecer. E quem entrava, não estava ali para sair e tomar meia dúzia de pontos no pronto-socorro.
Sobrevivendo a um possível acidente precoce em algum prego tetanificado, dentro de duas horas os olhos paravam de lacrimejar, criando uma resistência ao que normalmente é considerado tóxico, como se acionasse um parabrisa na retina. O palco parcamente alumiado acomodava os instrumentos básicos de uma banda, mais um piano de um quarto de cauda e uma mesa de discotecagem. As pesadas cortinas de um veludo verde-azulado estavam recolhidas, mas nunca se escondiam por completo. Continuando de cada lado do palco um grande balcão guarnecia o espaço e servia de bar, porém só o lado direito tinha bancos. Do lado de dentro do balção não havia luz, nem sinal de movimento, mas chegando perto e pedindo qualquer coisa etílica você era atendido, hora por um sarraceno, hora pelos seios de uma stripper que para ser considerada apenas decadente precisaria de anos de academia e vida regrada. Entre os balcões, a pista, com poucas pessoas desinibidas, dançando sem ritmo, sem coordenação e sem pudor. Passando a pista, uma grande área envolta em breu, uma quase completa ausência de luz. Em algum lugar ali se encontrava o banheiro. Sua porta, apesar de espelhada, não ficava nada aparente, precisando sempre ser encontrada com o tato. No pouco que restava do ambiente se alojava a mesa de som, dois puffs coloridos, surrados e sem enchimento e a sala de operações.
Mesmo completamente fechado um vento algente invadia o local e qualquer ébrio poderia dizer que não era de uma central de ar-condicionado. Ele passava por frestas, por rachaduras minúsculas, por buracos hitoricamente cavocados pelas foices fora de contexto que agora ornavam as paredes e pelo hálito de absinto e akvavit de quem usava as bebidas como Listerine. Os casacos ficavam amontoados em um canto e era sensato imaginar que na saída tudo que você precisava era de um pouco de sorte para escolher algum que fosse do seu tamanho. As luzes, diferente do que se imagina em um clube, não ficavam estroboscopiando a todo milisegundo. Elas quase não existiam. As poucas que ficavam ligadas eram coloridas e fracas o suficiente para refletir apenas os copos mais próximos e as lantejoulas multicoloridas espalhadas pelo chão. O ambiente de cauterização, usado também como estúdio de branding, mantinha um abajur com uma lâmpada branca, e por isso mesmo a porta mantinha-se sempre fechada. Minhas costas ainda estavam se acostumando com a marca deixada pelo ferro quente há um mês. Na ocasião saí carregado pela banda, sobre o case do baixo. Em meio a essa enxurrada de informações, o mais impressionante mesmo era o teto. Feito de vidro, entre ele e o forro superior existia um ecossistema composto de um solo seco, uma parca vegetação composta de arbustos e árvores do cerrado, ayes-ayes biomodificados, com grandes caninos e pernas fortes como a de rãs, mini-camelos do tamanho de gatos e um monstro-de-gila. De baixo, por meio de uma estrutura bem pensada de espelhos podíamos ver tudo que acontecia na ecobertura do belzebu. Enquanto as pessoas observavam os animais, pensando em qual pereceria caso a fome apertasse, eu pensava em ir ao banheiro. Precisava me confessar antes de enfrentar a noite.
Encontrei a porta espelhada e ganhei um corte no indicador. Alguém deve ter achado que um espelho estilhaçado combinava com a decoração. O lado do meu dedo jorrava sangue. Amaldiçoei o filho da puta com palavrões leves e entrei no banheiro. A pia com a torneira enferrujada ficava ao fundo. No caminho até ela, seis cabines, cada qual um evento à parte como um grande peep show no modo shuffle. Na primeira delas a porta aberta mostrava mais do que as pernas finas de uma mulher escorada na privada com os cotovelos. Com uma das mãos ela segurava o longo cabelo castanho, com a outra buscava mais uma base de apoio na borda do vaso. Muitas doses de substâncias ilícitas ou uma síndrome anoréxica a qualquer coisa que ela possa ter engolido. No segundo espaço a porta encostada era a prova de que, tirando a menina da primeira cabine, a maioria estava minimamente sã. Nenhuma porta tem tranca no lavatório. Depois de certa hora é impossível mantê-las fechadas como esta aqui. A terceira e a quarta cabine são, tradicionalmente, onde os clientes enchem seus narizes e veias de flagelos estimulantes, como se houvesse alguma pré-designação. Não à toa havia fila de espera. Tive que pedir licença para passar. A quinta porta encontrava-se fechada e estava quase explodindo com tantas pernas do lado de dentro. Era impossível imaginar que algo pudico estava acontecendo ali, ao mesmo tempo era absurdo pensar que alguém conseguia fazer muita coisa em tamanha densidade demográfica. Talvez essa seja a graça. “Vê, hoje coloquei a sua frente a vida e o bem, a morte e o mal”. Na sexta cabine um homem segurava com cuidado a cabeça de outro que vomitava sangue. O homem parecia bem preparado para as desventuras da vida. Seu terno propositalmente claro e o sapato de croma alemão destoavam do público. Os suspensórios denotavam o caráter sério e, provavelmente foi isso que me fez tomar-lhe por alguém prevenido. Perguntei se ele por algum acaso tinha alguma coisa contra cortes menores. Tomando-me por um amador qualquer ele estendeu um tubo de Super Bonder acompanhado de um olhar de desdém. Com o braço para cima deixei o sangue estancar, limpei a crosta formada e o que eu consegui de tudo que havia escorrido até os ombros. Espalhei a cola sobre o local e movimentei rapidamente o dedo para evitar que ficasse sem movimento. Depois esquentei a cola com um isqueiro para ela selar. Nada que o pronto-socorro não pudesse remendar da maneira apropriada, no momento apropriado.
Acendi um cigarro, devolvi a supercola e, amparado por um dos pés na parede de azulejos, esperei pacientemente a menina da primeira cabine terminar de expelir o pâncreas. Depois de uma grande pausa entre uma jorrada e outra ela me olhou e sugeriu que precisava de algo bem no fundo da garganta para conseguir vomitar algo que estava fazendo mal a ela. Mesmo aqui a proposta era baixa demais. Ofereci o cabo de um esfregão imundo que estava do meu lado, e ela olhando estrabicamente para todos os lugares respondeu com uma voz arrastada que o cabo era muito, muito duro e muito fino. Arrastei ela pelos tornozelos ossudos e a joguei dentro da quinta cabine. Ali ela conseguiria resolver o que quer que fosse. Ainda era cedo para filas em todas as portinholas do banheiro. Pude mijar sem nenhuma ninfomaníaca olhando para meu traseiro e coloquei uma lasca de diavol sobre a gengiva. O puro diavol é feito em Slobozia, Romênia, uma cidade que além de uma réplica no máximo esforçada da Torre Eiffel e do lago Amara não tem nada que valha o registro. Em resumo, a cidade é uma merda, o diavol, em contrapartida, é divino. Ele e o lago. O Amara é salgado, e rico em brometo, uma substância que até o início do século vinte era usada como sedativo. O que dizem no País é que uns trinta anos atrás Goculesco Stossel levou um pouco de Andryala levitomentosa – uma planta que só é encontrada nas montanhas Bistrita – e fez um chá com a água do lago antes de dormir. Sem saber que a água era salgada expeliu o líquido logo no primeiro gole e deixou a taça de madeira no chão. Ao acordar Goculesco viu que, em questão de horas, flores cresceram exatamente onde ele havia cuspido. Ainda sobre influência do antepassado do diavol, a conclusão óbvia que ele chegou foi que precisava desidratar o composto da erva embebida na água e comer. Goculesco fez dos restos vegetais seu almoço. Uma semana se passou, e quando a euforia baixou, só então ficou claro que as flores não existiam. O diavol era apenas muito forte. Na atual composição ainda são embutidos alguns químicos para inibir a fome e o sono, tudo na forma de pílula. A noite estava apenas começando.
Saí pela placa que indicava saída. Devido a um brilhantismo arquitetônico não era o mesmo local da entrada. O recinto estava um pouco mais abarrotado. Segui direto até o bar do lado direito sem responder as mãos que me puxavam para o centro da pista, sentei em um banco, pedi um gim tônica e ganhei a companhia de um rapaz de uns dois metros, cabelo bem curto que tinha os dentes cerrados. Sentados lado a lado ficamos ambos olhando para os ganchos de suspensão. As performances, com o perdão do trocadilho, haviam sido suspensas há uns cinco meses. Um gordinho estava na horizontal, a uns dois metros do chão, e as pessoas começaram a se dependurar nele até a pele não aguentar. O cara se esborrachou no chão, espalhando entranhas a esmo, um segundo antes da virada que o DJ estava preparando fazia dez minutos. Todos foliões congelaram, a música pronta para uma reentrada triunfal mantinha as pessoas no estado anestésico da matéria, o gordinho ainda estrebuchava quando os graves voltaram, como um torpedo de um submarino russo no ouvido de quem estava presente. No instante seguinte, que funcionou como um desfibrilador coletivo, já tinha gente vagueando com o intestino de colar e um osso da costela prendendo os cabelos.
O rapaz me perguntou se eu estava presente, referindo-se claramente à obesa performance. Respondi que sim e mostrei as botas marcadas pelo sangue impossível de ser retirado sem rasgar o couro do calçado. Lembrei que nessa oportunidade fui arrastado pela jaqueta até a sarjeta e apoiado educadamente no poste com um conhaque evasado em uma garrafa plástica nas mãos para me hidratar se necessário. Pelo menos era o que o bilhete do segurança relatava. O bípede continuou dizendo, nessas palavras, que “o balofinho era um altruísta. Todo rosadinho e sardentinho. Deu a vida para que pudéssemos ter uma das noites mais profundas da nossa existência.”
Eu podia jurar que o homenzarrão estava distorcendo os fatos quase em sua totalidade, mas achei melhor não discordar de alguém que chama um cara dilacerado de balofinho. Os meus olhos começavam a piscar em câmera lenta, por mais que eu estivesse com qualquer outra atividade involuntária em perfeita ordem. Virei para a parte interna do bar, joguei meu cartão de crédito para dentro e sussurrei a senha à atendente. Munido de álcool levantei para fazer um reconhecimento onírico do mesmo ambiente, que em poucos minutos estaria completamente diferente. No primeiro passo o monstro-de-gila entrou no meu caminho. Ele tinha uns oitenta centímetros e eu nunca soube que os animais desciam do terrário. Fui acompanhando o lento lagarto em sua missão. Ele ficava solto pela casa e assim que mordia alguém, a pessoa corria a implorar por um pico e injetava MDMA-alfa líquido diluído em placentóides. Mesmo no meu estado de percepção reduzido a reação das pessoas impressionava. Quase imediatamente elas se jogavam no chão áspero de madeira escura e continuavam dançando como se o eixo de referência delas tivesse mudado para as paredes.
Em uma hora o chão estava tomado de criaturas humanas se mexendo como se estivessem de pé. Elas giravam em seus ombros sem sentir dor, batiam os narizes, os joelhos, clavículas e cotovelos, se contorciam com a fúria de quem viveu uma vida de injustiças e estivesse finalmente com o motivo de seus fracassos amarrado em um berço de judas. Perplexo, continuava a encarar os bailarinos e suas juntas moles como de crianças. Eu estava hipnotizado pela cena como se olhasse o primeiro brócolis da minha vida. Entre dançatrizes e janotas não conseguia ver o olho cheio de fissura ou cerrados mirando o nirvana, o balanço do corpo mole tinha ficado nas raves de décadas atrás, o ar blasé chegava quando conveniente, mas na maioria do tempo todos se olhavam e faziam sexo com os cílios interdependentes de mais de vinte centímetros. Fui ao banheiro decidido que o sobejo do diavol daria um jeito na minha repentina e inesperada caretice. No caminho virei um brandy que havia ficado no balcão, provavelmente de algum eletrowalzertänzer de solo. Na verdade eu estava só torcendo para que houvesse alguma coisa na bebida. Não havia. Só um bom brandy.
A fila dos bóias-frias da degradação agora lutava por um espaço nos vasos. Se alguém quisesse urinar seria mais fácil fazer no lixo ou na parede. Isso claro, até alguém perceber que o lixo é de metal, é plano e está seco. Queria também lavar o rosto e me aproximei com algum esforço da pia. Chequei o estado do meu dedo – milagrosa cola que deve ter uns antioxidantes na composição – e abaixei a cabeça melancólico com o palco de tragédia concluída exposto na última cabine. Do lado direito da privada a menina de pernas fininhas, com o cabelo todo desfeito e desmaiada. Seu vestido já estava mais parecendo um trapo e sua cútis, hidratada desde cedo no leite de cabra vienense, já estava suja, com pedaços escuros de detritos embaixo das unhas e nas protuberâncias. “Alguns homens se esquecem de tudo, menos de serem ingratos”. Dentro da privada descansava um mini-camelo. Morto. Tirei meu canivete do bolso para cortar a corcova do bicho e extrair a cartilagem, em falta na feira de ilícitos da cidade desde o ano passado. Coloquei o diavol inteiro na boca para esvaziar a âmpola e apertei dentro do frasco a pequena bolsa de gordura. Mesmo que minha preocupação estivesse diluída em entorpecentes, torcia para que a menina não tivesse bebido da mesma água da privada que o falecido mamífero de laboratório. E para evitar que isso chegasse a acontecer coloquei ela sobre o ombro, lavei o rosto da sujeita e molhei algumas partes como o pescoço e os pulsos. Sair da pocilga por uma perfuração no rim seria ridículo, mas agora encontrava-me com uma situação potencialmente séria nas mãos. Passo com o estorvo, adotado em meio a uma crise de remorso, estribada nos ombros. Da saída do banheiro até a saída da casa, com o diavol potencializado, e em meio a infinitos e defectivos pas de deux horizontais, só consegui notar o lenço dourado de rakematiz amarrado no pulso combinando perfeitamente com um longo cabelo castanho claro. Tentei ralentar o passo, mas invariavelmente tomaria um rabo-de-arraia, pensei em fazer uma curva mas podia sentir os orgãos da menina desacordada palpitando em minha escápula esquerda, clamando por ar puro. O rosto abaixado que eu procurava ver usava os cabelos como um escudo de sombras impenetrável. Só pude ver uma taça, cheia até a metade, de uma simples cerveja acomodada nas mãos bem desenhadas. Ressentido com minha nobre atitude, coloquei os óculos escuros antes de sair. Não queria saber exatamente que horas eram. Tomei um táxi que me parecia ter o formato de um estegossauro e disse: “Chofer, rumo ao hospital deste burgo. Antes, passe na Feira do Rajastão”. Ele me olhou estranho e fui obrigado a apontar o estado da rapariga para que a necessidade de urgência fosse sentida.
Na feira não me extendi mais que cinco minutos. Consegui um bom preço na corcova do sedento camelinho. Assim que chegamos ao hospital a enfermeira arregalou os olhos e fez um carnaval tão grandiloquente para conseguir um quarto imediatamente que deixaria a Sapucaí parecida com um stand up de carrapatos, por mais divertido que isso pareça. Acompanhei a ébria em sua maca suando frio com a assepsia da instituição. Já no quarto algumas máquinas começaram a chegar e perguntaram se eu tinha alguma relação com o traste. Me limitei a responder que era eu quem a havia trazido. Com essa resposta não me permitiram ficar durante o procedimento, aparentemente seríssimo. Decidi aguardar na sala de espera. Se o estado da coisa era grave fiz bem em trazê-la. Quatro horas depois um médico me acordou do meu cochilo. Arrumei os óculos escuros e me aprumei para ouvir o pior. Mas o pior fora evitado em tempo. Eu já não tinha mais nada para fazer ali. E, sinceramente, tinha pressa.
Parti quase trôpego pelas luzes que driblavam as lentes dos óculos e não ornavam em nada com a dinâmica do diavol. “O desejo liga o que não existe ao existente, o impossível a você”. Dois quilômetros que separavam a alcova do hospital pareceram duas maratonas dentro das condições normais de temperatura e pressão narcóticas. As pernas estavam pesadas e eu só pensava em encostar no balcão do bar. É bem verdade que não pensava só nisso, mas também nisso. Novamente a frente da porta azul cadete, respirei fundo antes de adentrar mais uma vez à romaria do torpor. Pelos meus cálculos eu me encontrava mais ou menos na quinta estação, das nove possíveis. Levantei a perna para o passo derradeiro, porém antes do meu pé tocar o chão peçonhento, uma mão me segurou pelos ombros. O segurança do local, pequeno para os padrões de quem trabalha no ramo, magro e com cara de que há pouco tempo era ele quem saía retirado do local pelo seu predescessor. Mal se notava o sujeito durante à noite. Como uniforme vestia uma toga preta e asas falsas de penas de mutum com corvo.
- São reais? As penas?
Ele respondeu que sim e que a carne do corvo, especificamente, se transforma em um guizado muito bom. Era uma informação um pouco nojenta, mas dei o benefício do passaporte ao segurança travestido de porta bandeira. De onde ele veio o corvo pode ser uma iguaria ímpar. Olhei para dentro do recinto e em seguida para o marmanjo, como se dizendo, “E então? Posso?” e ele balançou a cabeça negativamente. Respirei fundo como um Zebu, então execrei e blasfemei contra aquela imbecil que claramente não sabia onde estava e nem quem a levara até o leito. Expliquei calmamente que precisava encontrar um rakematiz dourado.
- E que mais? – o segurança insistiu.
Disse que precisava encontrar um rosto desconhecido, um ombro desnudo que terminava sua linha em finos dedos na borda de uma taça, um nariz diferente e um olhar por baixo dos cabelos.
- Aaah – exclamou com onipresença. Rakematiz dourado no pulso? Seria isso?
Minhas sobrancelhas responderam com um sim beirando a aflição. Seguiu-se uma cara de desalento por parte do senhor fantasiado. E ele continuou.
- Ainda está aí dentro, mas, infelizmente, sua noite terminou. Você já cumpriu com o que era determinado que fizesse.
Sentei-me com as costas no poste o qual já me servira de colchão e mais uma vez baixei a cabeça desconsolado.
- Você tem ao menos alguma coisa para beber? – perguntei para a fantasia de anjo das trevas.
- Da cerveja ao brennivín, mais barato que lá dentro.
O preço da casa era bem razoável, mas consegui abrir um sorriso com a informação. Fui de brennivín. Não é em todo lugar que se encontra essa jóia. Conforme as horas corriam os sobreviventes da babel saíam aliviados. E cada vez que a porta abria a conversa entre mim e o empenado era brindada com uma pausa. Mas nada do rakematiz reluzente.
Um dia de bebida foi consumido, até que a penúltima pessoa passou pelo portal, fazendo o caminho de volta do pós-mortis autoinduzido. O homem passou por nós com uma impressionante energia, fitou o rosto de cada um, fez um sinal de reverência e saiu sorrindo. E o segurança se dirigiu a mim.
- Pode entrar agora.
Olhei surpreso para a figura e não pensei duas vezes para aceitar a permissão. Só havia uma pessoa ainda andando pelo espaço. Os animais do terrário se encontravam em seu lugar de origem, dormindo, aparentemente. A menina do rakematiz desfilava com passos lentos e largos, apoiando-se primeiro na ponta dos pés, como em um bailado. A taça ainda em mãos entrava em conflito com o andar linear e sem claudicâncias. Com um pouco da luz que exorcisava a atmosfera interna, os cabelos lisos formavam uma moldura que lembrava hora ouro envelhecido, hora um ipê amarelo em dia de sol. Não estava alheia ao que acontecia. Só estava sozinha. E ficava bem assim. Seus dedos longos levaram até a boca um último gole. O vidro e o líquido ajudavam a marcar ainda mais seu nariz, ligeiramente maior do que é considerado belo. Eu não conseguia tirar os olhos dele. Ao arrumar o cabelo com a mão ornada pelo tecido dourado seus olhos perceberam minha fascinação a deixando envergonhada. Aproximamo-nos devagar, tomei a taça vazia de sua mão bem devagar e joguei para trás do balcão. Não ouvimos nenhum grito, tampouco o som de vidro estilhaçando. Entrelaçando os dedos ficamos a distância de uma folha de papel vista de perfil. Ela respirou profundamente ao encostar o nariz em meu peito e acomodou a cabeça acompanhada de um sorriso que só pude sentir. Com as portas abertas o reduto não era mais que uma sala empoeirada e ainda assim não havia melhor lugar no mundo. Mais um dia se passou quando finalmente fomos interrompidos de nosso estado hipnótico. Era o aviso que precisávamos sair. Não era permitido contaminar o recôncavo. Atravessamos o corredor e não encontramos ninguém reminiscente do lado de fora. Fechamos a porta azul cadete empurrando cada um de um lado. Assim que a fechadura encontrou seu espaço a tranca correu por dentro automaticamente, e a calçada nos recebeu com sua selvageria urbana. Grudados, trocávamos carinhos estáticos, como impulsos subcutâneos, como olhares de pálpebras fechadas, falávamos confidências sem abrir a boca e ela também descobriu que sua noite havia terminado. Já sabíamos que nossos caminhos eram opostos. Choramos sorrindo, sem derrubar uma lágrima e cada um rumou para seu Norte, olhando para trás somente uma vez, mas por tanto tempo, tão longamente, que assim ficamos, estátuas e efígies, como flores mirando, cada qual seu Sol.
Jeff Buckley – Sketches for My Sweetheart the Drunk. Álbum póstumo do filho de Tim, que combina peso e delicadeza como poucas vezes o rock pode presenciar.
