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TERCEIRA CHANCE

maio 2, 2007

São três horas da manhã. Acabei de completar cento e oito horas acordado. Sabia que algumas pessoas já tinham ficado assim, mas eu achei que estava imune, que comigo isso não aconteceria. É, de fato, uma insanidade. No sentido literal da palavra.

Ainda que a insônia fosse todo o problema do momento, ela é apenas mais um dos sintomas que não consigo ignorar (nem meus chefes, que já me recomendaram um psicólogo no mesmo andar do RH). Os outros sintomas, como a falta de apetite, o desejo de ficar trancado em casa, a incrível resignação com que tento passar o dia e a noite, são bem piores. Sem planos e sem projetos. Bem comigo, que sempre pensei ser invulnerável a elas.

Não tenho certeza se alguém já disse isso, mas de todas as drogas, as mulheres são as mais viciantes. É muito provável que sim, devido à obviedade da afirmação. De qualquer maneira só posso concluir que a abstinência de uma mulher é torturante. É a pior parte.

O homem experimenta, gosta, rapidamente se envolve e de repente fica sem. Por alguma bobagem, alguma estupidez, sem motivo algum ou por trocá-la por outra droga (as mulheres invariavelmente culpam a cerveja, loira deliciosa e perpicaz, que aumenta a auto-estima masculina com poucos minutos de conversa). Assim, no mesmo tempo em que uma banda consegue cantar one, two three, four, uma mulher consegue te largar. Sem uma resposta, sem sequer uma pista de como proceder.

Você deve agir, fazer alguma coisa. Mas fazer o quê? Fazer como? Você pode esperar. Mas esperar até quando? Por quanto tempo consegue um homem ficar sem pensar em uma mulher? Por quanto tempo um homem vive sem uma paixão? Uma paixão que ele possa conversar, tocar, beijar e transar. Não um símbolo de time do esporte bretão. Uma paixão que tenha a pele macia e lábios desenhados de um jeito que só os maiores artistas conseguem copiar. Copiar, porque criar algo tão perfeito é impossível. Eu não sei dizer por quanto tempo isso é possível.

Mas quando esse tempo chega, ele vale toda espera. É incrível como de repente, com uma simples notícia, o homem percebe que todo seu sofrimento, toda angústia, não passava de uma bobagem adolescente já superada. Tudo bem que ele teve que esperar muito por isso, mas agora está tudo perfeito, como deveria estar.

Uma segunda chance de aproveitar uma dose de Soma e se embriagar em odores que não se encontram em nenhum outro lugar, a não ser naquela pessoa, naquele pescoço e naqueles cabelos. Uma delicadeza que só se sente naquelas mãos, naquela boca e naqueles seios. É tão perfeito que não pode ser real.

É tão perfeito que não é real. Porque no momento seguinte ela já está dizendo adeus. Cada vez mais rápida, cada vez mais dolorido. Como uma arma que antes de perfurar lentamente o coração, transpassa ouvidos, nariz e olhos, para que o homem só saiba que uma mulher está próxima ao sentir o toque de seus dedos. Uma lâmina que dilacera o interior, porém deixa a carcaça inteira, para que todos o vejam apodrecer e morrer, um pouco por dia.

E o homem, que não sabe como encontrá-la, espera. Aguarda por mais um segundo, que seja, de sua saliva e do sopro que sai de sua alma e transforma todas as sensações em uma catarse que só pode ser superada pelo torpor eterno.

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Arcade Fire – Funeral. Não existe uma banda como eles. Existem melhores e piores, mas não como eles.

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Arcade Fire – Neon Bible. Já estou sem comer e sem conseguir raciocinar esperando pelo próximo contato.

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