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ADORO ESSE TIPO

Junho 1, 2007

Uma bebida. Eu preciso de uma bebida. De preferência com uma comida junto.
Esse lugar parece ótimo. Lembra aquelas tabernas antigas.
Ah, é uma taberna antiga.
Sem grandes invenções, o pedido em uma taberna deve ser uma cerveja e uma irish soup.
Leitinho, mesmo de cabras-montesas, suquinhos, naturais ou de polpa e água são vistos com maus olhos.
Água com gás é seguido de expulsão com safanões morais.
Um lugar vazio ao lado. Ou, ou, quase vazio.
Uma jaqueta em cima do banco, um copo de vinho com uma marca de batom na altura  dos cotovelos.
Batom vermelho, elimina-se a irish soup.
Passos próximos.
Salto, definitivamente alto, elimina-se a cerveja.
Vinho? Destilado?
Água com açucar para controlar a ansiedade hipoglicêmica? Controle-se, você está em uma taberna.
Peça uma cerveja escura.
Não, uma red ale. Isso.

- Me vê uma red ale. Oi? Acabou? É, vou ver o que eu peço.

Bom, o lógico é pedir uma cerveja escura.
Mas calma.
Mulheres não costumam ser grandes apreciadoras de cerveja escura.
Talvez devesse pedir um vinho, ela se sentiria acolhida e atraída pela mesma bebida.
Mas se ela for uma das poucas apreciadoras de cerveja escura? Que chance estarei perdendo?
E olhar para o rosto dela? Isso pode ser uma boa idéia.
Droga, ela está olhando para o outro lado. Mas o cabelo é muito bonito, um cheiro muito agradável.
Quem eu quero enganar? O cabelo é bonito mas aqui está cheirando a álcool.
Conhaque para ser mais exato.
Epa. Será que ela está bêbada, exalando, e eu não consigo perceber?
Impossível. Os saltos marcavam passos ritimados. Não ouvi tropeços ou tropicões. Ela não está alterada a este ponto.
Será que sou eu?
A ressaca ontem foi pesada mesmo. Mas não, muito improvável.
É esse lugar, com certeza. Preciso tirá-la daqui. Mesmo sem conhecê-la.
Eu posso sair. Ela pode vir atrás. Acho que vi uma olhada de soslaio.
Mas e se ela não vier atrás? Aliás, porque ela viria atrás? Ela pode ter olhado meu sapato e pensado, “Nossa, igual do meu tio-avô”.
Isso acabaria com a minha noite. Se bem que já são quatro e meia da manhã.
E pensando melhor, o que essa mulher está fazendo num lugar desses essa hora?
Deve ser namorada do cara do bar. Daí fica difícil.
Seria mais fácil se ela fosse meretriz. Como eu vou perguntar isso?
Bom, acho que aí, eu posso simplesmente sair. Ela pode vir atrás.
Mas já é tarde. E se acabou o turno dela?
Eu nunca namorei uma puta. Como será?
Namorados de putas também são cornos? É o trabalho delas, afinal de contas.
É uma dúvida legítima. Vou perguntar.

- E cerveja escura? Uma então.

Ela me notou. Ela gosta de cerveja escura.
Ela tem um jeito diferente mesmo. Será que é estrangeira?
Para gostar de cerveja escura, deve ser escocesa.
Ouvi dizer que na Grã-Bretanha as moças são liberais, mas demoram para iniciar uma conversa.
Isso significa que posso estar me dando bem sem saber.
Um gole para comemorar o meu sucesso.
É uma boa cerveja.
Estou no lugar certo. Uma boa cerveja, uma boa mulher.
Pare com isso.
Você ainda nem sabe como é o rosto dela.
Ela ainda não disse uma palavra. Parece muda.
E se for?
Interessante. Já saí com uma muda uma vez.
Entre uma muda e uma escocesa, fico com a muda. Se for sair com a escocesa quem fica mudo sou eu.
Mas como ela pediu o vinho? Não existe cardápio, não existem garrafas de vinho expostas. O sinal universal do “traz uma bebida” é sinônimo de cerveja.
É, ela não é muda.
E não existem meretrizes escocesas na cidade. Isso aqui não é Amsterdam.
Ou seja, está tudo bem. Ela é como as outras.
Você já sabe lidar com esse tipo.
Então, é agora.

Meeeeerda. Eu vi.
Fudeu.
Com esse tipo eu nunca soube como lidar.

- Mas por que ela tem que ser tão linda?

Caralho. Eu disse isso? Disse.
Ela está olhando. Com cara de assustada.
Saiu.
Foi embora.
Realmente, sou muito burro.
Só indo embora mesmo.
Eu devia seguir o mesmo conselho silencioso.
Vamos.
Um passo de cada vez.
Só por que você destruiu sua noite com uma frase?
Quão ridículo.
Bela porta de entrada.
Já está clareando.

- Oi.

É ela. O que eu digo?

- Fiquei imaginando se você sairía logo depois que eu saísse.

Droga. Ela é rápida. Como não pensei nisso antes?

- Eu estava indo para casa. Quer vir?

Aceite
Isso. Muito bem.
É, eu adoro o tipo linda.
Mas adoro ainda mais o tipo objetiva.

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Regina Spektor – Begin To Hope. Nas palavras de um bom amigo, “é como se Tori Amos tivesse encontrado Diamanda Galás num beco escuro”. E com Regina é certeiro: você encontra e se encanta.