Quando o inverno chega em um país tropical há sempre uma sensação de exagero. Os termômetros ainda marcam temperaturas agradáveis, algo como entre dezenove e vinte e um graus, mas nas ruas cachecoles, luvas e toucas de lã já fazem parte do visual.
Tudo bem que não é exatamente um regozijo um dia trinta e cinco graus, no outro vinte. É, no mínimo, um bom motivo para mães e avós ficarem falando de friagem e de vento nas costas. Agora, o que não é exagero é preferir três matriarcas, sete madrinhas e doze senhoras de asilo penduradas no seu ouvido a usar cachecol com vinte graus. Cachecol sem necessidade é igual natureza, pinica.
Em compensação, sentar em um banco de concreto daqueles de praça, observar a fragilidade e o medo das pessoas de sairem de sua zona de conforto é algo que só a primeira de poucas semanas de frio em um país tropical pode oferecer.
Imagine só o processo da mulher, que sempre faz chapinha antes de ir para o trabalho, como ficou mais complexo. Aqui a temperatura é fator determinante. Quanto mais frio, mais difícil despertar. O ânimo parece que se esconde entre a terceira e quarta vértebra do lado que você está deitado na cama e de lá só vai sair quando o último iceberg ficar do tamanho ideal para servir um copo duplo de vodka.
Depois de decidir que é hora de levantar, a moça percebe que agora é a chapinha (e seu charme) ou a reunião (e seu emprego), a donzela, responsável que é, opta pela reunião. E sem penumbra de dúvida ela pensa que ao se empetecar, ao colocar uma calça mais justinha e ao colocar um cachecol vindo direto da Argentina (ou de Maceió) vai desviar a atenção do seu cabelo, hoje extremamente mal tratado. As botas, altíssimas, quase conseguem, mais pela cafonice do que qualquer coisa. Ilusões, muitos seres humanos se alimentam exclusivamente disso.
Já o rapaz engomadinho é ainda mais interessante. No exato instante que eu acendo um cigarro ele tenta fazer o mesmo. Só que o pulha está usando luvas. Ele continua tentando, com uma mistura de ar superior – que as luvas de pelica alemã conferem ao homem – e de orgulho se quebrando por não conseguir manejar nem isqueiro nem cigarro com a mesma habilidade que tem com as mãos desprotegidas. Vinte graus. Se não for vergonha da micose não sei o que faz alguém usar um acessório desses nessa temperatura.
Do meu ponto de vista, caso estivesse sentado no banco, isso é só uma das possibilidades que a queda de temperatura proporciona. Termômetros em queda até uma temperatura aceitável servem como uma bolha boa. No meio do mormaço, todo aquele bafo cinza de quilômetros cúbicos de fumaças são expelidos direto no seu nariz. O raciocínio e o pensamento destoam da razão e da fantasia – estão perdidos –, as idéias tornam-se pesadas. Calor foi feito para a praia. Uma temperatura amena na cidade é quase que um convite à reflexão, é um pedido para que você pare de suar com seus problemas e pense mais no que está a sua volta.
Dezenove ou menos graus servem para você ficar bem, dentro ou fora de casa, e ajuda a fazer tudo com calma, e o melhor, nem sempre seu pensamento precisa fazer sentido para os outros. Você está pensando, tirando conclusões, não escrevendo uma tese. Um gato pardo andando pelas beiradas de um muro pode ser mais inspirador do que um aparelho de ar-condicionado caindo do último andar de um edifício comercial. O óbvio, como as moléculas, fica menos apressado e mais elegante em temperaturas mais baixas. As sutilezas ficam mais aparentes, ao ponto do ar se mostrar sempre que sai de uma boca para o mundo.
Ano passado tivemos inverno, garanto. Mas de praxe, a estação mais imponente do ano sempre tem um tempo muito curto por aqui. E aflitivamente, a cada ano, sempre que chega o inverno eu concluo que as pessoas pensam menos. Esse ano eu adoraria ver menos pessoas falando irracivelmente pelas ruas e mais transeuntes chutando pedrinhas enquanto andam (essa sim uma atividade que enche o cérebro de idéias e devaneios produtivos). Todo um bairro pensando em mil coisas, andando, parado, sentado em um banco de concreto daqueles de praça, imaginando uma arlequinada qualquer, mas que estejam dedicando ao menos cinco minutos de profundidade à momice.

Mogwai – Happy Songs For Happy People. Ondas sonoras que mais parecem um convite à reflexão irresponsável, (in)coerente, libertina e que vez ou outra leva a conclusões surpreendentes.