Certa vez ouvi relatos de uma mãe nada coruja, mas ainda assim muito apegada ao filhote, que o garoto no auge dos seus sete anos adora beijos de meninas mais velhas – por volta dos seus quinze anos – com a mesma intensidade que repudia os beijos melosos da tia Rosana.
Além do nome em comum com esse garoto, a semelhança de comportamento me surpreendeu. No meu caso, a tia Judith, com um agá horroroso no final do nome, ficava lambuzando minhas bochechas com beijos estalados e ao mesmo tempo ensinava a pronúncia correta do seu nome, que na sua concepção distorcida de sonoridade, em muito diferia da sua vizinha, Judite.
Tia Judith foi meu primeiro contato quase traumático com o sexo oposto. Levando em conta que menos de 1% da população deve lembrar de como era ser amamentado pela mãe, tias Rosanas e Judiths podem ser consideradas a principal causa de um dos grandes argumentos psicológicos sobre o comportamento masculino e feminino na adolescência: o de que meninas amadurecem primeiro.
Veja bem, as meninas são tratadas de maneira bem mais harmoniosa pela família. Imaginem o que o pai e mãe iriam pensar se vissem o tio Clóvis dando beijos e mais beijos nas bochechas rosadas de sua filhinha indefesa. Pedofilia, perversão, sodomita enrustido. E essa concepção passa pela cabeça do tio Clóvis, logo a menina cresce em paz com o sexo oposto.
Aos treze anos boa parte das meninas já menstruaram e estão louquinhas para testar seu novo estado hormonal, digno de uma mulher. Mulher?, pensa o menino de treze anos com o kichute e a bola de capotão no pé. A imagem da tia grudenta é imediata. Dentro desse contexto atingir um pé de igualdade é difícil. Mas tudo melhora depois que beijar fica uma coisa normal. Normal não, gostosa.
Nesse momento, as meninas que não aguentavam mais esperar o amadurecimento dos infantes já partiram para a ação com garotos mais velhos. E você, tolhido em suas ações, começa a olhar para as meninas mais novas. Crianças.
Quando carícias, beijos e sexo já fazem parte do vocabulário e do repertório corporal de qualquer pessoa, aí sim revela-se o lado de tia Judith dos homens, e não é o lado meloso, é o lado possessivo. Tia Judith, como tia Rosana, coitadas, são as tias que nenhum homem quis. Perdoem-me as duas e suas variações espalhadas pelos cantos do mundo, mas vocês estão nessa situação porque são chatas e apegadas.
Se quando éramos pequenos os beijos dessas hárpias da gosma bucal caía sobre nossas faces, agora crescidos, esse sentimento cai sobre nossas acompanhantes. Do mesmo jeito que a titia queria tomar whisky, fazer os docinhos do aniversário, fumar um cigarro, grudar na sua bocheca; você quer tomar uma cerveja, fumar um cigarro, fazer uma bagunça e quando chegar em casa encontrar sua mulher. Elas eram possessivas, você ainda é.
Sem notar que já fizemos uma mulher chorar (senão muitas), somos arrebatados por uma porrada psicológica e ao perceber que não existirá uma mulher quando chegarmos em casa, uma mistura de posse com pânico se acomoda em algum lugar entre o estômago e o último dos neurônios. Sinapses enfervecidas com ketamina não conseguem produzir tal efeito.
Mas acredite, xarazinho do começo do texto, isso não é uma regra, mas que sua mulher no futuro não estará fazendo docinhos, é verdade. E pior, quando você for procurá-la vai achar uma boca selada a outra em cada esquina. Para sua tristeza, ao menos uma delas será conhecida. Nesse momento, um beijo na bochecha nos ajudaria a superar essa situação – não a visão da alheia, mas a possessividade humana inerente – mesmo que fosse um beijo da tia Judith.

Aqueduct – I Sold Gold. I’d never leave you there screaming for my love. Uma homenagem subjetiva ao desapego.