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OLHE PARA OS DOIS LADOS

Junho 9, 2009

Precisa de muita coragem para pular quando você chega até o parapeito de uma cobertura. Ainda mais nessa porra de prédio. Só três andares. Ao invés de ver meus miolos espalhados por aí enquanto ascendo ao meu estágio mais elevado, corro o risco de ficar ouvindo os médicos falando do traumático estado vegetativo irreversível que me encontro. Já tive uma amiga que tentou se matar com uma arma. Colocou o cano na própria boca e atirou. Ficou cega, sem cabelo, sem dois terços do maxilar e ainda assim não abotoou o corpete. Foram doze anos de coma induzido até que sua irmã conseguisse subornar direito o chefe do departamento de internações para que ele desligasse as máquinas: boquetes semanais por tempo indeterminado. O médico teria aceitado a oferta de quase um milhão dos pais, não tivesse visto a garota de shortinhos, aos quinze anos, se debruçando e chorando sobre a caçula ainda no local da tentativa de suicídio, isso na época que ainda era legista do Denarc.

Eu não tenho irmã para fazer boquetes. Só tenho um namorado que, por sinal, me chupa com a boca tão chocha que dá ainda mais vontade de soltar meu corpo à ação da gravidade. Filho da puta. Agora ele deve estar no banheiro daquele cortiço que ele chama de trabalho batendo uma punheta pensando em qualquer vadia que use um decote. Não é à toa que chega brocha em casa. Quem se acostumou à desculpa da dor de cabeça está fudida. Agora os caras falam de stress, abrem uma cerveja ou uma cartela de antidepressivos para relaxar antes que a gente consiga lembrar se o comprimido de casa é Neosaldina ou Melhoral.

-    Desce daí, menina. Pelomordedeus. Se você se arrebentar o edifício tem que pagar uma multa – gritou o zelador do prédio lá do térreo. É a terceira vez em duas semanas.

-    Vai se foder. – respondi com todo o ar do meu pulmão, imediatamente antes de sair de perto da beirada e retornar ao meu apartamento.

Nos dias de hoje não conseguimos nem subir no parapeito de um prédio em um dia de ventos fortes que alguém já enche o saco. Eu gosto de refletir em lugares diferentes, que me ofereçam um pouco de risco. Assim você pensa só no necessário, não fica perdida em devaneios. Mas deixando a objetividade de lado, é muito estranho que existam equipes especializadas em evitar o suicídio – especificamente aquele suicídio de filmes que o cara pula de uma janela em uma grande avenida comercial. Psicólogo especializado com megafone, equipes de segurança e resgate surgindo por detrás dos edifícios mais altos e espelhados da metrópole. Para que todos esses caralhos? Quando alguém vai se matar mergulhando de cabeça no asfalto, não dá tempo de chegar ninguém, a não ser que seja para recolher amostras que podem confirmar se o autocida estava chapado de mescalina. Se por ventura, alguém equipado com qualquer parafernalha chegou antes do salto, é sinal que o suicida em potencial está vacilando. Logo, qualquer coisa que o negociador fale diferente de “Pula que é fofinho” deveria surtir efeito intimidador. E até o imbecil do meu namorado sabe que ninguém incentiva o amargurado sujeito. Você já está em dúvida, não ouve nenhum reforço positivo e ainda assim se joga. Não ter certeza das coisas é um dramalhão do cacete.

Hoje faz cinco meses de ócio forçado. Uma data que precisa ser comemorada com um drink. Mês que vem é o último que posso contar com salário-desemprego. É uma merreca, mas é melhor que nada. Morando nessa pocilga ainda consigo salvar algum para trabalhar no meu projeto de fibradora. Encontrei esse curso de modelagem no vidro que é quase grátis. Somos em sete alunos e só temos que dividir o táxi do professor. A aula é em um galpão grande que já tem tudo. As resinas, as mantas prensadas, tecidos trançados, fitas, cordéis, luvas, fornos. Adoro a idéia de uma peça de alta resistência que não enferruja, ao contrário do meu carro. Veja bem, tenho profunda paixão pela minha Variant 73, mas um antixoidante não faria mal. De qualquer maneira, acho muito interessante uma profissão que algumas pessoas chamam de fibrador e outras de artista. Eu me classificaria como funcional. Já até fiz meu copo de dry martini, uma pena que nenhum lugar dá desconto para quem traz o acessório de casa. Talvez eu devesse abrir um bar que a cerveja fosse mais barata para quem trouxesse seu próprio copo, e ainda mais barata para aquele grupo que deslocasse sua mesinha de metal. Trouxe as batatas, porção de fritas com 80% de desconto. Penso sobre isso no banho e enquanto passo a toalha muito devagar para não machucar minha pele na hora de me enxugar. Telefono para umas dez pessoas chamando para uma saidinha básica no fim de tarde. Deixo um post-it com o nome de um drinkplace que meu namorado conhece e pode me encontrar, mesmo duvidando que ele vá. Passo pelo microondas, tiro a xícara com ketaminina para suínos que estava ali desde ontem de madrugada, cheiro uma carreira, guardo o resto em um plástico com lacre, coloco no bolso e saio sem nem me preocupar em trancar a porta.

As ruas estão começando a ficar caóticas novamente. Às 18h25 ninguém anda a mais de quinze quilômetros por hora, e esse número só começa a melhorar a partir das 21 horas. Quase três horas de angústia. Por isso minha Variant ficava mais na garagem do que em qualquer lugar. Será que é por isso que ela está enferrujando tanto? A garagem é bastante úmida. Depois de dois quarteirões caminhados, duas batidas: a primeira envolvendo um carro e uma moto, a segunda foi da PM em uma kombi, revista geral. Um bom dia para ser uma pedestre.

Cinco blocos para aquele lado de lá da minha casa e eu já estou sentada em minha mesa favorita, onde eu consigo ver todo movimento de pessoas, de carros, de motos, de animais de estimação em coleiras ou animais abandonados abanando o rabo por um caroço de azeitona. Pedi meu manhattan e cinco cigarros avulsos. Gosto de deixar o cigarro pra fora da caixinha, como se ele estivesse respirando, e além disso minhas calças são muito justas para não amassar o invólucro. Não importa o quanto tenha de lycra, no bolso da frente, tenho os ossos saltados, no bolso de trás, sou distraída o suficiente para sentar em três pacotes por dia.

As pessoas começam a chegar, o bar começa ficar com cara de bar. Os neóns se acendem. Daqui a pouco os primeiros copos começam a se quebrar e o aroma da fumaça exalada dentro dessas paredes começa a se misturar com o álcool vertido. A essência de fritura também se acentua a cada quarto de hora. O duto de ventilação funciona, mas ele já está com uma crosta melequenta, grudenta e cinza. Provavelmente nunca foi limpado em seus mais de vinte anos. Minhas amigas esboçam um sorriso que só eu conheço. Não preciso nem olhar para o lado de fora. Sei que meu irmão está entrando no local. Não achei que ele vinha.

-    Trocou a chatinha pela irmãzinha é? – perguntei enquanto ele estalava um beijo na minha testa.

-    Ela não é chatinha, querida irmã. E dividimos nosso circo entre tenda e picadeiro. Ela foi voar e eu fiquei, para me apresentar debaixo de chuva.

-    E para onde a ruivinha foi bater as asinhas?

-    Para a casa dos pais. As palavras que você proferiu a ela no último final de semana surtiram efeito. Aparentemente, ela achou que voltar para baixo das asas paternas seria mais vantajoso do que continuar dividindo a cama comigo.

-    Eu não tenho culpa que ela é uma mimada desocupada.

-    Desocupada? Achei que estávamos comemorando seu salário-desemprego, mas aparentemente devemos brindar a alguma promoção fantasia em um emprego imaginário. – disse sarcástico, com sorriso de canto de rosto, enquanto cumprimentava cada uma de minhas três amigas com um beijo suave na boca.

Eu simplesmente não conseguia me irritar com ele.

Pedi um canundinho para beber minha cerveja. A K começava a fazer seu trabalho e eu não queria uma roupa banhada em lúpulo.

-    Você devia parar com isso, sabia? – falou sério meu irmão enquanto o resto da mesa conversava.

-    O sóbrio está me dizendo o quê? – respondi, querendo entender o que as outras pessoas estavam falando para não continuar esse assunto.

-    Você nem salário vai ter daqui um mês. Com um entorpecente barato desses, provavelmente está gastando mais do que imagina.

-    E você vai me emprestar dinheiro para eu comprar algo suficientemente caro para o seu gosto?

-    Ora, estou limpo a muito tempo e não me importava com o valor do que ingeria, sabe disso do mesmo jeito que sabe que não posso te emprestar nada. Minha conta foi cancelada depois daquele leve incidente.

-    Leve? Você destruiu nossa família – lembrei-o segurando o choro.

-    Mamãe e papai estão em um lugar melhor.

-    E como você sabe? – desafiei.

-    Eu fui para o pior. E eles não estão lá.

Um princípio de vômito desce pelo canudinho e começa a boiar dentro do copo meio cheio. Me levanto na hora e vou ao banheiro. Nada mais é processado. Eu quero colocar tudo para fora: o álcool, o cigarro, o pastelzinho de carne seca, o salário desemprego, meus últimos seis anos. Quero alguém que conheça meus defeitos e queira ficar ao meu lado, mesmo com tantas novas qualidades, prontas para serem descobertas a cada esquina iluminada por uma luz fraca de um poste antigo. Eu quero meu namorado. Mas eu sei que ele não vem. Abro o plástico que estava em meu bolso com uma dentada e anestesio minhas lembranças.

Volto pálida e sorridente do banheiro. Eu não via mais meu irmão. Minhas amigas já tinham se acostumado comigo assim, mas ainda olhavam com preocupações claras no cenho e na inquietude das mãos. Sento entre elas e me imagino amada. Peço uma água com gás e começo a soluçar. Todas as lágrimas tinham evaporado com meus pensamentos. Só conseguia soluçar. E o fiz sem vergonha, sem me importar no que meus convidados pensariam. Podem até pensar que chorava compulsivamente por conta deles que não estariam totalmente errados. Soluçava, soçobrava, engolia ar até quase sufocar na esperança de trazer do âmago a pessoa que eu amava, e junto com ela os sentimento do nosso primeiro olhar.

Quando meus olhos marejados apontam para o outro lado da rua, ele está lá. Com flores na mão. Olhando para dentro do bar. Eu vou rápido na direção dele, com as pernas pesadas, dando passos errados, mas não consigo esperar. Assim que me vê, joga as flores para cima como se estivesse desesperado. As gardênias são provavelmente para sua amante. Me viro sem pensar, torcendo a coluna de decepção e dou de frente com um caminhão. Tão perto, tão rápido, deslocando a mesma quantidade de ar que uma brisa matinal em sua tentativa fracassada de derrubar as gotas de orvalho. Consigo quase ver os pistões dentro da carroceria. Minha pele amodorrada e meus ossos dormentes mal reagem ao impacto, minha língua deixa de perceber os dentes.

Eu não sou atormentada por nenhuma dor, isso é bom. Eu posso sentir apenas o que eu quero sentir. Meu namorado me abraça, eu vejo que as flores são para mim. Aquecida, mesmo estando gelada. Isso é bom. Muito bom.

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Melody Club – At Your Service. Indicado para aqueles com dificuldades em aproveitar a vida, mas que morrem de inveja de quem sai pulando pelas pistas de dança.

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