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A PRIMEIRA VEZ ANTES DA PRIMEIRA VEZ

Fevereiro 8, 2008

Está mentindo a garota que discorre sobre sua primeira vez, relembrando dolorosa e maliciosamente da experiência que teve entre os catorze e dezoito anos. Mas não se matem, meninas, vocês não têm a menor idéia de que estão mentindo. É um loroteiro de marca maior o garoto que se gaba de ter consumado o coito pela primeira vez aos treze – ou pouco depois disso – enquanto caçoa de seus coleguinhas de turma que mantêm a virgindade. E é um tolo o coleguinha que baixa a cabeça, resignado com sua virilidade, quando deveria responder que a primeira vez dele acontecera há alguns anos. E não só a dele. Desconsiderando a fase oral, a primeira vez de muita gente aconteceu muito antes do que eles mesmos se lembram e consideram a fornicada primogênita.

Há quem considere sexo somente o ato da penetração. Provavelmente as mesmas pessoas que não consideram felação algo estimulante. Esse tipo de mentalidade contribui diretamente para o tabu da primeira vez. Se todos adolescentes e seus hormônios incontroláveis atingissem a etapa final sabendo que a primeira vez não é, na verdade, a primeira vez, tudo seria mais fácil e menos traumático. O primeiro dia de escola é uma experiência considerável para algumas crianças, mas não se compara à primeira relação mais profunda. O primeiro dia de trabalho é cercado de muita expectativa, mas não pode competir com a implacabilidade da primeira noite (manhã? Tarde?) de um pré-adolescente. Todas essas atividades (ir à escola, ao trabalho, sexo) são realizadas exaustivamente durante nossas vidas, por isso o conceito da primeira vez deveria ser revisado por algum conselho de pedagogia psicanalítica e adotado em instituições de ensino particulares e estaduais. Veja por este ângulo: duas crianças em um banheiro, muito mais do que um ato recriminado por pais católicos e pelas freiras do internato, é o cenário de um dos momentos mais excitantes da infância. O banheiro torna-se, nessas circunstâncias, o motel de quem ainda não tem idade para dirigir nem pedalinho. Outro bom exemplo é um casal de velhinhos desdentados e impossibilitados de movimentar a pélvis. Eles buscam no sexo oral banguela-genginitivo sua dose mensal de hormônios e incitamento naturais. Assim, percebemos que a idade é sim um limitador da atividade sexual, mas não da libido.

Tirando (novamente) a fase oral e as variações de cópula com galináceos, ovinos e eqüinos, mais relatadas na forma de piada do que como know-how, a maioria dos meninos e meninas tem sua primeira experiência antes dos dez anos, e o ser oposto normalmente é: irmã(o) de outro casamento do pai, prima(o), amiga(o) da escola ou da rua (do prédio/do condomínio). Dificilmente esse tipo de relação ocorre em locais de pouca freqüência. Clubes, por exemplo, se são usados única e exclusivamente para a prática de um esporte podem gerar as subseqüentes experiências da garota ou do raparigo, mas não a primeira, quando ainda existe uma cumplicidade entre os praticantes do ato. Poucas crianças falam “mostra o seu que eu mostro o meu” para um desconhecido.

A desconstrução do mito da primeira vez começa com a desmistificação do ritual de passagem. É só sexo. Não significa que você tem que caçar um leão com um abridor de latas. Não é algo que você vai fazer uma vez na vida para provar que pode ser um o guerreiro-chefe ou capitão de um caiaque. Da mesma maneira, as garotas que mais cedo percebem que a foda de princesa vai acontecer dos vinte e poucos em diante, que a primeira vez vai doer, mais cedo vai perceber os prazeres que o sexo proporciona, seja o tântrico ou a rapidinha na caixa d’água.

Um bom gosto e disposição nas preliminares (e por preliminares entenda até o beijo que antecede a mão nas nádegas quando se tem 11 anos) mostram subliminarmente ao parceiro, então um amador cheio de medos e nojos (os quais você já superou), que ninguém faria algo ruim com tanta disposição. Ou vocês acham que o carrasco não gostava de ficar dando nós em cordinhas e afiando lâminas? Porém, ao contrário das crianças descobrindo a sexualidade, o carrasco tinha uma sociedade, ou ao menos mandatários, que o apoiavam e incentivavam suas sevícias.

Mas novamente, meninos e meninas, não se aflijam. Existem sempre livros sofríveis cheios de dicas traumatizantes sobre a construção de um relacionamento saudável. Eles são para maiores de 18 anos, mas tudo bem, revistinha de sacanagem também é e qualquer moleque de calças curtas compra um exemplar. E o principal na fase de transição entre bandeirante dos hormônios e conquistador de experiências é nunca deixar de fazer alguma coisa que lhe dê prazer, como tomar fanta uva, comer sanduíches de manteiga com açúcar e se quiser incluir na lista, sexo e coisas proibidas por aqueles que não tiveram coragem de colocar essas mesmas coisas em prática.

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New Pornographers – Electric Version. Pop pornô de rapidinhas que mais parece a aula “Rock Contemporâneo: Composição e Bom Gosto Para Bandas Superestimadas”. Combina com cervejas, refrigerantes radioativos, conhaques, cigarros e pedaços de camembert, tudo junto. Para quem não tem tabus com músicas que grudam nos ouvidos desde a primeira vez.